As tecnologias sem fio desempenham um papel chave no desenvolvimento da Telessaúde

A inclusão de Tecnologias da Informação e Comunicação no setor da telessaúde conta com vários exemplos em toda a América Latina. A Telemedicina representa um papel importante na vida diária dos latino-americanos. Desde a incorporação de planos nacionais até iniciativas privadas destinadas a doenças especificas.

Paralelamente, a Organização Pan-americana de Saúde (PAHO na sigla em inglês) é a organização internacional especializada em saúde pública nas Américas, composta por um total de 44 países e territórios. Com sede em Washington DC, a sua tarefa é trabalhar com os países da região para melhorar e proteger a saúde da população.

CBTMS UERJSobre a evolução da Telessaúde nas Américas, o Brecha Zero conversou com David Novillo Ortiz, Assessor, da Gestão de Conhecimento e Aprendizagem Organizacional do Centro de coordenação regional para o programa de cibersaúde da OMS, que assessora o desenvolvimento da capacidade em mais de 45 países e territórios da região das Américas, com temas relacionados com eSaúde (saúde digital), telemedicina, mSaúde, registros eletrônicos de saúde, sistemas de informação em saúde, padrões e interoperabilidade, e mais.

Novillo Ortiz obteve seu doutorado na Universidade Carlos III de Madri (UC3M), sobre temas de redes sociais e saúde pública. Além de completar um programa certificado em temas de liderança de estratégicas de tecnologias da informação no cidadão da saúde pela faculdade de saúde pública da Universidade de Harvard, recebeu um diploma em promoção da saúde pela Universidade Pública de Navarra, entre outros prêmios.

Brecha Zero: Qual importância possui as TIC no momento de auxiliar a assistência ao setor de saúde?

Novillo Ortiz: As TIC estão entre as aliadas mais importantes para o setor de saúde. Em um modelo de atenção baseado em pessoas, ferramentas como telessaúde, história clínica eletrônica, mSaúde, uso de dados massivos, big data e a aplicação de redes sociais na saúde pública podem ajudar para tomar melhores decisões com uma maior qualidade de vida aos pacientes, podendo levar saúde à população de lugares remotos e reduzir os custos tanto dos pacientes como dos países.

Brecha Zero: Quanto relevantes são as TIC dentro da face preventiva da Saúde?

Novillo Ortiz: Na atualidade, já existe um grande número de aplicativos que trabalham na prevenção da saúde. Hoje em dia é muito fácil disponibilizar de ferramentas que ajudam a monitorar nosso estado físico, assim como levar um ritmo de vida saudável que ajude na prevenção de doenças. Todavia são muitos desafios pendentes.   Talvez em um futuro não muito distante, as TIC assumirão um papel maior de protagonistas para tornarem-se a chave para trabalhar com precisão em medicina. Iniciativas como “Precision Medicine Initiative” nos Estados Unidos, com um foco no tratamento e prevenção de doenças, considerando a genética, o meio ambiente e o estudo de vida de cada pessoa, ajudarão a desenvolver e conhecer um novo conceito de medicina preventiva.

A OPS tem desenvolvido um aplicativo (calculadora de risco cardiovascular) que permite às pessoas que a baixam estimar sua probabilidade de padecer de uma doença cardiovascular e adotar as medidas necessárias para reduzir este risco.

Brecha Zero: Como influenciam as TIC na atenção de tratamento de Saúde?

Novillo Ortiz: Já existem alguns estudos que mostram que o uso das TIC podem melhorar a adesão à tratamentos. Por exemplo, no caso de uma intervenção para redução de peso, um estudo mostrou que a introdução de uma comunidade virtual não aumentou a atividade física, mas reduziu a taxa de abandono do programa (*). Assim como este estudo, espera-se que nos próximos anos novos estudos e análises que apresentam o impacto positivo das TIC no setor da saúde sejam publicados.

Brecha Zero: Quais são os desafios para uma maior incorporação das TIC no setor de Saúde na América Latina?

