É indispensável contar com bons provedores de internet móvel

Entrevista com Juan Luis Núñez, Gerente Geral da Fundação País Digital do Chile

A implementação de programas que busquem potencializar o envolvimento das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) com a sociedade avançam cada vez mais na região. No Chile, parte deste trabalho é realizado pela Fundação País Digital, que trabalha há 16 anos fomentando o desenvolvimento de uma cultura digital e tecnológica, assim como articulando a construção de alianças e a realização de projetos público-privados.

Juan Luis Núñez, gerente geral da Fundação País Digital

Para isto, o Brecha Zero dialogou com Juan Luis Núñez, gerente geral da Fundação País Digital desde julho de 2012. Ele é advogado pela PUC do Chile. Além disso, é Mestre em Direito (LLM) com certificação em Direito Comercial Internacional, pela American University Washington College of Law, de Washington DC, USA.

Profissionalmente está ligado às telecomunicações, à livre concorrência e ao âmbito regulatório, tendo se destacado na participação de vários litígios que introduziram importantes modificadores aos ditos mercados em seus países de origem.

Sobre o trabalho da Fundação País Digital para promover o uso das TIC no Chile, o Brecha Zero conversou com Núñez:

Brecha Zero: Qual função cumpre o País Digital?

Juan Luis Núñez: O “Fundación País Digital” busca incentivar o desenvolvimento e promover o uso da tecnologia no Chile. Para isto, a Fundação se vincula aos setores público e privado para gerar ações nas áreas que consideramos especialmente importantes para o desenvolvimento do país, como Educação, Desenvolvimento Digital e Cidades Inteligentes.

O País Digital, além disso, busca aportar a discussão pública a respeito das TIC e das telecomunicações, procurando gerar profundas reflexões que nos levam a obtenção de propostas de utilidade para o país.

Nossa função, e principal preocupação, é zelar pelo desenvolvimento integral do país, reunindo representantes do mundo da educação, da tecnologia e do setor privado para pensar em conjunto em como solucionar os assuntos mais urgentes, como a exclusão digital, e projetar cenários futuros que nos garantam estar em dia com as atualizações.

Brecha Zero: Qual é a sua contribuição para o fim da exclusão digital no Chile?

Juan Luis Núñez: Na Fundação País Digital buscamos que nosso país viva uma cultura digital que, por certo, enfrente o problema da exclusão digital e resolva as diferenças geradas por ela.

Entre nossas ferramentas principais estão os projetos, as pesquisas e os estudos que não apenas abordam, mas também propõem cursos para resolvê-las. Para nós, a chave é perseguir o ideal de desenvolvimento social e humano através das TIC.

Neste sentido, uma das nossas propostas mais valorizadas é o Programa “Tus Ideas”, uma iniciativa que busca que os estudantes aprendam a programar aplicativos e com isto não apenas adquiram novas habilidades, mas que descubram novas possibilidades de desenvolvimento pessoal e porquê não, profissional.

Neste sentido, o programa tem mais de três mil crianças de nosso país aprendendo sobre programação. O mais interessante disto é que as crianças aprendem com professores de seus próprios colégios, que se capacitam com a Fundação País Digital e repassam seus conhecimentos aos seus alunos.

Brecha Zero: Qual o aporte pode realizar as TIC para o desenvolvimento do Chile?

Juan Luis Núñez: No século XXI, as TICs são tão cotidianas quanto naturais. Quase sem perceber, adotamos o uso de tecnologias tanto para nos comunicar, para nos informar, para nos educar e, se eu posso, para viver. A nível pessoal, as TIC tornaram-se diárias e amigáveis, o que não foi totalmente traduzido a nível nacional.

Por décadas, o Chile tem uma das economias líderes da região e tem estado na vanguarda das transformações que o mundo tem enfrentado. Supomos estar à altura da globalização, a abertura dos mercados e à mudança climática. A transformação digital está nos impedindo o mesmo esforço, urge que as instituições adequem seus processos e que o estado assuma a digitalização.

Para isto, é fundamental gerar capital humano avançando em matéria tecnológica, e como se muda isso? Incorporando no currículo escolar as habilidades digitais e de programação e dando continuidade a nível superior e pós-graduação. O objetivo central é contar a curto prazo com cidadãos digitais.

Contar com cidadãos digitais não é capricho e já quase não é vanguarda, a transformação digital, tanto no setor público, como privado, é essencial para alcançar o desenvolvimento do país. A tendência mundial nos mostra como a economia tem se tornado digital e como aqueles países que não assumem o desafio ficam para trás.

Contudo, a evidencia nos mostra que o digital não apenas impacta a nível externo, mas também a nível interno. A maior capacidade de inovação em empresas e pessoas, as melhorias em educação e a criação de mercados mais eficientes geram naturalmente melhores oportunidades de emprego, diversificam as matrizes produtivas e incentivam o crescimento.

Brecha Zero: Qual oportunidade apresenta o Chile para um mercado digital?

