Conectividade gera uma grande mudança no ativismo

Entrevista a Eliezer Filho, consultor da Todes Telecom, e João Davi, CMO e CPO do Grupo Cuore

O acesso às tecnologias de informação e comunicação (TIC) representa uma oportunidade para diferentes comunidades interagirem e melhorarem suas condições de vida. A possibilidade de compartilhar experiências comuns permite melhorar muitos aspectos da vida cotidiana de cada um de seus habitantes.

João Davi, CMO e CPO do Grupo Cuore
Eliezer Filho, consultor da Todes Telecom

Sobre esses benefícios na comunidade LGBTQIA+, o Brecha Zero conversou com dois representantes da Todes Telecom, que é uma MVNO brasileira representada por Eliezer Filho e João Davi. Elizer é consultor da Todes Telecom, e foi escolhido pelo Yahoo Finance and Outstanding como um dos 100 maiores executivos LGBTQIA+ do mundo em 2019 e 2020. É responsável pelo desenvolvimento de projetos e estrutura de comunicação e ações relacionadas às causas LGBTQIA+. E João Davi é CMO e CPO do Grupo Cuore, e tem 4 anos de experiência no mercado em TIC, computação em nuvem e LGPD.

Brecha Zero – Como surgiu a ideia de um MVNO com foco na comunidade LGBTQIA+?

João Davi – Nosso esforço está focado em um mercado muito grande no Brasil, o segundo maior mercado consumidor do país. É um oligopólio de quatro grandes marcas, onde temos a oportunidade com um formato MVNO. Este modelo de negócio, somado a nossa experiência, foram fundamentais para levarmos nossos serviços para todo o território nacional, tanto para entregar o chip ou o cartão SIM, quanto para a oferta de serviços. Basta ter um smartphone e acesso à internet para poder ter acesso ao serviço.

Em relação ao posicionamento de mercado, focamos no atendimento ao cliente, que é um dos pontos fortes e o que nos diferencia das quatro grandes operadoras presentes no Brasil. Também buscamos customizar (personalizar) o atendimento como um diferencial, as grandes operadoras costumam ser as que apresentam os maiores  números de reclamações por parte dos usuários, e isso ocorre justamente pela falta de atenção especial dada aos clientes. Por isso, buscamos oferecer atendimento de qualidade para um nicho de mercado que também exige atendimento diferenciado.

Brecha Zero – Qual é o objetivo como MVNO?

João Davi – Entre os objetivos enquanto marca aspiramos atender 10% da comunidade LGBTQIA+ do Brasil nos próximos dois anos. Hoje essa população é de 18 milhões de pessoas e queremos chegar a 10% desse mercado. Buscamos alcançá-los por meio de atendimento e diferenciais de serviços. Fornecendo não só serviços ilimitados de Internet, chamadas ilimitadas, mas também serviços que os atendam de forma correta e surpreendente.

Brecha Zero – Você tem conteúdo especial para a comunidade LGBTQIA+?

Eliezer Filho – Em relação à populaçãoLGBTQIA+, antes de mais nada é preciso frisar que, como empresa, fizemos uma análise aprofundada dessa comunidade. Essa análise nos mostrou que a comunidade LGBTQIA+ é um grupo muito diverso em si, com necessidades diferentes.

Em um primeiro momento, nos comparamos com uma operadora comum, respondendo quais são os pontos em comum que esta operadora tem com a nossa ideia de serviços. Considerando esses pontos em comum, estamos preparados para atender esse público. A preparação de que estamos falando é o uso do pronome correto, o uso do nome social, além de um forte trabalho para reduzir erros inconscientes, ou predições sobre o relacionamento com outras pessoas, para poder prestar atendimento o mais correto possível sem agredir a comunidade.

Em segundo lugar, é ser uma operadora de telefonia que tenha muita transparência com os dados utilizados, para garantir que a população seja incluída, com um atendimento de qualidade e adequado.

Estamos trabalhando para adicionar serviços adicionais com outros parceiros. Como um Hub, que permite agregar pontos de vantagens de consumo, podendo trocar esses pontos por benefícios, como apoio psicológico, apoio jurídico, existem vários serviços adicionais que pensamos para a comunidade. Não só como operadora, mas a partir daí para viabilizar esses benefícios.

Brecha Zero – Qual o tamanho do gap digital no acesso às TIC dentro da comunidade LGBTQIA+?

Eliezer Filho – O Brasil é um país muito digital. Observamos que a comunidade LGBTQIA+ já tem grande acesso aos devices, tem alta penetração de terminais. O que falta para esse público é o foco em serviços de valor agregado.

Esse é o nosso objetivo, vemos esse assunto como muito relevante e nosso propósito como empresa é ampliar as vozes da comunidade LGBTQIA+. Então, a partir do momento em que a população tem acesso ao nosso serviço, e o utiliza para se comunicar com outras pessoas, usar suas redes sociais, se conectar com o mundo, temos o desafio de torná-los visíveis para amplificar o reconhecimento dessa comunidade. Consideramos que esse impacto está crescendo, primeiro com o nosso cliente, e a partir daí impactando a sociedade como um todo. Desejamos que nossos clientes através da comunicação aumentem seu orgulho, sua representatividade e visibilidade.

Não vejo esse desafio digital em nossa comunidade, não vemos um gap tão grande para essa população no Brasil. Mesmo no interior do país, já existe a possibilidade de acesso a esses serviços. Podemos alcançar nossa comunidade com conectividade, em melhores ou piores condições, de alguma forma. O desafio é conseguirmos chegar até essas pessoas, como ajudá-las, principalmente aquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade.

 

Brecha Zero – Qual a importância da conectividade para a comunidade LGBTQIA+?

Eliezer Filho – Para o movimento social LGBTQIA+, como para todas as comunidades e grupos sociais, a conectividade gera uma grande mudança no ativismo. Quando você pensa em ativismo décadas atrás, era muito cara a cara, acontecia nas grandes cidades, e não dava para sair dessas grandes cidades, era difícil reunir tanta gente para gerar impacto na sociedade . Hoje, graças à conectividade, é possível levar esse impacto para lugares cada vez mais distantes.

Por exemplo, o encontro LGBTQIA+ em São Paulo, que é um dos maiores do mundo, reúne dois milhões de pessoas na Avenida Paulista todo mês de julho, é uma demonstração que conecta as pessoas, aquelas que podem viajar para participar têm mais experiência no assunto. Com a digitalização desse processo, ele agora pode ser acessado virtualmente, e assim uma pessoa do interior pode se conectar com toda a comunidade.

A digitalização e a tecnologia tornam-se essenciais, permitindo melhor visibilidade para ajudar outras pessoas. Porque uma pessoa LGBTQIA+ que não sabe da existência de outras pessoas, tem que enfrentar um processo sozinha, tem problemas psicológicos, tem depressão, o que leva a um alto índice de suicídio. Mas se for possível conectá-los com outras pessoas em situação semelhante, eles podem ter uma identificação, um suporte na construção de sua vida. E são caminhos que ajudam todos na criação de uma comunidade, vamos acabar criando uma comunidade virtual de todos os nossos clientes com o objetivo de gerar um impacto positivo.