As TICs são as principais aliadas da retomada econômica pós-pandemia

Entrevista com Federico Chacón, presidente do Conselho da SUTEL

O fim da pandemia de Covid-19 faz parte dos debates de todos os governos da América Latina. A importância que as tecnologias da informação e da comunicação terão para ajudar os países a avançar na nova estrutura global também é um tema de grande importância para a região.

Federico Chacón, presidente do Conselho da SUTEL

Nesse sentido, Brecha Zero conversou com Federico Chacón, presidente do Conselho da SUTEL. Graduado em Ciências Políticas e em Direito pela Universidade da Costa Rica, ele também possui mestrado em Telecomunicações e Direito da Concorrência pela Universidade de Essex, Inglaterra, LLM (Master of Law) em Tecnologia da Informação, Mídia e Comércio Eletrônico. Em sua experiência profissional destacam-se sua atuação como advogado em direito processual civil, pesquisador e professor do instituto de pesquisas jurídicas da Faculdade de Direito da UCR. Conta também com ampla experiência em cargos públicos no setor das TIC, com cargos no MINAET, RACSA e ICE.

Brecha Zero – Qual a importância das tecnologias móveis para a economia dos países emergentes para enfrentar a pandemia de Covid-19?

Federico Chacón – Estimativas preliminares da SUTEL indicam que, em junho de 2020, a Costa Rica tinha uma penetração de 148,1% de telefonia móvel, sendo o principal meio de acesso da população às TIC, com uma penetração de 94,2% relativa ao serviço de acesso à Internet móvel.

O consumo médio mensal por assinante de internet móvel em 2019 era de 2,94 GB, consumo que subiu para 3,91 GB em junho de 2020.

Este aumento no consumo é consistente com as alternativas de sobrevivência econômica adotadas por muitas empresas, um maior uso de tecnologias móveis para disciplinas acadêmicas (teleducação), entre outras estratégias adotadas diante das medidas de confinamento impostas pela pandemia. Por isso, considerou-se que a pandemia foi um gatilho e as TIC o mecanismo que permitiu a muitas empresas enfrentarem a crise.

As tecnologias móveis abriram caminho para a abertura de “portas virtuais” (antes do fechamento para o público presencial) por meio de: redes sociais, páginas da web ou páginas especializadas. Por exemplo: restaurantes, cafeterias, lanchonetes entraram no mercado virtual oferecendo seus produtos e utilizando o delivery com o auxílio de diversos aplicativos móveis.

Além disso, as evidências empíricas mostram um crescimento na utilização de dinheiro móvel como meio de pagamento, o que facilitou e dinamizou o mercado em todas as suas ofertas de produtos e serviços. Na Costa Rica, o aplicativo Sinpe Móvil (transferência de dinheiro por meio de mensagens de texto) permite que o pequeno empresário ofereça aos seus clientes essa facilidade de pagamento e assim se adapte às necessidades atuais.

Na Costa Rica, as redes de telefonia móvel enfrentaram aumentos no tráfego de rede, mas com uma adaptação rápida que, em poucas semanas, permitiu que atingissem níveis de qualidade semelhantes aos experimentados antes da pandemia.

A crise econômica gerada pela pandemia permitiu a inovação para milhares de empresas que evoluíram para o comércio eletrônico além de contribuir para seu crescimento.

Brecha Zero – Que oportunidades as TICs apresentam para ajudar as economias da região a progredir no pós-pandemia?

Federico Chacón – Durante a pandemia, os desenvolvedores de TIC encontraram um terreno fértil para o desenvolvimento de novas ferramentas tecnológicas que fazem parte de uma cadeia econômica que gera empregos e oportunidades de negócios.

As empresas que conseguirem enxergar a pandemia como uma oportunidade de inovação e investir em TICs serão as primeiras a superar a crise econômica.

A pandemia mostrou que as TICs funcionam de forma ágil, eficiente, com custos reduzidos e permitem fácil acesso aos usuários; Governos, instituições e empresas privadas devem trabalhar para incentivar todos os setores a entrar e permitir o acesso a bens e serviços eletronicamente. Sem dúvida, as TICs são as principais aliadas para o progresso econômico pós-pandemia.