Novillo Ortiz: Existem muitos desafios neste momento, mas se tivermos que destacar somente três, seriam:

  • Primeiro a geração de evidencias científicas que ajudam os tomadores de decisão em saúde a saber onde realizam o melhor investimento econômico com a total segurança. Não devemos esquecer que os funcionários públicos são responsáveis pelas suas ações e como se executam os fundos públicos.
  • O outro seria o desenvolvimento e constituição de modelos de governança em países que acompanham tanto os investimentos como a execução dos projetos. TIC no setor de saúde. Um comitê nacional constituído por diferentes atores governamentais – não somente do setor de saúde – pode apoiar que um projeto TIC Saúde, que incialmente planeja ser executado em um período menos que 5 anos, conta com a sustentabilidade suficiente para assegurar a continuidade e o êxito. Especificamente, a respeito do estabelecimento de modelos de governança, a OPS, através de sua estratégia e Plano de Ação de eSaúde (Documento oficial CD51/13) que determina que os países possam contar com estruturas.
  • E por sim o terceiro desafio importante é trabalhar o currículo dos profissionais de saúde; médicos; enfermeiras; entre outros. Se falarmos constantemente de TIC mas os planos acadêmicos não se atualizarem com base nas necessidades atuais, corremos o risco de contarmos com profissionais de saúde que não estarão preparados profissionalmente para os desafios e mudanças que o setor de saúde tem neste momento.

Brecha Zero: Quais iniciativas desenvolveu a PAHO para apoiar o desenvolvimento da Telessaúde na América Latina?

Novillo Ortiz: O apoio da OPS em matéria de Telessaúde tem se dividido principalmente em dois tipos de ação: em primeiro lugar, temos apoiado os estados membros que não tem requerido o desenvolvimento de suas próprias leis nesta disciplina, assim como temos facilitado o intercâmbio de experiências entre países. Por exemplo, recentemente três países da Alianza del Pacífico – Colômbia, México e Peru –  concordaram em trabalhar com um conjunto mínimo de indicadores de Telessaúde para obter dados comparativos entre países.

Por sua vez, a OPS tem trabalhado fortemente no desenvolvimento de guias e alinhamentos que orientem os países a dar início aos seus projetos de Telessaúde. São exemplos deste trabalhos as publicações: “Marco de implementación de un servicio de telemedicina” e “Definición de indicadores para proyectos de telemedicina como herramienta para la reducción de las inequidades en salud: Documento de análisis y resultados de una comunidad de prácticas”.

Brecha Zero: Quais são as medidas que deve considerar um governo para potencializar o desenvolvimento de Telessaúde?

Novillo Ortiz: A primeira medida, poderia ser conhecer quais são as necessidades de saúde do país, especificamente as relacionadas com recursos humanos em saúde. Qualquer tipo de intervenção mediante o uso das TIC tem que estar bem justificada e gerir-se por necessidades do setor de saúde e não por uma questão de introduzir as TIC porque os demais o fazem. Os investimentos em TIC sempre são elevados e deve-se levar em consideração que o financiamento poderá parar de acordo com o compromisso das autoridades. Então a importância de contar com evidência cientifica que justifique realmente este tipo de investimento é, sem dúvida, necessário. Por outro lado, é útil contar com um comitê nacional que se encarregue de supervisionar e avaliar ações de Telessaúde que os países possuem.

Brecha Zero: Qual a importância possui a conectividade e as tecnologias sem fio no desenvolvimento de Telessaúde?

Novillo Ortiz: Tanto a conectividade como as tecnologias sem fio formam um papel fundamental no desenvolvimento de Telessaúde. Precisamente, a falta de infraestrutura necessária foi uma das principais barreiras identificadas pelos países na hora de implementar projetos de eSaúde na pesquisa global de eSaúde publicada pela Organização Mundial da Saúde. Sem a infraestrutura necessária, as intervenções de eSaúde serão difíceis de implementar.

(*) Referencia: Richardson CR, Buis LR, Janney AW, Goodrich DE, Sen A, Hess ML, et al. An online community improves adherence in an internet-mediated walking program. Part 1: results of a randomized controlled trial. J Med Internet Res. 2010;12(4):e71.

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