Tecnologias móveis foram muito importantes para garantir conectividade durante a pandemia

Entrevista a Carlos Olivera Terrazas, Diretor executivo da AGETIC Bolívia

A Covid-19 colocou em alerta todos os mercados da América Latina, que começaram a trabalhar em opções para manter a população segura e sustentar o sistema produtivo . Nesse contexto, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) desempenham um papel fundamental na manutenção de vários sistemas de produção ativos.

Carlos Olivera Terrazas, diretor executivo da AGETIC

Sobre o papel das TIC na Bolívia, Brecha Zero conversou com Carlos Olivera Terrazas, diretor executivo da AGETIC. Ele é sócio fundador da empresa de aplicativos móveis e videogames Island of the Moon. Além de ser o organizador e fundador do GDG Cochabamba (Google Developers Group), ele é desenvolvedor de software desde 1997 e pioneiro em tecnologias móveis desde 2002.

Brecha Zero: Como as TICs, especialmente as relacionadas à conectividade, ajudaram no enfrentamento da crise provocada pela pandemia de Covid-19?

Carlos Olivera: A Bolívia enfrentou a pandemia de Covid-19 durante um processo de mudança de governo, com a saída de alguém que passou 14 anos no poder, onde,  cidadãos comuns não viram um grande avanço na questão das TIC. E isso ficou evidente na questão do sistema de saúde e do sistema de vigilância e controle epidemiológico.

Quando assumi a liderança da AGETIC, em dezembro do ano passado, o que encontrei de uma maneira  geral foram boas intenções, muitos semi-projetos, mas pouquíssimas soluções que impactaram a população.

Quando tivemos que apoiar o Ministério da Saúde com a questão do Coronavírus [novo coronavírus SARS-CoV-2] a unidade de vigilância epidemiológica (SNIS), o departamento de epidemiologia em absoluta obsolescência e o governo de uma forma geral, tivemos que fornecer soluções de curto prazo, soluções urgentes e também trabalhar em soluções de médio e longo prazo como a digitalização do sistema epidemiológico na Bolívia.

Já avançamos nessa questão, desenvolvemos um trabalho de digitalização dos arquivos , estão em andamento soluções urgentes como um aplicativo móvel, para que as pessoas possam se auto-diagnosticar, para que possam se informar. Mas o principal desafio foi trabalhar na digitalização completa do sistema.

Brecha Zero: Quais foram as principais iniciativas da AGETIC para enfrentar esta crise?

Carlos Olivera: A digitalização da vigilância epidemiológica e tudo o que é controle do sistema epidemiológico foi uma das iniciativas, outra iniciativa foram as propostas para a abertura regulatória, na área de banco eletrônico e banco digital. O tema de uma carteira acessível e de baixo custo que não dependa de regulamentação para ser uma porta de entrada do setor bancário.

Estamos trabalhando na questão do governo aberto, em relação aos gastos, a melhor maneira de combater a corrupção é a transparência. Esses seriam os três principais, a saúde, a iniciativa do banco eletrônico e a iniciativa da transparência.

Brecha Zero: Quais setores (saúde, educação, governo, agricultura, trabalho) foram melhor adaptados para o uso das TIC no enfrentamento do isolamento social?

Carlos Olivera: Definitivamente não foi a educação. A educação pegou a todos de surpresa, escolas particulares e públicas, estamos ainda definindo como podemos resolver a questão da educação a distância. O setor bancário, mesmo com os bancos contra as regulamentações, implementaram maneiras de lidar com a situação.

Existem muitos bancos que lançaram portais onde se pode abrir uma conta online, praticamente 95% do processo é feito online. É o setor que descobriu com mais rapidez como lidar com os desafios da pandemia.

Brecha Zero: Quais desafios tiveram que ser enfrentados por todo o país para melhorar as condições de conectividade dos habitantes?

Carlos Olivera: Temos que reconhecer que na questão da conectividade a gestão anterior lançou mão de um grande esforço com o objetivo de levá-la ao maior número possível de habitantes. Há cidadãos em regiões remotas que têm conexão 4G, dos municípios existentes na Bolívia, 5% não têm conectividade, muito progresso foi feito em questões de conectividade.

Mas com o advento da pandemia a questão da largura de banda, videoconferência e outros usos pesados que exigem ​​da largura de banda, mais avanços devem ser realizados. A empresa estatal de telecomunicações, ENTEL, entrou em colapso devido à alta demanda exigida durante esses dias. É necessário trabalhar mais na questão da largura de banda do que na conectividade remota.

Brecha Zero: Qual a importância das tecnologias móveis no esforço de garantir a conectividade em diferentes setores?

Carlos Olivera: Muito importante. A questão do aumento na competitividade das empresas que oferecem serviços de telefonia móvel de banda larga tem sido muito importante. A grande maioria dos bolivianos fazem uso de internet móvel, pacotes, ofertas, a concorrência entre empresas é muito importante.

E vem sendo um fator muito importante, os telefones celulares estão sendo usados ​​na educação a distância. A oferta de telefonia móvel é tão variada e boa que muitas famílias optam diretamente pelos pacotes de dados da telefonia móvel (em relação a internet fixa).

Brecha Zero: Você pode mencionar quais lições que a crise causada pela pandemia deixou até agora?

Carlos Olivera: Como governo, na Bolívia, precisamos ser mais ágeis. Temos que dar maior importância às unidades, aos departamentos de tecnologia, às mesas de reuniões onde são tomadas decisões e nas reuniões governamentais.

Durante a pandemia, eles perceberam que precisam dar-lhe maior importância (às TIC), de que não é um tópico isolado. A questão das TIC deve ser levada em consideração nas estratégias governamentais, em todas elas. Eu acho que no governo boliviano essa é a principal lição a ser aprendida sobre o assunto.