As TICs são uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de países

Entrevista com Gerardo Flores, consultor independente, parte I

As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) apresentam a oportunidade de facilitar o desenvolvimento de diferentes setores econômicos de um país. Ao mesmo tempo, elas funcionam como um fomentador de oportunidades para governos ao simplificar os serviços ou processos oferecidos aos seus cidadãos.

Gerardo Flores, consultor independente

Sobre essas questões, Brecha Zero apresenta a visão de Juan Gerardo Flores Ramírez, economista formado pelo Instituto Tecnológico Autónomo de México (ITAM); Ele obteve o Master of Science em Economia, pela Universidade de Warwick, no Reino Unido. Atualmente, atua como consultor independente em trâmites regulatórios de telecomunicações, design e implementação de políticas públicas.

Foi senador da República, de 2012 a 2018, onde atuou como Secretario de la Comisión de Comunicaciones y Transportes e membro das comissões de Radio, Televisión y Cinematografía, de Relaciones Exteriores e de Educación. Ocupou papel central na reforma constitucional e legal de telecomunicações, bem como nas reformas educacionais e da indústria de geração de energia.

Além disso, de 2009 a 2012, foi Deputado Federal, atuou como Presidente de la Comisión de Radio, Televisión y Cinematografía e como Secretario de las Comisiones de Comunicaciones y de Energía. Anteriormente, atuou como funcionário do governo federal por 12 anos, principalmente na então Comisión Federal de Telecomunicaciones (COFETEL), onde foi consultor do presidente do órgão regulador e diretor geral de ofertas de espectro de rádio.

Abaixo está a primeira parte da conversa com Gerardo Flores:

Brecha Zero: Como você acha que as TICs ajudam no desenvolvimento de mercados na região?

Gerardo Flores: São ferramentas poderosas para buscar a ascensão a maiores graus de desenvolvimento nos diferentes mercados que compõem nossas economias. Particularmente em áreas rurais, áreas agrícolas e até mesmo em áreas de pesca. Parece-me que há muito o que fazer nessas áreas, há grandes oportunidades em nossos países, porque apenas uma pequena porcentagem de agricultores, ou aqueles que se dedicam à pesca, usam ferramentas modernas em seus processos de produção.

E existe um universo importante, uma porcentagem importante de indivíduos que produzem ou se envolvem nessas atividades da maneira tradicional, e que, na maioria dos casos, ficam de fora de oportunidades de marketing ou mesmo na tomada de decisões importantes quanto ao plantio, ou talvez até a colheita de uma safra em particular, porque eles não estão cientes por exemplo de qual é a previsão do tempo de uma determinada estação.

Então, essa grande porcentagem de pessoas poderia se beneficiar de forma significativa ao incorporar o uso de ferramentas de TIC, especialmente aquelas oferecidas pelo ecossistema da 5G. Nesse sentido, há um grande desafio para os governos, para as empresas e para as instituições envolvidas com esse setor no que tange a implantação de infraestrutura, porque para levar a infraestrutura de um lado a outro, o que se torna também fundamental é a capacitação para o uso dessas ferramentas.

Brecha Zero: No caso particular do México, como as TICs podem ajudar?

Gerardo Flores: O México, em seu setor agrícola, tem uma herança de um conceito chamado de Elegido. São terras comunais, das quais aqueles que as utilizam ou exploram, não as possui, são usuários ou usufrutuários. São unidades de produção caracterizadas por produtividade muito baixa, em muitos casos produzem para consumo próprio, são entidades que dificilmente se inserem no processo de comercialização de suas culturas e, como consequência, são condenadas a viver com renda muito baixa. Então, as condições de bem-estar deixam muito a desejar para as famílias que moram nessas áreas.

O uso dessas ferramentas de TIC pode ajudá-los, ao auxiliar o governo na oferta de serviços de telemedicina, por exemplo. Atualmente, por exemplo, existe o caso de pessoas que vivem em determinados povoados que, para fazer a solicitação ou ter acesso a serviços públicos como consultas médicas, precisam viajar oito horas em estradas rurais, com trechos muito complicados, para que consigam realizar a solicitação de uma consulta. E muitas dessas pessoas têm um smartphone; portanto, se tivessem acesso a uma rede nessa área, poderiam acessar um mecanismo mais simples para fazer o agendamento e não os forçar a perder tanto tempo que, em muitos casos, são apenas para consultas de rotina.

Este é um exemplo muito concreto de onde – no México -, poderíamos implementar uma mudança substancial para dar a essas famílias um pouco mais de bem-estar. Já na parte agrícola produtiva, por exemplo, parece-me que, com toda a dinâmica comercial existente nos Estados Unidos, é cada vez mais urgente que os agricultores do México tomem decisões mais acertadas sobre quais culturas poderiam ser melhor comercializadas, ou com melhor preço que nos Estados Unidos e, portanto, transformar em uma oportunidade para o México. Há muitas terras no México que são dedicadas ao cultivo de milho e no entanto não são terras propícias a esse cultivo, então se pudéssemos desenhar um mecanismo para informar que tipo de cultivo podem utilizar em determinadas terras seria sensacional.

Creio que em algumas áreas dificilmente conseguiríamos alcançar esses objetivos nos próximos três anos, mas há outras em que isso pode ser alcançado. Então, como sempre, é preciso começar em algum lugar, e isso pode ajudar bastante.

Brecha Zero:  Quais são os setores verticais que melhor uso faz das TIC?

Gerardo Flores: O Setor Bancário, entendo que estão tirando vantagem disso. Parece-me que também um ramo do setor manufatureiro, especialmente aqueles ligados a esse ciclo de produção e exportação para os Estados Unidos. O setor automotivo é uma indústria muito dinâmica e muito moderna no México, que é competitiva, estou convencido e vi exemplos que mostram que eles estão tirando vantagem das TIC.

No campo, entendo que alguns fazendeiros, mas os de maior escala, que têm um foco mais comercial, que estão usando sensores para monitorar sua atividade pecuária. Portanto, existem certos usos no México, mesmo no interior, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.