O Peru deve continuar trabalhando quanto ao uso que a população pode fazer da Internet

Entrevista com José Aguilar, Economista, especialista em políticas públicas e regulação de serviços públicos. Parte I

Os diferentes países da América Latina e do Caribe trabalham diariamente em planos e programas que buscam aumentar o acesso à Internet para a população. As autoridades têm consciência da importância das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para potencializar diferentes setores da economia. No entanto, é necessário um esforço maior na educação da população sobre a aplicação dessas tecnologias.

José Aguilar, Economista, especialista em políticas públicas e regulação de serviços públicos.

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com José Aguilar, economista formado pela Pontifícia Universidade Católica com mais de quinze anos de experiência no Setor Público e Mestre em Administração pela Universidade ESAN com especialização em Finanças.

Ele atuou como diretor geral da Direção Geral de Políticas e Regulação em Transporte Multimodal do Ministério de Transportes e Comunicações (MTC). Além disso, por mais de três anos, foi diretor geral da Direção Geral de Políticas e Regulação em Comunicações do MTC.

Também foi chefe de Regulação do Organismo Supervisor do Investimento em Infraestrutura de Transporte de Uso Público (OSITRAN). Por mais de 8 anos fez parte do Organismo Supervisor do Investimento Privado em Telecomunicações (OSIPTEL) e ocupou o cargo de presidente do Conselho Diretivo da Autoridade de Transporte Urbano para Lima e Callao. Atualmente, também atua como professor de pós-graduação em diversas universidades.

Brecha Zero: De que forma as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) melhoraram as condições de vida dos peruanos?

José Aguilar: É muito importante fazer uma medição. Em nossa etapa no MTC, avaliamos como a infraestrutura de telecomunicações impacta o Peru, e os resultados mostraram um impacto entre 1% e 1,5% no PIB. É um número que coincide com outras pesquisas realizadas. Mas é preciso trazer essa realidade para a população. Fizemos outra pesquisa onde calculamos que o impacto na renda dessas famílias após a implementação da Internet fixa na zona rural foi de aproximadamente 100 dólares mensais.

Há um grande impulso no uso das tecnologias, e a pandemia nos deu um empurrão forte. Mas, apesar desse impulso, acho que ainda falta muito. O que foi bastante fortalecido ou incentivado é o uso de pagamentos digitais. Pode-se usar carteiras digitais para realizar pagamentos nos mercados, não é mais necessário levar dinheiro em espécie. Isso teve grande repercussão, até mesmo pessoas que, por algum motivo, não queriam ter esse tipo de conta, começaram a utilizá-la para receber pagamentos por meio da carteira virtual. Dessa forma, no tema de inclusão financeira, houve um grande avanço.

Mas em outros temas ainda falta. Em particular, do ponto de vista de quão amigáveis são as plataformas. No início da pandemia, comprar pela Internet em grandes cadeias de lojas e supermercados foi um desastre, porque os diferentes sistemas de inventário e vendas não se comunicavam entre si. Atualmente, entre as grandes empresas, esses sistemas começaram a funcionar, as entregas de produtos são feitas no mesmo dia. Mas esses avanços não alcançaram as pequenas empresas.

Algo que chama a atenção é o relatório do Instituto Nacional de Estatística sobre o acesso às TIC nos lares, podemos ver que aumentou bastante a partir de 2021 e continua crescendo: 96% dos lares têm algum tipo de TIC. A telefonia móvel continua crescendo, com 95,7% dos lares possuindo serviços móveis. Enquanto a população com acesso à Internet é de cerca de 78,8%, ainda há uma lacuna significativa na zona rural, cerca de 50%. No entanto, de antes da pandemia até agora, é algo que continua crescendo; no final de 2019, 26% dos lares rurais tinham acesso à Internet, enquanto hoje chega a 52%. Ou seja, duplicou.

Ou seja, a Internet cresce a passos largos, mas de que serve o acesso se o usuário não tem dispositivos de acesso e não sabe o que fazer com eles? Ainda falta um pouco, como trabalhar com uma parte da população sobre o uso das tecnologias.

Brecha Zero: Quais setores da economia, como bancos, agricultura, turismo ou indústria manufatureira, tiveram um maior avanço na digitalização?

José Aguilar: Além dos bancos, o comércio e o varejo em grande escala. No varejo de pequena escala, houve uma flexibilização na forma de pagamento. A mineração, no Peru como um país minerador, avançou na adoção das TIC antes da pandemia, já até se usavam algumas minas com redes 4G. Agora até usam ônibus elétricos para levar os funcionários do acampamento até a mina, com isso, a mineração foi o setor que mais se destacou.

Um setor que está tentando incorporar as TIC é o transporte. Fui presidente da autoridade de transporte para Lima e Callao, onde trabalhamos para flexibilizar o pagamento do serviço, que até então era todo em dinheiro. Algumas empresas de transporte, aqui no Peru temos duas: transporte regular e concessionado. No primeiro, adaptaram-se muito mais rapidamente através da implementação de um cartão de pagamento, que era comprado e carregado previamente pelos usuários. Um serviço que funciona muito bem. Também implementaram outras formas de pagamento, como cartões de crédito e pagamentos eletrônicos com o celular. Contudo, essas variantes não tiveram a demanda esperada, então o setor de transporte iniciou um processo de modernização.

O setor agrícola está começando, ainda não é Smart Tech, mas já está caminhando nessa direção. O setor pesqueiro também está nesse processo de modernização.

Brecha Zero: Das diferentes iniciativas promovidas pelas autoridades do governo peruano, quais você acredita que tiveram melhores resultados na digitalização da sociedade?

José Aguilar: Há uma série de políticas que começaram quando fiz parte do MTC e, com o tempo, melhoraram. Iniciamos uma política com uma taxa de serviço móvel, onde uma parte desse pagamento era trocada pela instalação de antenas em algumas localidades rurais. Começamos com cerca de 20% da tarifa, e depois aumentamos para 40%, e entre todas as empresas de telecomunicações, tínhamos cerca de 200 localidades. Atualmente, esse percentual melhorou, chegando a 60%, e até o final do ano, 400 localidades serão beneficiadas. Com o desenvolvimento dos serviços 4G, em alguma parte da implantação de fibra, e em áreas onde não há cobertura.

Outro ponto está relacionado ao desenvolvimento de infraestrutura. Já havia uma norma, a lei de antenas, centrada na implantação; com a pandemia, a melhoramos. Era uma norma temporária, e atualmente o congresso determinou que seja permanente. Com isso, há mais facilidades para a instalação.

O último concurso de espectro na banda AWS e 2,3 GHz também teve um impacto importante, é um investimento de cerca de 600 milhões de dólares em infraestrutura móvel. Isso fomentou e potencializou o crescimento, embora ainda não seja suficiente. E a grande tarefa pendente é: o que faremos com a 5G? Foram concedidas autorizações para operar na faixa de 3,5 GHz; inicialmente, foram 2 operadoras, e agora as três empresas que possuem espectro estão oferecendo serviços. O grande questionamento é como permitir a utilização da faixa que foi separada há alguns anos para o IMT.