CITEC Equador: Um desafio que temos como país é digitalizar o cidadão

Entrevista com Gisela Montalvo, Diretora Executiva da Câmara Equatoriana de Inovação e Tecnologia (CITEC). Parte I

A pandemia provocada pela Covid-19 forçou a maioria dos países latino-americanos a empreender um processo acelerado de digitalização. Os planos de emergência que foram desenvolvidos para enfrentar a crise permitiram avanços em diversos setores da economia e da sociedade.

Gisela Montalvo, Diretora Executiva da CITEC

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com Gisela Montalvo, diretora executiva da Câmara Equatoriana de Inovação e Tecnologia. Montalvo é formado em Ciência Política e Relações Internacionais, possui MBA e Mestrado em Políticas Públicas e participou do Programa Executivo em Tomada de Decisão de Liderança pela Harvard Kennedy School. Por vários anos, trabalhou no setor público do Equador como funcionária da Embaixada do Equador nos Estados Unidos e assessora no Ministério da Coordenação da Produção, Emprego e Competitividade. Foi diretora da Corporación Líderes para Gobernar e diretora da Escola de Governo da UHE. É também membro do Comitê Acadêmico da Unidos por la Educación, vice-presidente da Comissão de Integridade da ICC e cofundadora do Movimiento Razón y Emoción.

Brecha Zero: Quanto você acha que as TIC ajudaram a economia a superar os problemas causados pela pandemia?

Gisela Montalvo: No caso do Equador, foi o eixo central para manter o comércio e as atividades ativas. Para que os cidadãos pudessem ter acesso a serviços e produtos essenciais, independente das situações vividas, e para o comércio foi também uma oportunidade de ter um meio para chegar até o consumidor. No Equador não estávamos tão acostumados com o uso de plataformas digitais, para fazer compras ou oferecer serviços e produtos, e isso tem se tornado cada vez mais comum. Na verdade, isso fez com que o tema do e-commerce fosse colocado em pauta pública, antes era visto como algo destinado apenas a grandes empresas e que era necessário contar com uma grande equipe, mas agora ficou claro que dá certo para micro, pequenas e médias empresas e também possibilita um crescimento estratégico de comercializar seus serviços não só na cidade onde você está, mas também em todo país.

Brecha Zero: Quais setores fizeram o melhor uso do processo de digitalização para lidar com os problemas da pandemia?

Gisela Montalvo: Como setor, principalmente, o e-commerce, porque era o poder de prestar serviços e vender seus produtos através de plataformas digitais. Por isso, teve um crescimento importante neste ano e meio. Há também uma oportunidade de negócio que surgiu para os serviços financeiros, tanto para Fintechs que entram no país para conquistar mercado, como para os bancos tradicionais que pretendem dar o salto para se tornarem uma Fintech, bem como para as gateways de pagamento que se transformaram em uma grande oportunidade no país. Não era algo muito utilizado, obviamente grandes empresas utilizavam, mas esta é uma grande oportunidade para todas as plataformas de pagamento que podem prestar um serviço e com escalas diferentes.

Por outro lado, também foi uma grande oportunidade para o setor de software, independente da situação você poderia continuar trabalhando em casa. Em relação aos outros setores teve um crescimento importante neste último ano porque pôde prestar mais serviços, está em franca expansão e cada vez mais são necessários mais prestadores de serviços e programadores de software. Então para a indústria de software também representou um crescimento importante, pois eles já são vistos como uma oportunidade e o meio para manter o seu negócio ou ter uma nova oportunidade de negócio que antes não existia aqui em nosso país.

Brecha Zero: Em relação a outros setores como educação, saúde, como eles incorporaram a tecnologia?

Gisela Montalvo: Bem, aí vamos nos basear primeiro em uma questão que é um desafio em nosso país, que é o acesso à conectividade. Isso foi um problema e evidenciou a necessidade de conseguir como base para qualquer projeto, produto ou desenvolvimento de serviço que haja conectividade real em nosso país.

Isso só tem paralelo com a educação, todas as instituições de ensino, desde escolas, faculdades, universidades tiveram que passar a oferecer aulas por meios digitais, com ferramentas que permitem cada vez mais a especialização e oferecessem um serviço de qualidade. Porém, a adaptação não foi a mesma em todas as escolas, onde não é só ligar uma câmera, é também digitalizar seus serviços, como você usa as ferramentas. Ou seja, não quer dizer que você se digitalizou apenas por se conectar 8 horas seguidas com alguém, é preciso mudar a realidade, a metodologia, usar os serviços que você tem a disposição para conquistar uma dinâmica que realmente se transforme em um processo de aprendizagem.

Se obtivemos uma vantagem pela necessidade de adaptação a essas novas realidades, evidenciou-se a necessidade de mudar as metodologias, as formas de estudos, um desafio também para os domicílios poderem acompanhar mais de uma oportunidade de aprender, conhecer melhor seus filhos e ser parte ativa desses processos educativos.

Nesse sentido, o Ministério das Telecomunicações contava com projetos que buscavam dar aos alunos mais acesso à Internet. Mas nasceu outro desafio, que é contar com um aparelho digital para ter acesso. Então, é fácil falar que me conecto, talvez use todas as plataformas, mas se os alunos que eu alcanço não tiverem computador, celular, tablet e não tiverem acesso à internet, isso prejudica a educação. Acredito que existe o desafio, que seja trabalhado em conjunto pelo setor público, para que o Ministério da Educação possa dar esse acesso, o que é difícil porque não poderíamos fornecer tablet a todos os alunos, na situação e na realidade do nosso país.

O setor privado apoiou, houve várias iniciativas em que priorizaram o uso desses serviços, ou nas universidades públicas fizeram programas de patrocínio para fornecer internet aos alunos. Por exemplo, para alunos que estudavam programação porque sem internet não poderiam nem estudar.

Acho que os serviços educacionais adotaram algumas ferramentas, mas ainda há um desafio que temos como país que é digitalizar o cidadão, que pode ter o acesso e as ferramentas necessárias para essa questão, mas nos ajudou a manter a atividade educativa de uma certa maneira. Agora, qual é o ensinamento que isso nos deixou? Existem muitos problemas para se conectar com os pais por meio de uma plataforma ou serviço digital. Antes de tudo era o caderno, o boletim, que você mandava por correio para os manter atualizados, então tem sido uma questão de ecoeficiência e uma consciência sustentável que nos ajudou a mudar um pouco o processo.

E na questão da saúde, existem determinados serviços e cuidados que foram prestados de forma digital. Assim como no processo de vacinação, as diretrizes a época pelas quais podíamos ou não circular, a telemedicina foi vista como uma opção. É uma opção de atendimento num primeiro momento  para depois investigar mais a fundo de forma específica. Então, sim a tecnologia foi utilizada na saúde, mas temos o mesmo desafio que comentei anteriormente; a necessidade de acesso à internet e um dispositivo que funcione para poder aproveitar esses serviços que são prestados tanto pela saúde pública como pela saúde privada.