Panamá está trabalhando em um roteiro para 5G

Entrevista com Hildeman R. Rangel – Diretor Nacional de Telecomunicações da Autoridade Nacional de Serviços Públicos (ASEP) do Panamá. Parte I

Os mercados latino-americanos estão na transição entre a pandemia e o pós-pandemia. As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), especialmente os serviços de banda larga, ajudaram a superar esses processos e melhorar as condições de vida dos habitantes, bem como a desenvolver a economia e os diversos setores da sociedade.

Sobre esses assuntos, o Brecha Zero conversou com Hildeman R. Rangel, Diretor Nacional de Telecomunicações da Autoridade Nacional de Serviços Públicos (ASEP) do Panamá. Com uma longa carreira no setor de telecomunicações no país, Rangel trabalhou anteriormente como Gerente Sênior de Operações de Cabo e Sem Fio Panamá e foi Diretor Adjunto de projetos e processos da Cable Onda. Engenheiro Eletrônico por formação, Rangel estudou na Universidade Tecnológica do Panamá e possui mestrado em Direção, Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Latina do Panamá.

Brecha Zero: O quanto as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) ajudaram a economia panamenha a superar as complicações associadas à pandemia?

Hildeman R. Rangel: Como todo mundo, elas nos tomaram como Estado, como país, e sem uma preparação prévia. Obviamente isso aconteceu com todos os países. Um desses grandes impactos da pandemia foi o crescimento do tráfego nas operadoras móveis. Parte da informação que elas compartilharam conosco é que tiveram um aumento de mais de 40% no tráfego, então tivemos que fazer ajustes diferentes.

Nesse sentido, como parte de uma estratégia nacional de enfrentamento à pandemia, o Governo Nacional, por meio da Autoridade Nacional de Serviços Públicos, disponibilizou temporariamente e de forma gratuita recursos de espectro à indústria móvel para sustentar as comunicações e o acesso à banda larga necessário para a população em suas diferentes atividades, especialmente na reinvenção destas para gerar renda. A utilização desse recurso de espectro cedido exigiu, em algumas zonas do país, a implementação de nova infraestrutura, que foi instalada nos parâmetros da regulamentação em vigor. Este empréstimo ajudou tanto as operadoras que, de fato, já faz parte de sua operação e está incentivando-as agora a querer pagar por esse espectro.

Por outro lado, desde 07 de setembro de 2020, o Governo Nacional, em conjunto com as quatro operadoras de telefonia móvel, estabeleceu o “Plano Educacional Solidário”. Ele visa facilitar a conexão e participação em aulas virtuais com as plataformas Ester e Office 365/Teams para que os alunos sempre tenham acesso à educação virtual. Da mesma forma, as operadoras de telecomunicações assinaram um acordo destinado a garantir conectividade aos clientes afetados pela crise de saúde que não têm condições financeiras de acessar os pacotes comerciais oferecidos no mercado. Esses “Planos de Solidariedade” acontecem da seguinte forma:

  • No caso dos serviços móveis, é instituído o Plano Pré-Pago Solidário, que prevê que os clientes receberão um pacote básico mensal gratuito de 200 mensagens de texto (SMS) e 100 minutos de voz dentro da rede de sua operadora (On-net), sem restrição de chamadas recebidas e mensagens de texto;
  • Os clientes pós-pagos podem optar pelo Plano Básico Solidário, que oferece gratuitamente 250 minutos de voz e 250 mensagens de texto na rede de sua operadora (On-net). Também não tem restrições para chamadas recebidas e mensagens de texto;
  • A segunda opção para os clientes pós-pagos é o Plano Solidário Plus, que tem um custo mensal de B/. 7.00 (equivalente a R$ 36,00 aproximadamente) e inclui 500 minutos de voz e 250 mensagens de texto na rede da sua operadora (On-net), além de 1,5 GB para dados e nenhuma restrição de chamadas recebidas e mensagens de texto.

Brecha Zero: Quais setores você acha que fizeram o melhor uso da tecnologia para enfrentar os obstáculos impostos pela pandemia?

Hildeman R. Rangel: Sem dúvidas, a educação. Obviamente as escolas tinham que se tornar virtuais. As empresas privadas tiveram que mudar suas operações para residências. E o governo teve que digitalizar processos que eram, evidentemente, um pouco burocráticos antes porque tinham que entregar documentos que podiam ser enviados digitalmente.

