O acesso à internet é essencial para comunidades que vivem em áreas remotas

Entrevista com Flávio Santos, CEO da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (EACE)

O atual cenário global exige que os Estados trabalhem para aumentar a digitalização de suas economias. Para alcançar esse objetivo, é necessário que as autoridades intensifiquem os esforços para proporcionar à população uma educação que inclua habilidades digitais, sendo a conectividade fundamental.

Flávio Santos, CEO da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com Flávio Ferreira dos Santos, Diretor-Geral (CEO) da EACE, um profissional altamente qualificado e experiente em Tecnologia da Informação, com uma sólida trajetória de 18 anos na iniciativa privada e 14 anos no setor público. Formado em Processamento de Dados e com MBAs em Gestão de Sistemas de Informações e Estratégia Empresarial, Santos possui certificações PMP – Project Management Professional e Certificado DPO – Data Protection Officer. Realizou curso de extensão em Dados Abertos na ONU, em Santiago (CH) e extensão em Transformação Digital para Governos, em Copenhague (DK).  Atuou como Analista de Sistemas e Gestor de Tecnologia da Informação e Comunicações e Analista em Tecnologia da Informação na iniciativa privada. É servidor efetivo do Ministério da Gestão e Inovação, tendo ocupado o cargo de gestor de TI do Ministério da Integração Nacional, DATASUS, Diretor de Tecnologia da EBSERH, Diretor de TI e Inovação do INSS, Diretor de Pessoas, Administração, Tecnologia e Finanças na BRB Cartões e Diretor de TI e Inovação na BRB Serviços.

Brecha Zero: Qual é a importância das tecnologias da Informação e Comunicação para potencializar o acesso à educação?

Flávio Santos:  Em um mundo cada vez mais digital, a importância de levar a internet às escolas públicas é inquestionável. Para a educação, a internet pode ser considerada a mais completa, abrangente e complexa ferramenta de aprendizado do mundo.

Ela é capaz de localizar fontes de informação que nos habilitam a estudar diferentes áreas do conhecimento. Além disso, é uma ferramenta poderosa que abre portas para um universo de conhecimento e oportunidades, permitindo que os alunos acessem informações e recursos educacionais de qualidade de qualquer lugar do mundo.

Também é responsável pela promoção da inclusão digital, uma habilidade essencial no século 21, e preparação dos alunos para um mercado de trabalho cada vez mais tecnológico. A falta de acesso à internet nas escolas públicas cria uma disparidade educacional que pode perpetuar o ciclo de pobreza e desigualdade. O objetivo do Aprender Conectado é oferecer internet de alta velocidade para contribuir com uma educação de qualidade e melhores condições de aprendizado a todos os estudantes, de forma igualitária.

Brecha Zero: Qual é a relevância das tecnologias de banda larga móvel para levar conectividade a essas escolas?

Flávio Santos: A banda larga móvel é uma das formas de conexão que asseguram a qualidade e velocidade necessárias para o uso pedagógico das tecnologias de informação e comunicação (TICs) nas atividades educacionais.

Brecha Zero: Como você avalia o desenvolvimento do EACE? Que tipo de trabalho foi realizado no projeto piloto?

Flávio Santos:  O Aprender Conectado surgiu com o Edital da 5G, que destinou recursos da ordem de R$ 3,1 bilhões para levar conectividade às escolas públicas de educação básica, com a qualidade e velocidade necessárias para o uso pedagógico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) nas atividades educacionais.

O projeto visa o atendimento de escolas públicas em todo o país, incluindo as situadas em comunidades indígenas, quilombolas e assentamentos, garantindo conexão com internet banda larga e rede Wi-Fi, mesmo para aquelas que não possuem energia.

Para definir os critérios do projeto e gerir seus recursos, foi criado o Grupo de Acompanhamento do Custeio a Projetos de Conectividade de Escolas (Gape), composto pela Anatel, ministérios da Educação e das Comunicações, e as empresas vencedoras da faixa de 26 GHz, Algar Telecom, Claro, Telefônica, dona da marca Vivo, e TIM, que criaram a Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace), responsável pela execução do projeto.

O projeto piloto do Aprender Conectado foi iniciado em novembro de 2022 e teve como principal objetivo mapear as dificuldades e entender o melhor caminho para levar a conectividade às escolas. Foi finalizado em agosto do último ano em 177 escolas públicas de ensino básico em dez municípios nas cinco regiões do País (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-oeste). Todas as unidades receberam internet banda larga e rede Wi-Fi em todo o ambiente escolar e kits de informática. Até mesmo escolas que não eram atendidas por rede elétrica foram contempladas no programa e receberam sistema fotovoltaico que possibilitaram a instalação de internet, rede interna de wi-fi e o funcionamento dos equipamentos. Foram beneficiados mais de 31 mil alunos.

É importante salientar que o projeto piloto do Aprender Conectado foi avaliado pela UIT – União Internacional de Telecomunicações (braço da ONU para telecomunicações) e considerado o melhor programa de conectividade de escolas do hemisfério Sul.

Brecha Zero: Quantas escolas foram beneficiadas até o momento e de quais estados são? Qual é a importância disso para essas comunidades?

Flávio Santos: Em paralelo à execução do projeto piloto, que beneficiou 177 escolas, foram realizadas as vistorias técnicas em mais 7.446 escolas das fases 2 e 3 do Aprender Conectado.

As vistorias são realizadas para averiguação das condições da infraestrutura dos prédios e das intervenções necessárias para instalação de internet de alta velocidade e de rede wi-fi em todo o ambiente escolar.

No final de fevereiro, a Eace lançou RFP’s (Request for Proposal) ou cotações para a contratação de fornecedores de internet, rede interna e sistema fotovoltaico para 5.107 escolas em sete estados das regiões Norte e Nordeste do país (Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Maranhão, Pará e Roraima).

A inclusão digital oferece uma série de benefícios à comunidade, como o acesso à informação, proporcionando crescimento profissional e pessoal. Também oferece uma melhoria da qualidade de vida. Com mais acesso à internet, as pessoas podem encontrar mais e melhores informações sobre saúde e educação, por exemplo. Esse acesso é essencial para comunidades que vivem em áreas remotas.

Brecha Zero: Além da conectividade, que outras iniciativas são necessárias para melhorar as condições educacionais em áreas rurais e indígenas (conteúdo, dispositivos para alunos, apoio aos professores)?

Flávio Santos: À Eace cabe o fornecimento de internet de alta velocidade às escolas e sistema fotovoltaico quando não houver rede elétrica, essenciais para criação de um ambiente propício ao aprendizado.

A melhoria das condições de aprendizado em áreas rurais e indígenas exigem esforços conjuntos e contínuos de agentes de todos os âmbitos de governo (federal, estadual e municipal) numa atuação multidisciplinar na própria área da educação (capacitação e formação de professores, desenvolvimento de conteúdo e disponibilização de dispositivos tecnológicos adequados); na saúde e na alimentação (garantia de segurança alimentar e acesso aos cuidados básicos de saúde) e em uma relação horizontal e próxima com a comunidade local para entender suas necessidades e anseios.