As tecnologias móveis permitiram que as pessoas mantivessem suas atividades

Entrevista a Carlos Huamán,CEO da DN Consultores

O desenrolar da pandemia de Covid-19 forçou a sociedade a acelerar os processos de digitalização para manter a produtividade e os padrões de vida, ao mesmo tempo em que mantinham medidas de saúde associadas ao isolamento social. Neste cenário, os serviços móveis acabaram sendo uma importante ferramenta para os cidadãos avançarem para a digitalização.

Carlos Huamán,CEO da DN Consultores

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com Carlos Huamán, analista de negócios e políticas públicas em telecomunicações e tecnologias de informação e comunicação (TIC). Economista com formação na Universidad del Pacífico (Peru), possui mestrado em Finanças pela London School of Economics (LSE, Reino Unido) e atua como CEO da DN Consultores, especialista no mercado de telecomunicações peruano.

Brecha Zero – Qual a importância do acesso às TIC para os países que tiveram que enfrentar a pandemia provocada pela Covid-19?

Carlos Huamán – As TICs são extremamente importantes. Desde o básico, como o serviço de Internet, que se tornou um produto essencial para desenvolver uma série de atividades, transformar as coisas e para manter o ambiente de negócios. Para as pessoas, para evitar o menor dano possível em seus níveis de bem-estar. Esta nova situação naturalmente veio para ficar.

Não somos especialistas em saúde, mas podemos prever que estamos diante de uma situação que não tem perspectiva de acabar. Essa situação de saúde levou a mudanças de hábitos que fazem da Internet um produto básico. Está sendo um indutor de uma aceleração da famosa transformação digital, que até o surgimento desta pandemia era, com exceções no setor, uma palavra exótica que o cidadão comum não vivenciava no seu dia a dia. Todos nós estamos experimentando isso agora e, como acontece com toda transformação, é doloroso. Muitos estão sendo espancados se adaptando a essa transformação.

Essa dor que os cidadãos percebem nessa adaptação, é uma manifestação de que estamos vivendo a transformação em nossa própria carne. Que acaba ficando parecido com o que se ouviu no ambiente corporativo, agora estamos todos vivenciando e isso denota que a transformação digital está aqui, estamos vivendo. E nesse cenário, é claro, os serviços de TIC são um fator muito importante para que isso se torne uma realidade.

Brecha Zero – Quais vantagens em termos de conectividade as tecnologias móveis apresentam para os países emergentes?

Carlos Huamán – Vemos que permitiram a muitas pessoas o acesso a uma série de serviços. Que pudessem dar continuidade e a manter as atividades pessoais, familiares ou profissionais, de uma nova maneira, acessando estes serviços. Também na atividade empresarial, contribuindo para a transformação de muitas PMEs, que não só enxergam uma nova forma de vender, mas também tem um impacto positivo em toda sua cadeia produtiva.

Vale ressaltar que os serviços móveis são um elemento importante de toda a sociedade. Quando observamos do ponto de vista econômico. A contribuição também deve ser entendida no contexto de como se enquadram no bem-estar de indivíduos e famílias. E como se encaixam no aparato produtivo. A transformação implica que o que antes era um elemento estranho passou a ser central na vida das pessoas e na estrutura produtiva das empresas.

Brecha Zero – Quais setores da economia ou da sociedade você entende que usaram melhor  o acesso à banda larga em tempos de pandemia?

Carlos Huamán – Quando falamos dos setores e suas unidades operacionais, que são as empresas, podemos classificá-los em alguns segmentos, por porte e por atividade. As empresas de maior porte têm um peso maior que as PMEs, que se estendem por setores extrativistas às prestadoras de serviço.

Os setores corporativos já vêm trabalhando nessas questões, avançando com a transformação digital, e o que essa pandemia trouxe foi a aceleração desses processos para que sejam mais contundentes. No ambiente corporativo eles já vinham trabalhando muito para acelerar isso.

E em termos setoriais, em alguns países da América Latina há uma grande presença de setores extrativistas. Seja mineração, petróleo, gás ou agronegócio. Este último já percorreu um longo caminho, não apenas para se adaptar à pandemia, mas antes, para ganhar eficiência. Porque o que acontece com o setor extrativista é que muitas vezes os modelos de negócios são baseados em commodities, então a lucratividade está mais associada a como eu gerencio melhor os custos. E a transformação digital geralmente oferece, entre outras coisas, eficiência de custos. Os extrativistas pertencem a um setor que está acelerando essa transformação digital. E são eles os primeiros que estão esperando a 5G chegar aqui na região para aprofundar essa transformação.

Gostaria de acrescentar que há uma presença muito grande de PMEs em toda a região. Nos setores de PMEs onde existe um alto grau de profissionalização, vemos que elas apresentam uma capacidade de transformação muito menor do que as PMEs com menor grau de profissionalização.

Eu gostaria de enfatizar que na América Latina existe a imprecisão do termo PME, porque muitas vezes está associado ao conceito de sobrevivência. E não é assim, existe um caldeirão muito grande de alternativas nas PMEs. Existem empresas que são PME em termos de dimensão, mas têm um elevado grau de solvência profissional e se adaptam à transformação. E não só isso, além de manter a empresa rentável eles estão também crescendo muito.

O desenvolvimento digital na América Latina entre os países é heterogêneo. Países onde a cultura digital ainda é menos madura, essa falta de maturidade pode até levar a decisões erradas de políticas públicas. Quero dizer que diante desta crise econômica vimos a criação de programas de resgate dirigidos para pequenas empresas para lhes dar uma fonte de financiamento com empréstimos subsidiados para que, quando o cenário voltar ao normal, possa reerguê-la. Isso pode ser um erro muito grave, porque pressupõe que as PMEs vão voltar a vender o mesmo que vendiam antes.

Então esse viés de financiamento até que a normalidade se restabeleça, pode ser um equívoco ao induzir as PMEs a uma expectativa equivocada, de que depois de um ano venderá novamente o mesmo que vendia antes. Quanto o caminho mais eficiente teria sido fornecer  outras ferramentas, que seguramente inclui financiamento, mas também, formação, recursos de gestão, tecnologia, acesso à tecnologia, para que se transformem e para que descubram a forma que sua transformação vai tomar.