Brecha Zero – Quais setores você acha que terão uma melhor adaptação ao novo cenário global e qual será a influência dos serviços de telefonia móvel?

Federico Chacón – A navegação na web adaptada a equipamentos móveis e aplicativos para dispositivos móveis são a porta de entrada para que os setores possam ter acesso a um grande número de usuários em todo o mundo que dispõem de serviços de telecomunicações móveis na ponta dos dedos.

Os setores voltados para tecnologia, telecomunicações e lojas de produtos eletrônicos têm maior facilidade para essa adaptação. No entanto, o desafio é fazer com que todas as empresas possam alcançar e se adaptar ao ambiente virtual.

Brecha Zero – Quais iniciativas a Sutel está realizando para promover o desenvolvimento dos serviços 5G na Costa Rica?

Federico Chacón – SUTEL há mais de 8 anos produz relatórios para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Telecomunicações (Micitt), sobre a utilização do espectro radioelétrico, com recomendações para a recuperação de espectro não utilizado ou ineficiente, para que ações sejam tomadas com o intuito de permitir que o espectro seja usado para as aplicações que possam gerar um maior retorno para a população da Costa Rica.

Em 2019 e 2020 produzimos muitos relatórios técnicos, com destaque para o espectro necessário à implementação de redes 5G. Além disso, a proposta de um Cronograma de Asignación de Espectro (CAE); o que permitiria:

Dar certeza ao mercado sobre as intenções da administração, quanto aos termos e âmbito da atribuição do espectro radioelétrico destinado aos sistemas IMT.

Um roteiro sobre as ações que devem ser tomadas para cumprir esses planos de alocação de recursos escassos.

O atraso na adoção de novas tecnologias como a 5G pode gerar consequências econômicas e sociais para o país, as quais têm sido apontadas em múltiplos relatórios técnicos enviados à Micitt, encarregada da alocação e concessão do Espectro Radioelétrico, necessários e indispensáveis ​​para a implantação da 5G.

A SUTEL, como instituição técnica, aguarda a instrução do Poder Executivo para iniciar o processo de preparação de um eventual leilão do Espectro Radioelétrico que permitirá às operadoras implementarem a tecnologia 5G.

Brecha Zero – Espera-se que a 5G tenha entre seus modelos de negócios a conectividade de diferentes dispositivos com a Internet das Coisas (IoT). Que medidas tomaram, ou planejam tomar, para aprimorar essas tecnologias?

Federico Chacón – As tecnologias 5G, de acordo com a definição da União Internacional de Telecomunicações, envolvem três aspectos principais da oferta de serviços:

Serviços de banda larga aprimorados que permitirão aos usuários terem acesso com altas velocidades na utilização de seus serviços móveis.

Serviços de missão crítica (alta latência) associados à produção industrial, emergências, saúde, entre outros,

Comunicações maciças máquina a máquina que envolvem o desenvolvimento massivo de aplicações do tipo IoT.

Para promover o alcance dessas três vertentes da 5G, a disponibilidade de espectro de rádio é necessária em diferentes bandas, que incluem aquelas abaixo de 1 GHz (bandas baixas), bandas médias de 1 GHz a 6 GHz e bandas altas acima de 6 GHz, os últimos incluem o denominado espectro de ondas milimétricas.

Quanto mais espectro estiver disponível nesta combinação de bandas e quanto mais esse espectro estiver em linha com as tendências mundiais, mais fácil será o acesso a economias de escala; portanto, haverá menos barreiras para desenvolver as aplicações necessárias.

A 5G não é um ideal, mas é uma realidade que já está em operação em vários países do mundo, proporcionando à população os benefícios associados ao aumento da produtividade diante desses novos avanços tecnológicos, para que a tomada de decisões seja urgente.

Brecha Zero – Nesse sentido, que tipo de mercado vertical em desenvolvimento na Costa Rica você considera mais apto a adotar tecnologias como a IoT?

Federico Chacón – As tecnologias IoT têm um grande número de aplicações, abrangendo múltiplos setores, desde a agricultura e pecuária até a manufatura técnica, de modo que os ecossistemas fomentados pela 5G apresentam uma série de oportunidades, e sua adoção depende da disponibilidade de tecnologia e da existência de empresas que demonstrem as vantagens de uma produção integrada com essas tecnologias.