Os esforços pela diminuição da exclusão digital incluem não somente o setor privado e os países, mas também diferentes órgãos supranacionais. Isto permite consolidar diferentes visões sobre a importância das diferentes Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), em particular as móveis como igualadoras da sociedade.

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Mario Castillo, Chefe da Unidade de Inovação e Novas Tecnologias da CEPAL

A respeito da importância da banda larga móvel no ecossistema digital da América Latina, o Brecha Zero conversou com Mario Castillo, Chefe da Unidade de Inovação e Novas Tecnologias da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). Castillo é engenheiro civil industrial pela Universidade do Chile, com Mestrado em Business Administration (MBA) pela Lyola College (Maryland) e Mestrado Internacional pela Thunderbird School of Global Managment, dos EUA.

Anteriormente, Castillo coordenou o projeto CEPAL @LIS2, cujo foco foi o diálogo para a sociedade da informação na América Larina. Além de ter trabalhado na área de políticas públicas como gerente de investimento e desenvolvimento da CORFO do Chile.

No diálogo com o Brecha Zero, Castillo analisou a importância das novas tecnologias no desenvolvimento da América Latina:

Brecha Zero: Qual importância considera que tem as TIC no desenvolvimento socioeconômico dos países?

Mario Castillo: Para a CEPAL, o uso e a adoção das TIC já são parte da agência política e estratégica de crescimento dos países da região. A importância é que estas passaram de uma plataforma técnicas e de consumo, para um componente que permite a região abordar um desenvolvimento inclusivo.

As TIC são importantes porque estão no centro dos processos de transformação de consumo e da propagação produtiva. Também são parte do desenvolvimento econômico e social que é o principal desafio da região.

Brecha Zero: Que tipo de políticas podem ampliar o uso das TIC para o desenvolvimento dos países?

Mario Castillo: A CEPAL apresenta um ambiente de economia digital. Além das políticas que buscam potencializar o acesso da população à infraestrutura, são importantes aquelas que apontam o desenvolvimento de maneira integral com os recursos humanos.

Aquelas políticas que buscam incentivar trabalhadores e estudantes a buscar novas habilidades TIC. Neste sentido, não se trata de apontar somente carreiras específicas deste tema, mas uma educação que contemple a plataforma TIC como tal em diferentes âmbitos da economia e da sociedade.

Também é necessário aprofundar políticas para potencializar os investimentos em infraestrutura, que tende a melhorar a qualidade e o serviço. Assim como também para que as empresas possam adaptar-se da melhor maneira às TIC, facilitando a adoção de novas tecnologias como Cloud, Big Data ou Internet das Coisas (IoT) não somente às grandes empresas, mas também às pequenas e médias. Com o objetivo de gerar um setor produtivo e mais competitivo.

Brecha Zero: Quais setores verticais (educação, saúde, Governo) considera que aproveitaram da melhor maneira da evolução das TIC?

Mario Castillo: A região aproveitou de maneira importante o desenvolvimento das TIC. Principalmente no que se refere ao governo eletrônico, que é um setor que fez grandes avanços. Neste sentido, existem diferentes progressos em cada um dos países, alguns já estão mais avançados implementando questões como dados abertos e a participação cidadã.

De todas as formas, existem desafios pelo constante avanço das TIC. O que gera a necessidade de políticas ativas e a um novo foco que se adapte de maneira constante. Apresenta-se também uma oportunidade para seguir avançando em saúde, educação e trabalho produtivo, por isso que é necessário a troca de experiências que melhoram a tomada de decisões.

Estes avanços nas TIC evidenciam, por exemplo, nas políticas de governo eletrônico, onde abrem-se outras arestas com gestões de cidades. Com temas como transporte, energia, cidades sustentáveis. Temas importantes para a região, já que conta com níveis de urbanização muito alto.

Brecha Zero: Quais países da América Latina observa que tiveram uma melhor implementação das TIC?

Mario Castillo: A região apresenta uma alta heterogeneidade de condições econômicas, territoriais, geográficas e econômicas; por isso, seria inexato realizar uma comparação. De todos os modos, existem experiências bem-sucedidas entre aqueles países que apresentam mais homogeneidade, onde a adoção e o desenvolvimento apresentam condições mais simples.

