O ambiente TIC do Brasil se viu fortalecido pós pandemia 

Entrevista a Rhian Duarte, Gerente de relacionamento institucional, regulatório e comunicação da ABRINT.

Os diferentes mercados da América Latina e do Caribe tiveram que reagir rapidamente às necessidades de conectividade exigida pela pandemia de Covid-19. Este trabalho serviu de base para enfrentar um processo de digitalização para o futuro, aproveitando os trabalhos e investimentos realizados.  

Rhian Duarte, Gerente de relacionamento institucional, regulatório e comunicação da ABRINT.

Sobre estes temas, o Brecha Zero conversou com Rhian Duarte, Gerente de relações institucionais, regulatório e comunicação da ABRINT. Com formação profissional em Relações Institucionais e Governamentais (RIG) desde 2012, possui uma ampla experiência no seguimento das atividades dos Poderes Legislativos e Executivo Federal e assessorando empresas e associações em sua relação com o governo.  

Brecha Zero – O quanto as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) ajudaram a economia brasileira a superar as complicações associadas à pandemia?

Rhian Duarte – Como em todo mundo, a pandemia deixou ainda mais evidente o papel das TIC nos diversos aspectos do cotidiano dos brasileiros. Os dados da pesquisa Painel TIC COVID-19, promovido pelo Cetic.br, mostram que os períodos de quarentena levaram a uma aceleração significativa da digitalização de estudantes e trabalhadores – ainda que, por vezes, de forma precária.

Apesar do retorno das atividades presenciais, muitas práticas on-line adotadas durante o início da pandemia se mantiveram ou até mesmo se intensificaram. Serviços financeiros, serviços públicos, cursos à distância, telemedicina, compras online, lives e conteúdos culturais são exemplos da continuidade da presença do mundo digital em diversos aspectos da sociedade.

Brecha Zero – Quais iniciativas foram realizadas pela Abrint para ajudar a sociedade na pandemia?

Rhian Duarte – A Abrint atuou para auxiliar os provedores regionais de internet a manterem suas operações ativas e seguras durante o início da pandemia. Nesse sentido, atuou junto aos órgãos governamentais para assegurar que as equipes de manutenção de redes pudessem manter suas atividades, apesar das restrições de circulação, e buscou divulgar soluções para que os pequenos provedores pudessem sustentar o forte aumento da demanda de tráfego de dados.

Brecha Zero – O quanto as TIC podem ajudar a enfrentar o processo pós-pandemia, especialmente em relação aos serviços de telecomunicações?

Rhian Duarte – Percebemos que, cada vez mais, os ISPs se estruturam para reforçar a qualidade do atendimento e da entrega dos serviços aos seus clientes. Novos serviços podem ainda ser desenvolvidos mesclando soluções e sinergias das redes móveis com as redes fixas. Certamente o mercado dos provedores fará uso das soluções de WiFi 6 e, em algumas localidades específicas, do FWA e de faixas disponíveis de espectro, em caráter secundário. Há alguns nichos de mercado que podem e devem ser reforçados pelos provedores regionais (gamers, casas inteligentes, automação de condomínios e indústrias, por exemplo), especialmente a partir da sua proximidade com o cliente final.

Brecha Zero – Quais setores você considera que saíram mais fortes no uso das TIC no cenário pós-pandemia?

Rhian Duarte – Todo o ecossistema de economia digital brasileiro saiu fortalecido no cenário pós-pandemia. Houve avanços significativos na capacidade de conectividade e tráfego de dados no país, em especial no mercado de banda larga fixa que registrou cerca de 10 milhões de novos acessos. Isso é resultado da capilaridade das redes, Brasil adentro, especialmente pelas prestadoras de pequeno porte.

Essa forte conectividade permitiu a expansão de diversos negócios e serviços online, que pode ser visto na explosão do volume de tráfego de dados. O IX.br – um dos maiores pontos de troca de tráfego de Internet do mundo, mantido pelo NIC.br – registrou um pico de cerca de 13,5 terabits por segundo ao final de 2022. Por exemplo, o crescimento do comércio eletrônico brasileiro também foi um dos maiores do mundo, correspondendo a quase um terço dos negócios no varejo online na América Latina em 2021.

Brecha Zero – Considerando a importância da digitalização da economia no desenvolvimento dos países, como você avalia a situação do Brasil nesse sentido?

Rhian Duarte – As TIC e a internet assumiram um lugar central no cotidiano dos brasileiros e o país se encontra preparado para continuar a avançar. No entanto, o Brasil ainda precisa fazer fortes esforços para reduzir as profundas desigualdades sociais, que se reproduzem no ambiente virtual como menor proporção de uso da internet em áreas rurais e entre indivíduos com menor renda e escolaridade. É preciso também seguir investindo na qualidade do acesso à internet e na capacidade de adquirir equipamentos, já que para a maioria dos brasileiros, o único dispositivo conectado é o telefone celular.

Há outros pontos positivos, como o avanço da telemedicina e do mercado de comércio eletrônico. O governo federal conquistou significativos avanços na digitalização de serviços públicos chegando ao 7º lugar no ranking GovTech Maturity Index 2020, organizado pelo Banco Mundial.

Brecha Zero – Como os serviços móveis ajudam no processo de digitalização da economia?

Rhian Duarte – Especificamente para as empresas, as aplicações das ondas milimétricas do 5G revolucionarão o dia a dia da experiência em nuvem de inúmeras tarefas e demandas de TI, que deixam de estar “restritas” ao processamento do laptop do usuário, por exemplo. Embora essa “virtualização” dos mais diversos ambientes favoreça a todo universo corporativo, o 5G permitirá uma maior rapidez e eficiência no âmbito do varejo, correspondendo às novas expectativas do consumidor ao lidar com a aquisição de bens e serviços. Já para a indústria, as possibilidades de ganho de escala e competitividade com o 5G são ilimitadas, especialmente em relação ao cenário de uso do 5G para URLLC (Ultra-reliable low latency communication ou “Comunicação de baixa latência ultra confiável”) para automações fabris, direção autônoma de veículos e medicina aplicada, bem como ao cenário de uso do mMTC (Massive machine type communication ou “Comunicação do tipo máquina massiva”) através de serviços que apresentam um grande número dispositivos conectados, extensas áreas de cobertura, que usem dispositivos de baixo custo e que apresentem uma vida útil de bateria muito longa.

Brecha Zero – Qual a importância de tecnologias como a 5G no desenvolvimento de uma economia digital?

Rhian Duarte – O leilão do 5G no Brasil garantiu o ingresso de novos operadores no mercado móvel, permitindo, além de novos modelos de negócios, o fortalecimento da importância das assimetrias regulatórias e do papel desempenhado pelas PPPs. Os provedores que não participaram do leilão ou que não saíram vitoriosos estão atentos às possibilidades de uso e reestruturação da capilaridade de suas redes fibradas, seja para dar vazão ao tráfego de redes 5G, seja para inovar no contexto de redes privativas e convergência da mobilidade em redes fixas. Também, as mudanças advindas futuramente com o uso da tecnologia 5G aprimorarão o contexto do mercado corporativo e industrial. A demanda pelas redes fixas e dedicadas será crescente.