No Uruguai, o setor educacional conseguiu implementar mudanças da noite para o dia

Entrevista com Carlos Acle, Diretor da Câmara Uruguaia de Tecnologias da Informação (CUTI)

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) permitiram que os diferentes países da América Latina encarassem as necessidades de mudanças repentinas impostas pela pandemia de Covid-19. Por meio dessas tecnologias, buscou-se melhorar as condições de vida dos habitantes, bem como manter a economia ativa.

Carlos Acle, Diretor da CUTI

Sobre esses assuntos, Brecha Zero conversou com Carlos Acle, que é Diretor da Câmara Uruguaia de Tecnologias da Informação (CUTI) e também CEO da OneTree. Formado como Engenheiro de Sistemas pela Universidade Católica do Uruguai, Acre tem mais de 20 anos no ecossistema TIC do Uruguai.

Brecha Zero: Qual é a função da CUTI?

Carlos Acle: Somos uma câmara que emprega empresas do setor de TIC no Uruguai, contamos com mais de 400 parceiros distribuídos por todo o território. A câmera está ativa há mais de 30 anos, foi uma das primeiras da América Latina. Seus principais objetivos são a promoção do setor, auxiliando parceiros no crescimento local e externo. Da mesma forma, estamos realizando esforços para incentivar mais pessoas a trabalhar na indústria, sem dúvida a falta de talento é um dos grande problemas e causa preocupação. Também são realizadas ações com o governo, como ações educativas nos diferentes níveis de ensino, trabalhamos para promover o crescimento.

Outro foco é promover as exportações, pois é aí que o Uruguai tem potencial para continuar crescendo, 2020 foi o primeiro ano em que as exportações ultrapassaram o mercado nacional em volume de negócios, e acreditamos que é uma tendência que, uma vez rompida, continuará a crescer e é aí que muitas empresas estão focando seus esforços. Mais de 70% das empresas associadas exportam software e estão de olho no mercado externo, é um setor que tem um forte perfil exportador.

Outras atividades transversais à câmara, além da parte de educação, são as questões relacionadas à equidade de gênero, startups e inovação. A câmara está dividida em temas transversais e por comissões de trabalho, existe uma comissão diferente para cada um destes setores. Temos metas que são utilizadas pela indústria pelos diferentes atores do ecossistema, então temos a meta agrícola, a meta de saúde, a meta de cibersegurança, a meta de inteligência artificial, existem as empresas que possuem soluções e serviços relacionados a essas verticais.

Então, temos uma forte relação com o ecossistema, destacando-se o Uruguai XXI, que é a agência de promoção de exportação e inovação, que trabalha em conjunto com a área de chancelaria, abrangendo o comércio, exportação e relacionamento com o mundo lidando com diferentes atores. Há um forte esforço institucional para trabalhar com o ecossistema porque em um país como o Uruguai nos parece a maneira mais correta.

Brecha Zero: Qual foi a contribuição das TICs para o Uruguai na sociedade e na economia para enfrentar a pandemia?

Carlos Acle: Existem duas grandes áreas, uma sem dúvida é a mudança para o teletrabalho quase que imediata, todas as empresas tiveram que se adaptar de alguma forma, e aí obviamente esse processo tem toda uma parte da infraestrutura. Felizmente, o Uruguai tinha uma boa infraestrutura de banda larga e fibra óptica em quase todo o país e uma conexão móvel muito boa. Isso permitiu toda essa distribuição para que as pessoas continuassem a trabalhar, nas áreas onde isso era possível, porque há claramente casos em que o presencial não pode ser substituído. Tudo relacionado à distribuição, a VPN, toda a configuração relacionada à segurança e outras puderam ser feitas graças ao desenvolvimento da indústria e ao apoio de empresas locais.

Mais tarde, houve um grande impacto sobre os serviços prestados para o exterior. Essas empresas tiveram um forte crescimento, obviamente depende do serviço oferecido. Houve também setores muito afetados, como viagens e turismo. Por outro lado, houve crescimento em outras áreas porque empresas e clientes de diferentes países, no momento da digitalização, e durante a pandemia, começaram a implantar esse tipo de projeto antecipadamente. Estas ações têm um impacto positivo no desenvolvimento da indústria, em particular na área de TI, e em particular para aqueles que prestam serviço para o exterior.

Houve também contribuições privadas das empresas do setor, foi criado um fundo onde as empresas colaboraram, houve doações das empresas da câmara, o que possibilitou a entrega de diferentes módulos habitacionais em Montevidéu. Uma porcentagem do dinheiro foi utilizada para a compra de leite que foi doado para alunos de escolas públicas em todo o Uruguai. Através do Ministério da Saúde Pública, alguns equipamentos laboratoriais foram doados e distribuídos por todo o país.

Da mesma forma, como câmara, colaboramos com diferentes setores, obviamente a questão da infraestrutura contar com ajuda governamental ajudou as empresas a trabalharem de forma mais distribuída, a digitalizar canais e a contar com conexão da forma mais célere possível, etc.

Todo o trabalho árduo realizado por parte do ecossistema tecnológico, o controle da pandemia, o desenvolvimento do app coronavírus para o acompanhamento de casos, ter o histórico médico digitalizado e a integração que existia entre o ministério da saúde pública e todos os provedores, além de montar plataformas nessa infraestrutura para poder usar os canais digitais, como chatbots, web, a parte de vacinação que é feita pelos canais digitais, e tudo isso foi montado com o trabalho de diferentes atores da indústria.

Brecha Zero: Quais foram os setores que melhor se adaptaram à digitalização que ocorreu durante o início da pandemia?

Carlos Acle: A Educação deve ser destacada principalmente como um dos setores que mudou completamente seu modelo. De um dia para o outro tivemos que sair da sala de aula e tivemos que manter um nível de qualidade na aprendizagem e no ensino, temos que tirar o chapéu para os professores e aqueles que estão por trás da execução em todos os níveis  educacionais, primário, secundário e superior. Com as ferramentas que já existiam, como o plano Ceibal, mas como havia uma parte da população que não o utilizava, foi necessário recorrer a outras plataformas. Acho que foi um dos setores que conseguiram mudar mais rápido e o que mais sofreu, porque o paradigma deles mudou de um dia para o outro.

Outro caso foi o mundo do varejo, alguns já tinham presença online, mas sem dúvida o canal digital se tornou a única fonte de renda de um dia para o outro. O canal digital tornou-se um canal de vendas exclusivo, por isso tiveram que eliminar parte de seus processos e todo o seu foco e ajustar as plataformas muito rapidamente para manter parte das vendas. Esses são os dois casos mais claros que me ocorrem em que o modelo mudou muito rapidamente. Sem falar nas agências de viagens e hotéis, muitos foram convertidos para outro modelo, agora existe um modelo como o hotel-escritório onde você pode trabalhar a partir de lá, coisas assim, passaram por um forte processo de transformação.