As TIC permitiram que o Paraguai melhorasse sua posição diante da pandemia de Covid-19

Entrevista com Miguel Martín, vice-ministro de TIC do Paraguai.

A chegada da pandemia de Covid-19 forçou muitos países a tomarem medidas drásticas para proteger a vida de seus habitantes. Nesse contexto, as tecnologias da informação e comunicação (TIC) ofereceram uma série de ferramentas para as administrações enfrentarem esse desafio.

Miguel Martín, vice-ministro de TIC do Paraguai

Sobre esse assunto, o Brecha Zero conversou com Miguel Martín, vice-ministro de TIC do Paraguai, que foi membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CONACYT) e secretário executivo do ministro da Secretaria Nacional de Tecnologias da Informação e Comunicação (SENATICS), além de contar com vasta experiência no setor privado. Advogado formado pela Universidad Nacional de Asunción, possui pós-graduação em Tecnologia da Informação e suas Aplicações, diploma de Estudos Avançados na área de Conhecimento “Ciência da Computação e Inteligência Artificial” da Universidad de las Palmas de Gran Canaria ( Espanha) e doutorado em Inovação Educacional pela Universidad de Almería (Espanha).

Brecha Zero: De que forma as TICs, especialmente as relacionadas à conectividade, ajudaram no enfrentamento da crise causada pela pandemia de Covid-19?

Miguel Martín: Tomamos como exemplo o uso das TIC como uma ferramenta para promover muitas soluções exatamente como foi feito ao redor do mundo. Obviamente, no Paraguai, temos grandes diferenças em infraestrutura e conectividade, mas sabíamos como adaptar isso à nossa realidade e vimos que algumas ferramentas específicas poderiam ser adotadas e que conseguiríamos gerar uma solução positiva.

As TICs são de fato ferramentas que qualquer país que as adotou conseguiu melhorar sua posição diante da pandemia. Em particular, no Paraguai, temos uma situação bastante desfavorável em infraestrutura e conectividade, mas também percorremos alguns caminhos pensando no uso das TIC. O que fizemos, por exemplo, foi pegar os aplicativos que vimos que obtiveram maior sucesso como o da Coréia do Sul e o de Taiwan (e os replicamos).

Brecha Zero: Quais foram as principais iniciativas realizadas pelo Ministério para enfrentar esta crise?

Miguel Martín: Implementamos várias iniciativas. Em princípio, uma que considero fundamental [consiste na criação de] 94 pontos de acesso grátis à Internet em todo o país. Embora pareça óbvio, deve-se considerar que estávamos confinados e em bairros mais vulneráveis, pessoas que não podiam sair (para trabalhar) começaram a vender pela Internet ou a usar esses meios para demandar serviços do Estado e, acima de tudo, para obter informação. Portanto, ter acesso à Internet por meio de nosso espaço em bairros vulneráveis, por exemplo, em Assunção e na Central, foi de grande valia para eles. Demos mais largura de banda e verificamos se a infraestrutura estava alinhada.

Trabalhamos com instituições como a Secretaria Anticorrupção para a criação de uma plataforma de prestação de contas de todas as compras públicas realizadas pelo Estado após a pandemia para deixarmos o mais transparente possível o dinheiro destinado aos gastos com a lei de emergência.

Nosso principal produto, que realmente nos ajudou, foi o aplicativo “Covid-19Py“. Foi uma das primeiras ferramentas que lançamos com coparticipação do Ministério da Saúde, que é o responsável pelo seu uso, responsável por coordenar a luta contra a pandemia. No Início, contava com: rastreamento de pacientes positivos, recebimento de informações, além de  informar a situação de saúde do paciente; Em seguida, foram agregadas funções como cronograma de testes e perguntas através de um chatbot sobre a saúde do paciente. Atualmente, é usado por 3.500 cidadãos.

Brecha Zero: Quais setores (saúde, educação, governo, agricultura, trabalho) melhor se adaptaram ao isolamento social usando as TIC?

Miguel Martín: O usuário final fez suas reivindicações com base em suas necessidades. Na área do governo eletrônico, por exemplo, o fato de os cidadãos poderem realizar seu trâmites e terem seus expedientes em arquivos digitalizados, entre outras  demandas que não existiam antes e que representam um grande desafio para o governo.

A pandemia potencializou a tramitação do marco jurídico, que trabalhou em sinergia com o Congresso Nacional para lançar a digitalização de procedimentos, teletrabalho, toda essa regulamentação, esse pacote está sendo tratado com muito mais celeridade hoje.

Brecha Zero: Que desafios tiveram que ser enfrentados pelo país para melhorar as condições de conectividade dos habitantes?

Miguel Martín: Temos um desafio muito importante como ministério: somos um país mediterrâneo e dependemos da conexão com cabos submarinos internacionais de backhaul para nos conectarmos. A saída (do backhaul internacional) é fundamental, porque, como país, dependemos da Internet oferecida pelo setor privado. O Estado depende da largura de banda que os provedores privados fornecem para conectar desde a escola pública até a sociedade em geral.

As políticas públicas são construídas de acordo com a implantação dessa infraestrutura, é por isso que buscamos uma saída do backhaul internacional. Quando tivermos isso, teremos a necessidade de conectá-lo à rede nacional de fibra ótica; será uma rede estatal que fornecerá aos ISPs de todo o país a possibilidade de conexão, conectar escolas, hospitais,  fornecer largura de banda e soluções robustas de conectividade. São desafios com os quais estamos trabalhando e devemos concluir ainda neste semestre.

Brecha Zero: Qual a importância das tecnologias móveis em garantir a conectividade em diferentes setores?

Miguel Martín: Nós, como país, temos um alto grau de acesso à banda larga móvel. Temos bons níveis de acesso a smartphones, a acessibilidade continua sendo um desafio, pois ainda não são baratos o suficiente.

Os pontos de acesso gratuito à Internet que criamos nos fornecem informações sobre acesso, um fato interessante é que a maioria das pessoas faz isso por meio de seus smartphones, obviamente é um recurso em que temos que continuar investindo e precisamos trabalhar em conjunto com as empresas de telecomunicações.

Brecha Zero: Que lições você pode mencionar que a crise causada pela pandemia deixou até agora?

O mais importante é saber como adaptar a experiência internacional à sua própria realidade. Nunca aplique uma solução que possa ter sido bem-sucedida em outro país, mas que não possa ser adaptada (a sua realidade). E também (é preciso) ter a capacidade de trabalhar interinstitucionalmente, como um ministério, sendo um criador de alternativas ou criando soluções tecnológicas para outras instituições do Estado, que são os que brilham com nossas ferramentas.