Bolívia reforça seu projeto de Telessaúde

O setor da saúde é um dos que enfrenta mais desafios em sua universalização nos países da América Latina. A possibilidade de alcançar cobertura total da população, apesar das extensões e acidentes geográficos, é uma das metas buscadas constantemente pela administração da região. Neste contexto, a tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) surge como uma ferramenta para democratização e acesso aos serviços de saúde alternativa.

No caso da Bolívia, trata-se de um país com grande parte de seu território sobre a Cordilheira dos Andes, com vários povoados cujo acesso é difícil e que, em algumas ocasiões, superam os 3 mil metros de altura. Estas condições geográficas dificultam muitas vezes o acesso dos cidadãos aos centros de saúde que apresentam capacitação e tecnologia para poder realizar diagnósticos e tratamentos complexos. Neste sentido, o projeto de Telessaúde desenvolvido pelo Ministério da Saúde desse país é uma alternativa válida para atender principalmente habitantes com esse perfil.

Há dois anos de seu lançamento, o Projeto Telessaúde conseguiu um total de 27.350 interconsultas com especialistas no país.  Ultrapassando mais que o dobro de 2015, em que o Ministério havia registrado 13 mil interconsultas.

No total, participaram do projeto 345 médicos, que alcançaram uma cobertura de 339 pontos distribuídos em todo o país em diferentes níveis de atenção em saúde de cada área. Cada um destes centros conta com dispositivos digitais para oferecer serviços de teleconsulta em tempo real; assim conseguem romper as barreiras geográficas e reduzir gastos com consultas médicas oportunas para populações mais vulneráveis do país. Pode-se assim realizar teleconsultas de medicina interna, traumatologia, cardiologia, ortopedia, dermatologia, oftalmologia e imagiologia.

Em seu segundo ano, o projeto atingiu uma cobertura importante de teleconsultas e telediagnósticos nos municípios distantes do país. Estas iniciativas têm como objetivo suprir a presença de centros de saúde especializados em determinadas áreas do país, agilizando dessa maneira as possiblidades de acesso aos povoados. Também de forma indireta melhora as condições econômicas desses povoados, já que antes do início do projeto era preciso deslocar-se para os centros de saúde das capitais, que eram mais completos, considerando, muitas vezes, a necessidade de gastar com hospedagem em outras cidades.

O projeto facilita a interação entre médicos gerais da área rural e médicos especialistas da área urbana. Assim, busca-se cumprir outro dos objetivos idealizados no plano, que é reduzir a exclusão social e garantir alternativas adequadas para melhorar o acesso à saúde. Da mesma maneira, serve para centralizar o trabalho de profissionais especializados que podem aproveitar da melhor maneira seu tempo de trabalho, reduzindo o tempo de locomoção diante de casos específicos.

Por outro lado, as interconsultas permitem descongestionar e reduzir a referência dos pacientes aos hospitais de níveis I e II de atenção. Desta forma, reduzem as possibilidades de saturação devido à alta demanda de pacientes para atenção médica especializada. Assim também se reduzem outros gastos das instituições sanitárias, como a atenção pessoal aos pacientes e a manutenção e limpeza destas dependências. Deixando assim, maior quantidade de recursos à disponibilidade do setor de saúde e o atendimento aos pacientes em todo o longo do país.

Como exemplo de funcionamento do projeto de Telessaúde, o próprio Ministério de Saúde destaca a experiência da Dra. Yovana Piza Santos do Centro de Saúde Ayo Ayo. Ela detectou uma patologia na coluna vertebral de um menino de 2 anos de idade e realizou uma avaliação com um especialista de telessaúde, gerando assim interconsultas em tempo real com um pediatra de Warnes, da cidade de Santa Cruz de la Sierra.  Por sua vez, o pediatra solicitou exames complementares e o encaminhou para o centro de Traumatologia infantil para uma opinião especializada, que gerou uma primeira interconsulta com o Dr. Ricardo Torrico, especialista em Traumatologia e Ortopedia (Chefe da Unidade de Emergências / Urgências do Hospital das Clínicas), que teledirigiu um exame físico através do monitor em colaboração do médico de Telessaúde ao paciente Edilson Huanca Paredes. De acordo com os exames, o diagnóstico foi escoliose congênita, encaminhando a criança para a unidade de Traumatologia Infantil do Hospital da Criança “Ovidio Aliaga Uría”, para receber o tratamento oportuno e prevenir qualquer doença posterior que o impeça de caminhar.

Esta experiência é apenas uma amostra dos benefícios que projetos como esse em Telessaúde podem gerar nas populações. No entanto, para que estas iniciativas tenham um efeito positivo, é importante que os centros de assistência primária de saúde contem com acesso à banda larga de alta velocidade, para poder transmitir as consultas de maneira eficiente e em tempo real. Ou seja, as Teleconsultas necessitam de um suporte TIC que lhes permita levar a informação aos especialistas de cada uma das especialidades.

Neste marco, os serviços de banda larga sem fio confirmam uma alternativa válida para dotar de conectividade os centros de saúde de assistência primária. Particularmente em países com geografia como a boliviana, onde o território se transforma em um obstáculo para poder desenvolver serviços fixos. Para ampliar essas alternativas é importante que existam incentivos por parte da administração pública para o desenvolvimento de redes sem fio, em particular, com a disponibilidade de espectro radioelétrico e a redução das barreiras burocráticas para o desenvolvimento das redes.

O projeto Telessaúde da Bolívia apresenta-se como uma alternativa positiva para democratizar o acesso à saúde neste país. Mas para ampliar seu impacto é importante que exista um trabalho Inter disciplinar que também considere o desenvolvimento das TIC, facilitando iniciativas como esta.

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