A economia digital também foi exponencial e os grandes negócios, que antes orientavam sua economia para lojas físicas, tiveram que levar suas operações para o mundo virtual. Acho que isso foi muito importante junto com a digitalização do Estado. Tivemos que fazer a transformação digital de processos que antes achávamos que não era possível, assim como ajustes na regulamentação da comunicação, já que muitos processos eram comunicados fisicamente e trabalhamos para que isso também pudesse ser feito de maneira digital.

Ou seja, as tecnologias digitais têm sido essenciais para o funcionamento da economia e da sociedade durante a crise da pandemia. As redes e a infraestrutura de comunicações são utilizadas cada vez mais intensamente para atividades produtivas, educacionais, de saúde, de relacionamento e de entretenimento. Avanços que deveriam levar anos para se materializar, aconteceram em poucos meses. As soluções digitais nas áreas de saúde, educação, comércio e trabalho têm desempenhado um papel de liderança no combate à COVID-19, pois facilitam o distanciamento físico e possibilitam o funcionamento do sistema socioeconômico em certa medida.

Esses setores, como outros, aproveitaram o uso da tecnologia, em sua maioria, por meio de aplicativos que possibilitam o teletrabalho, educação a distância, realização de procedimentos, interação social e entretenimento, comércio eletrônico, etc. Mas, sem dúvida, destaca-se que o fator facilitador para seu uso é a conectividade.

Em suma, o setor privado digitalizou seus processos de vendas e o governo foi um dos grandes vencedores em termos de transformação de muitos processos. Ou seja, a digitalização da gestão pública.

Brecha Zero: Até que ponto as TIC podem ajudar a enfrentar o processo pós-pandemia?

Hildeman R. Rangel: Como mencionei, a questão das plataformas comerciais é um legado positivo da pandemia, sendo mais um canal de vendas. No nível estadual existem vários processos que já estão em vias de adotar essa transformação, para que façam parte de todos os procedimentos.

A contribuição das TIC para o enfrentamento do cenário pós-pandemia é evidente, pois, como tem sido observado, a nova demanda é baseada em canais online e se caracteriza pelo aumento da demanda por teleducação (cursos e conteúdos online), telemedicina (consultas e diagnósticos remotos), compras online, serviços bancários e de seguros, e também de entretenimento online.

Diante desse aumento de demanda, os países e o setor privado devem buscar melhorar a experiência do usuário na exploração dos canais digitais que surgiram durante a pandemia, enfatizando a privacidade de dados e a segurança digital.

A nova oferta é baseada na flexibilidade, proximidade local e capacidade de reação. Para isso, é necessário continuar desenvolvendo novos produtos e serviços; flexibilizando, redimensionando, criando ou renovando capacidades; otimizando desempenho; além de seguir investindo em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Outra questão importante é esse alto consumo ocorrido no início da pandemia que acelerou muitos investimentos nas operadoras de celular. Novos padrões de consumo foram criados, porque muito do que tínhamos para fazer estava relacionado a assistir programação digital através de OTTs. Isso levou a uma mudança nos padrões de consumo.

Assim, as operadoras móveis estão fazendo muitos ajustes e grandes investimentos a nível de espectro para poder suportar esse alto tráfego – que é o produto de uma maior demanda por dados devido a mudanças nos padrões de consumo dos usuários. Afinal, após a pandemia, muito mais pessoas estão assiduamente assistindo as plataformas de conteúdo, o que acelera os investimentos por parte dos celulares, que vão exigir mais espectro. É no que estamos trabalhando.

Brecha Zero: Que trabalho você teve como regulador para se adaptar a essa demanda das operadoras móveis?

Hildeman R. Rangel: Neste momento, como Autoridade, estamos focados em promover e acompanhar de perto toda a modernização desta tecnologia. Hoje, as operadoras móveis no Panamá estão concentradas em ampliar e modernizar a 4G, o que exigirá mais espectro radioelétrico. Por outro lado, nós, através do Ministério da Economia e Finanças e com o apoio do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), contratamos um consultor para elaborar um roteiro para a 5G.

Estamos trabalhando em um roteiro para identificar as frequências e bandas que a maioria dos países e organizações de telecomunicações, como a União Internacional de Telecomunicações (UIT), recomendam para o uso da 5G. Já estamos pesquisando quais são as frequências, quais espaços vão ter que ser liberados, justamente para ter essas bandas para as operadoras de celular crescerem em cobertura. Aumente a penetração da 4G e, eventualmente, quando o mercado a nível de dispositivo estiver maduro, implemente a 5G.