É importante disseminar práticas seguras no ambiente digital para toda a população

Entrevista com Iara Machado, diretora de pesquisa, desenvolvimento e inovação da RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa

A segurança cibernética é uma das prioridades dos países da América Latina e do Caribe. Por este motivo, existem diversos programas para que os residentes adotem práticas que melhorem a sua segurança online. Estas estratégias são essenciais para que haja um desenvolvimento digital que nos permita competir a nível global.

Iara Machado, diretora de pesquisa, desenvolvimento e inovação da RNP

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com Iara Machado, diretora de pesquisa, desenvolvimento e inovação da RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), rede acadêmica e instituição brasileira que ajudou a implantar a Internet no país. Formada em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) , tem mestrado em redes de computadores e sistemas distribuídos pela Universidade Federal Fluminense. Também possui MBA em empreendedorismo pelo Instituto de Economia da UFRJ. Em sua trajetória profissional atuou na Embratel, na área de Sistemas de Gerenciamento de Redes. Na RNP, suas atividades incluem a colaboração com a comunidade de pesquisa em Redes de Computadores e Sistemas Distribuídos, no desenvolvimento de redes e aplicações avançadas.

Brecha Zero: Qual o objetivo do “Hackers do bem”?

Iara Machado: O programa Hackers do Bem tem como objetivo a formação de recursos humanos qualificados com foco em segurança cibernética e privacidade. A iniciativa contempla várias ações, como 1) a implantação de uma plataforma nacional de cursos online de segurança cibernética e privacidade; 2) a capacitação para o desenvolvimento de competências com uso de ambientes de experimentação, simuladores de cibersegurança e residência tecnológica; 3) ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação (para apoiar tanto as práticas educacionais quanto a criação de startups na área); e 4) a implantação de um hub nacional de cibersegurança, visando a articulação para o fortalecimento do ecossistema de segurança e privacidade nacional, aproximando a academia da área produtiva.

Brecha Zero: Como funciona o programa? E quem pode participar?

Iara Machado: A formação oferecida pelo Hackers do Bem é completamente gratuita. O processo de inscrição é simples: após o preenchimento de dados, será recebido um e-mail de confirmação de matrícula. No dia 22 de janeiro, o inscrito terá acesso ao primeiro curso da trilha, chamado de “nivelamento”. Ao concluir esse curso, estará preparado para avançar para o próximo nível, o curso “básico”, que também conta com aulas gravadas.

Oferecemos cursos mais avançados, como o “fundamental” e a “especialização”, que incluem aulas ao vivo e atividades práticas em laboratório. Essas oportunidades serão abertas ao longo do programa, que se estende até o ano de 2025.

O curso é aberto a todos os interessados, tendo como público-alvo principal alunos egressos do ensino médio, rede pública ou privada, cursando o último ano do ensino médio ou alunos de curso de graduação e pessoas que queiram migrar de carreira.

A formação online tem em torno de um ano de duração. Já a residência tecnológica, que é a etapa de formação presencial, tem por volta de 6 meses de duração.

Brecha Zero: Qual importância possui a cibersegurança nas políticas realizadas pelo MCTI?

Iara Machado: O programa Hackers do Bem tem apoio de recursos do MCTI e possui um valor estratégico para o Brasil ao contribuir diretamente com a qualificação profissional, o que eleva o índice escolar, e ao estruturar elementos que fortalecem o ecossistema de cibersegurança. Os resultados são avanços do país em uma área crítica que afeta de uma forma holística diferentes setores econômicos e que refletem também na sociedade e na vida dos cidadãos.

Brecha Zero: Quais iniciativas podem ser adotadas para conscientizar a população sobre a importância e boas práticas de cibersegurança?

Iara Machado: É importante disseminar práticas seguras no meio digital para toda a população. Uma das maneiras é por meio de posts em redes sociais ou vídeos explicativos. O CAIS-RNP, núcleo de inteligência em cibersegurança da RNP, realiza campanhas internas de conscientização. Cito alguns temas abordados em nossas campanhas do ano passado, que qualquer pessoa pode adotar como boas práticas de cibersegurança:

– Utilizar duplo fator de autenticação chamado MFA – O MFA, ou autenticação multifator, adiciona segurança extra ao seu login em aplicativos, como bancos ou redes sociais. É como ter uma chave para casa, mas também precisar de um código especial no celular. Mesmo que alguém descubra sua senha, é difícil entrar sem o código extra, protegendo suas contas online.

– Troca de senha regularmente  – Um hábito recomendado é trocar a senha com uma certa frequência, pois se você usar a mesma por muito tempo, fica mais fácil para alguém descobri-la.

– Não clicar em links desconhecidos para não cair em golpes. Essa técnica é denominada “phishing”. Assim como você desconfiaria de alguém que parece suspeito à sua porta, é importante não clicar em links ou fornecer informações pessoais a mensagens ou sites que parecem enganosos. O phishing é uma tentativa de enganar as pessoas, então é crucial ser cauteloso online para proteger suas informações.

Brecha Zero: Quais são as estratégias desenvolvidas para aumentar a cibersegurança em órgãos públicos do país?

Iara Machado: A RNP fez a implementação do SOC (Security Operation Center) como serviço para monitoramento de segurança das instituições conectadas na rede IPÊ, que é a rede acadêmica brasileira. A RNP também fornece serviços de análise de vulnerabilidades, pentest, campanhas de conscientização e diagnósticos de maturidade do sistema de gestão de segurança da informação.

Além disso, a RNP também possui a área de coordenação de respostas a incidentes nas instituições do Sistema RNP, contribuindo e orientando a comunidade acadêmica em casos de ameaças e ataques cibernéticos.

Brecha Zero: Qual a importância da cibersegurança para melhorar as condições de vida dos brasileiros?

Iara Machado: Diminuir a perda financeira com os ataques que as pessoas sofrem diariamente no uso do ambiente digital. A transformação digital, para acontecer de verdade, necessita de um ambiente seguro. Nesse contexto, a cibersegurança é fundamental.

Brecha Zero: Quais benefícios a tecnologia 5G pode oferecer para contribuir na melhora da cibersegurança do país?

Iara Machado: Na verdade, a tecnologia 5G, ao oferecer um ambiente hiperconectado possibilitado pela banda larga do 5G, faz crescer as vulnerabilidades e oportunidades para os cibercriminosos. A tecnologia 5G nos traz mais desafios para a cibersegurança. Por isso a importância de iniciativas que conscientizem e preparem as pessoas para um uso seguro da rede.