Oportunidades para saldar dívidas TIC nas políticas educativas

Entre os objetivos das políticas educativas da América Latina está promover condições de mais igualdade no acesso ao conhecimento, em primeiro lugar, com a integração da população à educação básica e, em seguida, melhorar a qualidade da educação, aspecto que envolve a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) para melhorar as práticas de ensino.

Mas, na região, permanece uma dívida para com este último aspecto, em que persiste uma lacuna não somente no acesso mas na alfabetização digital entre estudantes e professores, que são essenciais para transformar o ambiente educacional persistente.

No artigo “Las Políticas TIC en la Educación de América Latina. Una oportunidad para saldar deudas pendientes”, publicado recentemente na publicação acadêmica do Instituto Internacional de Planteamiento Educativo (IIPE UNESCO), María Teresa Lugo e Andrea Brito destacaram que a América Latina continua a ter desigualdades socioeconômicas e tecnológicas. De acordo com dados da CEPAL citados no documento, 10% da população mais rica da região concentra 32% da receita, enquanto que os mais pobres, equivalente a 40% da população concentram apenas 15% da receita. A diferença de renda também afeta o acesso à tecnologia.

“De fato, as crianças que entram no sistema de ensino são afetadas por desigualdades sociais e econômicas, sendo assim incorporam uma oferta diferenciada que define condições desiguais no processo do acesso ao conhecimento”, indica o estudo.

Os Estudios Regionales Comparativos y Explicativos de la UNESCO  fornecem indicadores sobre a qualidade educativa mediante provas aplicadas aos alunos de escolas primárias em 15 países da região sobre conhecimento de idiomas, ciências e matemática. O terceiro estudo (TERCE) de 2013 revelou que um a cada dois alunos estavam nas categorias de menor pontuação. Na comparação com o segundo estudo deste tipo (SERCE) de 2006. Enquanto esta relação diminuiu ligeiramente, ainda há trabalho a ser feito regionalmente.

As TIC são um fator importante em políticas públicas proativas na educação, pois buscam tanto a transformação do espaço educativo como a inclusão digital.

Regionalmente é notória a influência do modelo “um a um” voltado para o acesso: um equipamento por aluno e um por docente. No entanto, este modelo enfrenta o desafio de garantir o acesso aos dispositivos que tradicionalmente têm sido os computadores. Neste aspecto, a transformação em torno de dispositivos e a crescente orientação até a mobilidade representam oportunidades para estes programas.

As políticas TIC em educação podem aproveitar uma variedade de dispositivos que já não estão limitados aos computadores. Com a adoção de dispositivos móveis, terão a oportunidade de gerir o trabalho colaborativo, criar um novo conteúdo educacional e promover a aprendizagem horizontal, que por sua vez redefinirá o papel do professor como facilitador do conhecimento.

No entanto, para poder aproveitar este novo ecossistema é fundamental oferecer uma condição mínima para estas políticas públicas: o acesso à Internet.

Devido ao fato de que a lacuna ao acesso impacta na “exclusão digital”, gerir conectividade para as instituições de ensino pode convertê-los em centros de acesso às TIC, que nem sempre estão disponíveis nas residências dos estudantes.

Na América Latina, a conectividade por cabo possui menor penetração do que a banda larga sem fio, que se apresenta como uma alternativa ideal para curto prazo. Sem uma conexão adequada à Internet, uma comunidade escolar não pode explorar novas experiências pedagógicas e limita seu acesso ao conhecimento.

Neste cenário, a banda larga móvel representa uma solução para oferecer uma alternativa de maior acessibilidade, especialmente para os setores mais vulneráveis. No entanto, o alcance da banda larga móvel ainda é limitado em comparação com a maioria dos países mais desenvolvidos – há que se considerar um maior atraso no tipo de rede disponível – e, além disso, apresenta alta heterogeneidade”. Aponta o artigo acadêmico de Lugo y Brito. Entre os dispositivos de acesso às redes de telecomunicações, é possível estabelecer um “piso” onde possam partir políticas de TIC na educação que buscam mudanças institucionais, que é um dos déficits do cenário educacional.

Esta dívida, sugere o relatório, consiste em aproveitar a tecnologia como um meio para realizar mudanças práticas educativas. Um componente essencial deste modelo é o docente ser considerado não somente como capital humano que se pode capacitar, como também pode motivá-lo para que seja proativo na transformação de seu ambiente pedagógico com a ajuda das TIC.

Estas políticas são orientadas em médio e longo prazo, pois atendem necessidade sistêmicas com ações complexas como a transformação de prática até comunidades de aprendizado e ambientes mais colaborativos.

Este modelo possui um desafio dividido em duas fases. A primeira é o desenvolvimento de conteúdos em linha com o programa de escola e, o segundo, deve gerar processos que podem ser avaliados. Em outras palavras, a utilização das TIC deve ser relevante para o currículo e aprender novas práticas que devem ser mensuráveis a nível individual e em grupo.

Este tipo de abordagem pode gerar sistemas de ensino orientados para estruturas mais justas e mudanças institucionais. Ambos os objetivos exigem que o professor esteja no centro da estratégia e implementação.

Todavia, a região ainda precisa conseguir conectividade mínima e políticas públicas proativas que considerem o desenvolvimento das redes sem fio na região, sobretudo as que apresentam oportunidades para integrar mobilidade. Sem este primeiro passo, as transformações desejáveis sistemicamente não têm bases necessárias.

0 comments on “Oportunidades para saldar dívidas TIC nas políticas educativas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.