As TICs provaram ser fundamentais na cadeia produtiva durante a pandemia

Entrevista com Héctor Marín, diretor sênior de Assuntos Governamentais da Qualcomm

 O desenrolar da pandemia Covid-19 forçou a América Latina a avançar a passos largos rumo à digitalização. Os diferentes atores do setor de telecomunicações intensificaram seus esforços para levar acesso ao maior número possível de pessoas, a fim de manter ativa sua estrutura produtiva.

Héctor Marín, diretor sênior de Assuntos Governamentais da Qualcomm

Sobre esse fato, o Brecha Zero conversou com Héctor Marín, diretor sênior de Assuntos Governamentais da Qualcomm. Graduado como Engenheiro Eletrônico e de Comunicações pelo Instituto Politécnico Nacional do México, ele ocupou diferentes cargos na Qualcomm desde agosto de 2001.

Brecha Zero – Qual a importância das TICs no enfrentamento da pandemia provocada pela COVID-19 na América Latina?

 Héctor Marín – Em primeiro lugar, obrigado pelo espaço e por poder conversar com todo o público do Brecha Zero. A pandemia atingiu o mundo inteiro, e particularmente os países de nossa região, trazendo muitas lições, muitas leituras. Uma delas é justamente como é que através das TIC conseguimos substituir tudo o que não se podia fazer no nosso dia a dia, como teletrabalho, compras online e, muito importante, educação, que talvez tenha sido uma das que tiveram impacto direto . Todos estamos habituados ao fato de a escola ser cara a cara, com uma sala de aula e um professor que nos dá a aula; agora foi substituída pela educação a distância, que sem dúvida representou e continua a representar muitos desafios para alunos, professores e famílias.

No entanto, mesmo com todos esses desafios, as TIC foram uma grande substituta que abrangeu desde o básico como assistir aulas, até tópicos um pouco mais sofisticados, como compras online. Tudo isso que até então não existia de forma tão ampla, fez uma grande diferença.

Essa mudança nas TIC estava por vir, a pandemia a acelerou. Eventualmente, as tecnologias iriam substituir muitas atividades, algumas necessariamente presenciais, mas a mudança viria em algum momento. Nesse sentido, estamos vivendo essa revolução.

Brecha Zero Nesse sentido, quais vantagens as tecnologias móveis apresentaram nesses mercados emergentes?

Héctor Marín – As tecnologias móveis apresentam duas vantagens para os países emergentes. Em primeiro lugar um contexto, os países mais desenvolvidos tiveram um impacto menor porque já contavam com uma grande infraestrutura de fibra com cobertura de 90% da população. Em nossos países, onde temos toda essa carência de infraestrutura, as tecnologias sem fio têm sido uma ótima maneira de alcançar e conectar os desconectados e isso trouxe muito valor para nossa região.

Chegar às áreas rurais apresenta muitos desafios: econômicos, modelo de negócios ou orografia (estudo das nuances do relevo). Apresentar essas propostas de fibra e cabo, são muito custosas. Chegar com propostas de satélite é extremamente caro. Segundo dados publicados pelo Ministério das Comunicações e Transportes do México, uma conexão via satélite pode custar 20 vezes mais que uma conexão terrestre. Com isso, temos que levar em consideração que se trata de uma zona rural com problemas econômicos, que não existe um plano de negócios para a chegada de um serviço cabeado,que não poderão pagar por um sistema de satélite com suas limitações de velocidade e custos elevados. E é aqui que as tecnologias IMT (International Mobile Telecommunications), sejam 4G ou 5G, fornecerão essa solução. Eles conseguiram reduzir essa exclusão digital e a maneira de fazer isso é por meio dessas grandes larguras de banda. Hoje, os clientes de sistemas de telefonia móvel esperam velocidades acima de 20 Mbps, é quase como o padrão, isso para sistemas comerciais oferecidos por satélites, é cerca de 2 a 4 vezes mais rápido, custando uma fração do preço.

Brecha Zero – Quanto aos setores da economia que aproveitaram essas tecnologias, quais o fizeram da melhor forma durante a pandemia?

Héctor Marín – O setor do comércio com as vendas online foi o  que mais aproveitou esta situação. Tiveram um crescimento exponencial nos últimos meses por motivos óbvios, foi uma ótima proposta para […] não sair de casa.

A educação também foi um setor que aproveitou de forma intensa as TIC. A oferta educacional foi realizada por meio de plataformas como Zoom, Google Meet, Microsoft Teams. Em outras palavras, todas as plataformas de videoconferência foram amplamente utilizadas durante este período de pandemia e continuarão a ser utilizadas nos próximos meses. Como será a educação no futuro? Me parece que vamos ter aulas presenciais uns dias, aulas online em outros, vamos começar a transformar as nossas vidas. Sem dúvida esse impulso é devido a essa flexibilidade oferecida pelas TIC.

Brecha Zero – Quanto às mudanças regulatórias do governo, quais foram as que melhor se adaptaram à pandemia para aumentar o acesso da população?

Héctor Marín – Na parte regulatória propriamente dita, não houve realmente um impulso para esse tipo de tecnologia. O que aconteceu em muitos países da região foi o fato de conversar com as provedoras de comunicação para que, através das plataformas já implantadas, pudessem  ser aproveitados os diferentes aspectos da vida que os cidadãos têm nos setores: comercial, educacional, etc. Os reguladores pediram às operadoras para que não cortassem os serviços. Que entendiam que além dos problemas de saúde, a pandemia trouxe outros problemas econômicos que representaram e ainda representam desafios para muitas famílias continuarem utilizando o serviço. Embora em alguns países essa medida fosse obrigatória.

Uma mudança regulatória, em termos de concessão ou preço ou coisa assim, a gente realmente não viu. Se houvesse a possibilidade de chegarmos a acordos de boa vontade, acordos em que houvesse empatia das empresas de telecomunicações para continuar oferecendo esses serviços diante da pandemia.

Brecha Zero – Quanto ao futuro, quais oportunidades as TICs apresentam para enfrentar a saída da crise e a recuperação das economias?

Héctor Marín – Todas as lições que tivemos em 2020, e as que aprenderemos em 2021, nos mostraram que as TICs são fundamentais para complementar os diferentes aspectos comerciais, econômicos, educacionais e de saúde. Poder ter acesso à informação, poder consultar diferentes fontes, saber onde compro um produto, onde adquiro tal serviço, a pandemia acelerou todas essas adoções.Justamente a introdução de novas tecnologias, como a 5G ou a WI-FI6, são as que vão fechar este círculo; permitindo o uso das TIC em todo este sentido.

Em toda a cadeia produtiva, as TICs têm se mostrado essenciais para dar continuidade ao desenvolvimento e muito mais em nossos países. Na América Latina, os sistemas de telefonia sem fio como o IMT vieram para substituir essa carência que tínhamos por muitos anos de fibra óptica ou mesmo links de micro-ondas ponto a ponto.

As tecnologias sem fio estão impulsionando a atividade econômica de várias maneiras, então achamos que estamos passando por um momento muito interessante nessa transição. Um tópico infeliz como a pandemia acelerou essa adoção e, sem dúvida, nos deixou muitas lições. As TICs nos mostraram uma maneira fenomenal de substituir tudo isso.