Juan Luis Núñez: Devemos considerar que os mercados digitais não apenas facilitam os processos de comercialização, mas também geram oportunidades de trabalho e sustentam pequenas e médias empresas porque lhes permite amplificar as possibilidades de contato com seus clientes. Neste sentido mais amplo, a Câmara de Comércio de Santiago projetou que as vendas de e-commerce de varejo passem do atual 4,5% para 8,5% das vendas totais do setor para 2020. Estas cifras demonstram crescente interesse por parte dos consumidores em comprar online.

Isto afirma que o Chile conta com uma tremenda oportunidade de crescimento. Se o país procura estar à altura do desafio, não apenas o e-commerce no varejo crescerá, mas também as pequenas e médias empresas, e finalmente, o país.

O desafio neste cenário é cobrir as exclusões que entorpecem o crescimento. Segundo estudo deste ano da CCS sobre o mercado mobile no Chile, do Centro de Estudos Digitais, mostra que um dos grandes desafios do comércio eletrônico é pensar na “omnichannel” e, especialmente, nas plataformas móveis, para que a experiencia de compra dos consumidores seja mais fluída possível, entre as possibilidades de compra combinada entre virtual e a física. A América Latina possui a maior taxa de crescimento do mobile commerce no mundo e o Chile não deve ficar atrás.

Brecha Zero: Quais iniciativa tomadas pelo governo do Chile para aumentar a conectividade considera importante destacar?

Juan Luis Núñez: Um dos aspectos fundamentais da modernização do estado é a transformação digital, e neste sentido, durante os últimos anos, o estado tem demonstrado numerosos avanços, por exemplo, entre outros, além do fomento permanente do uso de meios digitais para acessar serviços.

Também tem surgido novas plataformas online para realizar trâmites digitais em instituições do estado como o escritório empresa (continuação do programa Empresa Em Um Dia), que facilita o empreendimento, criação e operação de empresas.

Em termos de conectividade, a fibra óptica austral (FOA) é, sem dúvidas, um projeto estratégico não apenas para as regiões externas, mas também para o Chile. É urgente conectar-se ao país do próprio território pensando em potencializar o desenvolvimento das regiões de Aysén e Magallanes.

Brecha Zero: Quais medidas acredita que são necessárias para o futuro?

Juan Luis Núñez: A Fundação País Digital tem seguido próxima do avanço da digitalização do estado através de seus estudos. Em matéria de transformação digital, uma das tarefas mais urgentes é digitalizar o quanto antes a totalidade dos tramites e Fundação País seguirá medindo tal avanço.

O desafio é conscientizar o setor público dos benefícios que traz consigo a transformação digital, sobretudo pela redução de custos que implica, tanto para instituições como para os cidadãos.

Tampouco pode-se obviar as vantagens da inovação nos processos produtivos, a agilidade que podem adquirir os processos internos e a eficácia na resposta que pode mudar no momento de ser requerido pelos usuários das instituições públicas.

Assim como incentivar o uso dos meios digitais é urgente, a massificação destes processos passa a gerar confiança junto aos usuários apenas ao contar com essa confiança, os usuários validarão o uso da Internet como um canal certo de vinculação com o estado.

Brecha Zero: Quais iniciativa tomadas pelo setor privado ajuda a reduzir a exclusão digital?

Juan Luis Núñez:  As iniciativas que estão emergindo do setor privado para contribuir para reduzir a exclusão digital são inúmeras e todas muito positivas. Desde empresas diversas é evidente o interesse de concretizar a digitalização e operar neste ambiente.

No entanto, o mais notável é o apoio de algumas empresas a projetos que não apenas buscam a digitalização, mas também buscam promover o desenvolvimento social do país, pois são essas as empresas que olham para o Chile com olhos futuros.

A Samsung, por exemplo, trabalha conosco para implementar o “Programa Tus Ideas”, uma iniciativa que aproxima os alunos da programação de aplicativos. Eles estão dirigindo o programa porque acreditam na necessidade de oferecer novas habilidades pensando no futuro.

Brecha Zero: Qual a importância dos serviços de banda larga móvel no momento de buscar reduzir a exclusão digital?

Juan Luis Núñez:  A cobertura dos serviços de banda larga móvel são, por si só, uma solução para os usuários que não podem acessar a Internet. Os serviços móveis são um aliado indispensável para chegar a lugares que geograficamente estão impossibilitados de contar com provedores de internet estáveis.

Além disso, a banda larga móvel se converteu em uma alternativa que resolve a necessidade de mobilidade continua que requer alguns usuários, garantindo continuidade de conexão e flexibilização da conexão.

É indispensável contar com bons provedores de internet móvel, porque uma coisa é ter conectividade e contar com os serviços básicos, no entanto o que devemos apontar é ter boa conectividade para assegurar que os processos digitais estejam ao alcance de todos e a transformação digital se torne real. Devemos nos concentrar em que todos, a maior quantidade de usuários possíveis possam se conectar, do contrário, teremos que permanecer análogos.

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