O principal motor da transformação digital é a conectividade

Entrevista com María Cristina Sellmann, Head de SCR da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. Parte I

Os mercados da América Latina e do Caribe avançam para o desenvolvimento de uma economia digital. Esse processo promete uma transformação radical das condições de vida na região, aumentando a produtividade e melhorando a qualidade de vida dos habitantes.

María Cristina Sellmann, Head de SCR da Ericsson para o Cone Sul da América Latina

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com María Cristian Sellmann, que é Head de SCR da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. Em sua posição, ela é responsável por promover estratégias e executar iniciativas relacionadas à sustentabilidade ambiental, responsabilidade corporativa e inclusão digital.

Sellmann tem mais de 20 anos de experiência em um ambiente intercultural no setor de telecomunicações, com uma sólida experiência em vários cargos de gestão e diferentes áreas na Ericsson, principalmente em melhoria de processos e operações, gerenciamento de mudanças, sourcing, desenvolvimento e execução de estratégias. Formada em Administração de Empresas, possui mestrado em Desenvolvimento de Negócios e Inovação Sustentável e pós-graduação em Negócios Estratégicos.

Brecha Zero: Quais você acha que são as tecnologias de informação e comunicação (TICs) que irão melhorar as condições econômicas da América Latina nos próximos anos? Como você acha que elas podem fazer isso?

María Cristina Sellmann: Assim como a eletricidade transformou o século 20, a digitalização irá remodelar o século 21, gerando desenvolvimento social, econômico e ambiental na América Latina, estimulando o crescimento econômico, mobilizando e gerando inclusão social, enfrentando os desafios climáticos e possibilitando eficiência em diferentes setores e indústrias.

O principal motor da transformação digital é a conectividade e, com o advento da 5G (quinta geração da tecnologia móvel), além de melhorar o desempenho e cobertura da rede e possuir menor latência e maior capacidade, impulsiona serviços e produtos digitais inovadores como medicina remota, carros e transportes inteligentes, realidade aumentada para educação, automação de monitoramento climático, entre outros. Também promove o uso de novas tecnologias como inteligência artificial, machine learning, internet das coisas e das pessoas.

É conhecida como tecnologia exponencial porque, por meio de soluções digitais, gera um impacto positivo e sustentável em diversas áreas, não apenas no segmento das TIC. Por exemplo, permite a descarbonização de outros setores em até 15% (até 2030), gera aumento do PIB, Produto Interno Bruto (em média +10% na taxa de adoção da banda larga gera +0,8% no PIB) e melhora a qualidade da educação (Há uma relação direta entre o nível de conectividade das escolas e a qualidade da educação). As pesquisas mostram que a transformação digital pode adicionar até 100 trilhões de dólares à economia mundial até 2025, o que terá um impacto direto no desenvolvimento econômico.

Na América Latina, segundo a GSMA em seu Mobile Economy report 2022, as tecnologias e serviços móveis representaram 7,4% do PIB em 2021 e geraram mais de 1,6 milhões de empregos (diretos e indiretos), o que mostra a importância do setor para a economia. Porém, por outro lado, apenas 60% da população está conectada (gap de acesso) e, dessas pessoas, 36% não utiliza serviços móveis (gap de uso), apesar de a cobertura da rede estar disponível para todos (há apenas uma gap de cobertura de 4%). Isso demonstra a natureza crítica da brecha digital na América Latina e, consequentemente, os desafios relacionados à conectividade.

Para que a transformação digital ocorra e a região desfrute plenamente de seus benefícios, é necessário enfrentar as barreiras ao acesso e uso da banda larga móvel e investir em tecnologias modernas, especialmente na 5G em redes públicas e privadas na América Latina.

Brecha Zero: Em que medida os esforços das autoridades dos diferentes países da região para fechar a brecha digital influenciam o sucesso que essas tecnologias podem ter?

María Cristina Sellmann: Potencializar o acesso e a utilização da conectividade móvel, bem como a adoção da 5G, implica desenvolver políticas públicas, incentivos e métricas que suportam tanto o investimento em redes privadas e públicas como a digitalização dos setores. Além disso, tornar os serviços digitais mais acessíveis aos consumidores é essencial para um futuro próspero e sustentável.

É um trabalho que exige certa gradação e confiabilidade das informações, principalmente no que diz respeito ao contexto local de cada país latino-americano, ou seja, seu nível de digitalização, cobertura e acessibilidade das redes. Além disso, é preciso priorizar o desenvolvimento de competências digitais, importantes para o uso eficiente, eficaz e seguro das tecnologias móveis.

Outro ponto relevante são as associações públicas e privadas que facilitam a remoção de barreiras à digitalização, e também os investimentos, compromisso dos setores privados.