O principal desafio durante a pandemia foi levar banda larga para os lares brasileiros

Entrevista com Nilo Pasquali, Superintendente de Planejamento e Regulação da Anatel

A pandemia de Covid-10 levou os governos da região a trabalhar intensamente para manter serviços básicos como saúde e educação apesar do confinamento, além de trabalharem para que os diferentes setores produtivos se mantivessem ativos.

Sobre isto, o Brecha Zero conversou com Nilo Pasquali, que é Superintendente de Planejamento e Regulação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Pasquali é Engenheiro Elétrico pela UNB, com especialização em serviços de telecomunicações, e anteriormente desempenhava a função de Gerente de Regulação da Agência.

Brecha Zero: Como as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), especialmente aquelas relacionadas à conectividade, ajudaram no enfrentamento da pandemia provocada pela Covid-19?

Nilo Pasquali:  Os serviços de Telecomunicações e as TIC foram fundamentais no enfrentamento da pandemia de Covid-19 por meio da manutenção da conectividade, pelas funcionalidades disponíveis para o uso da sociedade em suas atividades econômicas e sociais. Neste período, a Anatel manteve no âmbito do grupo de Gestão de Riscos e Acompanhamento do Desempenho das Redes de Telecomunicações (GGRR), um ambiente permanente de avaliação das condições de tráfego das redes de telecomunicações, focando seus esforços no monitoramento das redes e na articulação com prestadores, na adoção de todas as medidas necessárias para a superação da crise. Do mesmo modo, foram priorizadas soluções de emergência que tiveram como principal objetivo a continuidade dos serviços de acesso pela população brasileira, sobrepondo as regras criadas para situações de normalidade.

Brecha Zero: Quais foram as principais iniciativas da Anatel para enfrentar essa crise?

Nilo Pasquali: Ante a importância dos serviços de telecomunicações neste momento, a Anatel monitora as mudanças de consumo dos cidadãos por meio das curvas de tráfego registradas nos sistemas de medição de velocidade média,  nos sistemas de medição própria, de medidores independentes e de canais de reclamação dos consumidores.

Uma vez declarado o estado de pandemia no Brasil, a Agência criou o Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento do Impacto da Covid-19. Tomando como referência a primeira semana de março de 2020, registou-se na segunda quinzena uma média do setor das telecomunicações, um aumento entre 40 e 50% na procura do tráfego doméstico e um aumento mais evidente nas rotas internacionais. Com base no valor da última semana de março, verifica-se uma estabilização com um valor médio próximo a 30%, distribuído ao longo do dia.

As principais ações da agência no período pandêmico podem ser consultadas em  https://www.gov.br/anatel/pt-br/assuntos/noticias/acoes-do-setor-de-telecomunicacoes-no-combate-ao – coronavírus.

Dentre elas, destaca-se o Compromisso Público de Manter o Brasil Conectado, que estabelece quatro diretrizes principais para o setor durante a pandemia: 1) as operadoras irão adotar plano de ação para que os serviços de telecomunicações continuem operando com grandes mudanças no perfil do usuário,  2) os serviços de saúde e segurança pública terão suporte especial, 3) as dificuldades dos consumidores serão sanadas, com atenção especial aos consumidores que utilizam créditos pré-pagos, 4) a população será informada, com o envio de mensagens de alerta e de informações solicitadas pelos órgãos competentes, além de permitir o acesso gratuito ao aplicativo “Coronavírus”, desenvolvido pelo Ministério da Saúde.

Brecha Zero: Quais setores (saúde, educação, governo, agricultura, trabalho, etc.) foram mais bem adaptados ao uso das TIC para enfrentar o isolamento social?

Nilo Pasquali: As atividades rotineiras, como trabalho, estudo, lazer, foram as que mais se adaptaram ao ambiente crítico e vão responder ao consequente aumento da demanda de tráfego de dados, devido ao distanciamento social adotado durante a pandemia. Dessa forma, o setor de telecomunicações teve um forte aumento na demanda por serviços e uso de redes no período e a manutenção da conectividade foi priorizada pelos setores público e privado.

Brecha Zero: Quais desafios tiveram que ser enfrentados para melhorar as condições de conectividade dos habitantes?

Nilo Pasquali: O principal desafio é expandir o acesso à internet banda larga para as residências no Brasil. A Anatel prevê, para 2021, a licitação da faixa do espectro radioelétrico que está sendo utilizada para a implantação da tecnologia 5G em todo o mundo. 5G é o padrão de tecnologia mais recente para serviços móveis. Pelas suas características, que incluem altas taxas de dados e baixa latência, a tecnologia oferece um amplo leque de possibilidades ainda não exploradas. Nesse sentido, espera-se que, uma vez lançada a tecnologia, surjam aplicações inovadoras que aproveitem o potencial tecnológico da 5G para introduzir serviços que aumentem a eficiência da indústria e gerem interesse na sociedade em geral.

Neste sentido, a importância deste leilão para o objetivo de expandir o acesso à banda larga móvel a quem não dispõe desse serviço de forma adequada está, de fato, em dois aspectos: proporcionar um maior volume de recursos de espectro para que os Prestadores possam expandir as suas redes, e por meio da Anatel, possam ser estabelecidos compromissos de investimento de cobertura e backhaul que obriguem os vencedores da licitação a atender áreas remotas.

Brecha Zero: Qual a importância da tecnologia móvel para garantir a conectividade dos diferentes setores?

Nilo Pasquali: A banda larga móvel é essencial para expandir a conectividade no país. No período pandêmico, por exemplo, houve uma clara mudança na trajetória da telefonia móvel em relação aos meios de pagamento. A quantidade de acessos pré-pagos [interrompeu] sua queda, estabilizando o percentual em relação aos acessos pós-pagos. Isso se deve à aplicação do uso dessa tecnologia tanto em ambientes profissionais quanto no dia a dia da população. Nesse período, constatou-se que apenas os celulares 4G apresentam taxa de crescimento positiva, ao contrário dos celulares 2G ou 3G. O 4G já representa mais de 70% dos acessos de telefonia móvel.

Além disso, os vencedores da próxima licitação de espectro a ser realizada pela Anatel neste ano de 2021 (popularmente chamada de licitação 5G) têm liberdade de utilização nas faixas do espectro licitadas para operação de redes com qualquer padrão de tecnologia e não necessariamente 5G (por exemplo, é possível utilizar essas bandas para instalação de redes 3G ou 4G, a critério da operadora).

Brecha Zero: Como você entende que as TIC podem ajudar no trabalho na pós-pandemia?

 Nilo Pasquali: O aumento do tráfego de dados verificado na pandemia está relacionado ao número de pessoas que, longe de suas rotinas habituais, recorreram aos aplicativos disponíveis para atender às necessidades de trabalho, estudo e lazer. Por exemplo, acesso a vídeos (filmes, designs, tutoriais, entre outros), participação em videoconferências (recurso amplamente utilizado para o teletrabalho), promoção da telemedicina e educação a distância, principalmente com a suspensão das aulas. A tendência é que, pós-pandemia, parte desses hábitos sejam mantidos, principalmente no que diz respeito ao trabalho a distância e à educação a distância.