Ao observar os rankings globais, os mercados que lideram são aqueles que planejaram de maneira simples suas estratégias de políticas digitais. Entre eles, estão Uruguai, Chile, Argentina, Panamá, Brasil e Costa Rica. Ainda também há países que puderam avançar neste sentido com estratégias inovadoras como no caso da Colômbia, com o Vive Digital, ou do Equador com seus incentivos à infraestrutura, ou aqueles que realizaram estratégias regulatórias bem-sucedidas, como no caso do México.

Também existem iniciativas regionais interessantes, porque existe consciência de um mercado regional digital. O que permite aproveitar as econômicas de escala, e aumentar a conectividade dos países. Ainda assim, a visão é interessante para homogeneização regulatória. Pode-se dizer que estamos em um momento na região onde a percepção é que não basta com uma estratégia digital a nível nacional, mas que busca avançar para um mercado regional digital que permite aproveitar a produtividade de diferentes setores.

Brecha Zero: No que deve-se aumentar os esforços para a adoção das TIC na América Latina?

Mario Castillo: Existem vários âmbitos onde são necessários esforços, mas podemos resumir em três níveis principais. O primeiro deles é uma relação entre infraestrutura e acesso, onde bem existem avanços importantes com mercados que superam 70% de acesso à Internet, onde a média da região ainda é de 50%, dos quais ainda deve-se trabalhar neste aspecto.

Em segundo lugar, como aproveitar as TIC para modernizar e gerar produtividade na economia. São desafios nos ecossistemas digitais, para incentivar os atores para que desenvolvam novas capacidades em segmentos como software, cloud, data center, com o objetivo de potencializar esses ecossistemas.

E, por último, atender à nova tendência, que é a quarta revolução industrial por meio da IoT, robótica, etc. É um desafio que a região deve abordar e aproveitar. Assim é importante desenvolver infraestrutura e acesso, para poder aproveitar o crescimento destas novas tecnologias em diferentes industrias verticais, na urbanização das cidades, em saúde e no setor produtivo.

Brecha Zero: Qual importância tem a banda larga móvel no desenvolvimento das TIC na região?

Mario Castillo: a banda larga móvel é a infraestrutura que cresceu de maneira mais forte na região no que diz respeito à cobertura, velocidade e quantidade de acessos. Trata-se da coluna vertebral do ecossistema digital. Por esta condição requer-se seguir trabalhando para aumentar os níveis de investimento, de maneira que avança na relação com o resto das possibilidades das TIC e mantenha essa liderança no que se refere à inclusão digital.

Brecha Zero: Quais iniciativas planeja realizar a CEPAL para incentivar as TIC para o desenvolvimento nos próximos anos?

Mario Castillo: A CEPAL está à frente da Secretaria Técnica da Agência Digital Regional eLAC 2018, que é um plano de ação para que a região  formalize um acordo com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e a cúpula mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), que coloca as TIC como instrumento de desenvolvimento econômico e de inclusão social. Ele conduziu o processo político para avançar na abordagem regional.

Em segundo lugar trabalha na implementação de dados abertos na harmonização de governo eletrônico, identificando melhores práticas e apontando no avanço de diferentes mercados. Em terceiro lugar, leva adiante diferentes métricas do setor por meio do observatório regional de banda larga, que mede a cobertura, a acessibilidade e o crescimento de acesso desse serviço na região. Por último, expondo em agenda os novos desafios da região. Promovendo a Internet industrial na região. Com o objetivo de que a Internet passe do consumo para a produtividade.

Brecha Zero: Qual a importância das iniciativas público-privadas para potencializar as TIC na América Latina? De que maneira podem ser estimuladas?

Mario Castillo: Um dos elementos que permitiu o crescimento do setor TIC na América Latina foi a contribuição público privada. Não é possível imaginar esse desenvolvimento sem o trabalho conjunto. Obviamente cada um dos setores tem seus próprios interesses, por isso requer altos níveis de consciência de trabalho conjunto entre os governos e as empresas.