As TIC foram fundamentais para atravessar o processo de pandemia

Entrevista com Alejandro Navarrete Torres, Titular da Unidade de Espectro Radioelétrico do Instituto Federal das Telecomunicações (IFT) do México. Parte I

Os diversos países da América Latina fizeram uso das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) para mitigar os problemas socioeconômicos causados pela pandemia do Covid-19. Desde a teleducação, até o comércio eletrônico ou o teletrabalho, foi necessário colocar algumas alternativas em prática para cada um dos mercados da região.

Alejandro Navarrete Torres, Titular da Unidade de Espectro Radioelétrico do IFT do México

Sobre estes temas, o Brecha Zero conversou com Alejandro Navarrete Torres, que desde 2014 é titular da Unidade de Espectro Radioeléctrico IFT do México, instituição na qual trabalha em diferentes cargos desde 2004. Formado em engenharia eletrônica e de comunicações, pela Universidade Iberoamericana na Cidade do México, conta com um mestrado em ciências com especialização em comunicações e processamento de sinais do Rensselaer Polytechnic Institute (RPI) em Troy, NY, nos Estados Unidos.

Brecha Zero – Quanto as TIC ajudaram a economia mexicana a superar as complicações associadas à pandemia?

Alejandro Navarrete Torres – As TIC têm se demonstrado como fundamentais, simplesmente, no que vivemos quanto à tele educação e o teletrabalho, que,  embora não tenha permeado todos os setores laborais, industriais e educativos, permitiu em grande medida o funcionamento e a operação fundamental da sociedade em seu conjunto. 

De alguma forma, as escolas puderam continuar trabalhando e oferecendo aulas às crianças devido ao formato  on-line. Não seria possível manter as aulas em questão sem contar com redes que fossem suficientemente fortes para prover esses serviços. Aqui, é importante notar que isto foi obtido sem que houvesse um planejamento com antecedência, da mesma maneira as redes foram colocadas em uma situação delicada.

As redes foram postas à prova no México do final de 2019 a meados de 2020, havendo um crescimento superior a 25% de conexão das redes fixas. Isto não se deve a outro motivo a não ser à necessidade das pessoas de se comunicar, seja para questões educativas ou profissionais.  

Isto teve um impacto muito importante, pois demonstrou que, sim, é possível trabalhar à distância. Porque havia uma rejeição, uma resistência ao famoso trabalho online com o argumento de que as pessoas não trabalhariam, mas se demonstrou que, em termos gerais, se estiver bem organizado, a iniciativa tem excelentes resultados. Nós aqui no instituto permanecemos online, não retornamos a um sistema 100% presencial, trabalhamos majoritariamente à distância, com bons resultados. Há uma conciliação muito boa entre a vida pessoal e a profissional, há menos tempo perdido nos deslocamentos, menos contaminação e gasta-se menos combustível ou dinheiro em transporte. Então, as TIC têm se mostrado indispensáveis na sociedade moderna, especialmente diante de eventos desta natureza.

Inclusive, uma coisa que não estamos levando em consideração é que as empresas e muitas escolas de diversos sistemas educativos adotaram uma infraestrutura que já têm pronta. Quer dizer que, diante de qualquer eventualidade, não é preciso fazer nada mais do que dizer que o próximo encontro não é presencial, todos vão para suas casas, não é preciso outra reestruturação, mas simplesmente reativar algo que já está pronto. 

Situações como esta nos deixam um grande ensinamento: primeiro, que é possível e, segundo, como pode ser feito. O que deve ser feito, quais situações devem ser evitadas, para que esta experiência possa ser proveitosa tanto na parte educativa, como na parte profissional. E, também, outra parte que não podemos deixar de lado, que foi importante durante a pandemia, é a comercial.

Houve muitos estabelecimentos comerciais que não tinham uma oferta digital, era preciso ir comprar as coisas obrigatoriamente na loja. Eles se viram obrigados, em um tempo recorde, a abrir uma plataforma online ou a modernizá-la, caso já tivessem, pois era muito precária. Isso aumentou não só as vendas, mas também a diversidade de produtos e serviços que podemos adquirir através da internet, sem ter que nos deslocar a uma loja comercial. Tudo isso evidencia com toda a clareza a importância fundamental que estas tecnologias têm na sociedade moderna.

Brecha Zero – Quanto as TIC podem ajudar, em especial os serviços de telecomunicações, para enfrentar o processo de pós-pandemia?

Alejandro Navarrete Torres – Justamente, algo que tem acontecido é que há novas formas de entretenimento que foram proporcionadas pela pandemia, e , agora, no novo normal, temos que ver como utilizar estas tecnologias para tornar mais eficientes vários processos. Creio que todos nos demos conta de que na hora que entramos no isolamento, o trânsito de pessoas baixou muitíssimo, e, no momento que fomos voltando, passa a ter circulação novamente, o que aumenta a contaminação. Essa é outra aprendizagem que precisamos nos atentar, que se queremos regressar temos que ver como fazer o uso dessas tecnologias para tornar mais eficiente o transporte ou os processos de produção.

Em particular com o advento das tecnologias 5G, está todo este assunto de automação de processos agroindustriais. Tanto para a agricultura, a pecuária, a pesca, como para questões de automação de processos, e, mais adiante, também os veículos autônomos. Todas estas coisas que pareciam ficção científica, na realidade já estão ocorrendo. Como a mineração, onde o minerador está fora da mina operando com um simulador como se estivesse dentro, sem colocar em risco sua segurança, nem a de outros trabalhadores. 

Outra questão importante na pós-pandemia que devemos levar em conta é como fazer um melhor uso destas tecnologias para encarar o regresso à cotidianidade e às ruas da melhor forma. E aí está a automação de processos, as cidades inteligentes que certamente vão nos ajudar a ter uma vida muito mais ordenada e prática, com menos contaminação e mais responsabilidade no uso de recursos. Essas são as oportunidades que estas tecnologias nos dão daqui em diante. 

Brecha Zero – Quais setores você considera que saíram mais fortalecidos no uso das TIC após a pandemia?

Alejandro Navarrete Torres – Um que foi muito evidente foi o comércio eletrônico. É um setor que já vinha crescendo bem, mas o desponte que teve durante a pandemia foi exponencial, sendo um dos setores que mais se beneficiou durante a pandemia. Em seguida , vem a parte de entretenimento. No momento em que estávamos em isolamento e não podíamos ir ao cinema, o entretenimento foi bastante importante.

E outra parte que existia, mas que teve que se revolucionar muito rápido, foi a das plataformas de comunicação. Existiam plataformas mais modestas, mais limitadas e em um tempo recorde, em poucos meses, foram desenvolvidas novas versões mais sofisticadas em relação à segurança e às funcionalidades. E, portanto, em acessos. Porque as pessoas começaram a usar muito mais plataformas mais sofisticadas de comunicação.

E por fim, mas não menos importante, outro setor que deveria ter se beneficiado, e ,na minha perspectiva, não o fez tanto foi o financeiro. A inclusão financeira através das TIC é uma das grandes pendências existentes, ao menos em muitos países da América Latina. Ela já está sendo implementada, e está presente em vários países da região, porém há um grande abismo em muitos deles, dessa forma essa é uma questão crucial a ser resolvida, independentemente das diferenças de conectividade.