América Latina deve investir na formação do uso das TIC na Educação

Entrevista com Miguel Gallegos. Diretor do Programa de Alfabetização Digital da Rede Educacional Mundial. Parte I

 A incorporação das Tecnologias de Informação e da Comunicação (TIC) para o setor de educação tem várias arestas. Em geral, quando são os Estados que realizam essas iniciativas, são adotadas metodologias para a entrega de dispositivos a alunos, professores e estabelecimentos; no entanto, um trabalho integral é importante quando se procura esses objetivos.

A Rede Mundial de Educação (REDEM) trabalha com este tipo de implementação, uma organização que busca elevar o nível educacional de alunos e professores através das TIC. Funciona como uma plataforma para distribuir essas ferramentas, bem como metodologias de ensino, onde professores e escolas são retroalimentados por experiências diferentes.

Miguel Ángel Gallegos Cárdenas. Diretor do Programa de Alfabetização Digital da REDEM World Education Network

Como diretor do Programa de Alfabetização Digital da REDEM World Education Network, Miguel Ángel Gallegos Cárdenas tem conhecimento de diferentes experiências de implementação de TIC no setor de educação. Gallegos é Bacharel em Administração, Mestre em Desenvolvimento e Planejamento da Educação, e atualmente aluno do Doutorado em Ciências Sociais da Universidade Autônoma Metropolitana.

Mostrando um grande interesse na transformação cultural que a sociedade está vivendo em torno da era digital, procura contribuir em iniciativas que incentivam a construção de uma sociedade melhor. Em entrevista, Gallego expôs suas ideias ao Brecha Zero:

 Brecha Zero: Qual a importância da incorporação das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no sistema de ensino?

Miguel Gallegos: Desde a origem das civilizações antigas, os seres humanos tinham a necessidade de se ajudar com várias ferramentas de contagem. Esses instrumentos tecnológicos foram evoluindo, passando por diferentes momentos, materiais e costumes. A invenção da máquina analítica de Charles Babbage (1833) e a Máquina de Alan Turing (1936) daria o padrão para chegar ao que hoje conhecemos como um computador. Uma ferramenta tecnológica que atualmente não serve apenas ao ser humano nas questões de contagem e computação, mas vai muito além dessas origens.

Tecnologia que o homem criou por meio de sua evolução histórica, serviu para facilitar a sua permanência no planeta Terra. Todas estas invenções geradas foram destinadas a contribuir para o próprio desenvolvimento humano, social, produtivo, e até para ajudar a ter uma vida mais agradável, confortável, prática e feliz.

Assim, chegamos ao presente, onde homens e mulheres de todas as idades, em grande parte do mundo, utilizam as chamadas TIC. Termo que foi construído para generalizar o grande número de tecnologias existentes hoje e que podemos considerar gerado a partir do telégrafo (1836), do telefone (1876), do rádio (1920), da televisão (1926), do primeiro computador IBM (1944), do transistor (1948), do circuito integrado (1957), do conceito de computação (1957), da Internet (1969), do microprocessador (1971), das linguagens de programação, dos diversos softwares e hardwares, do laptop (1982), do telefone móvel (1983), da criação dos protocolos HTTP e HTML (1990), do WWW (1991), da conectividade sem fio Wi-Fi (2000), do tablet digital (2001) e finalmente, de muitas tecnologias sofisticadas cada vez mais avançadas e digitais.

Novas formas de informação, comunicação e transmissão surgiriam para estar a serviço dos seres humanos. Assim, as chamadas TIC seriam colocadas a serviço das sociedades em todo o mundo. Podemos encontrar seu uso em vários campos e disciplinas sociais. Embora, às vezes, eles sejam usados ​​apenas para comunicação, outros para se informar e muito mais para se divertirem; mas também trabalham para produzir, comercializar, inovar, projetar e até ensinar.

Ensinar é sinônimo de educação, o que significa pensar na possibilidade de utilizar as TIC no campo da educação, isto é, nos sistemas educacionais. O que vem acontecendo há vários anos – poderíamos considerar -, desde a década de 40, quando algumas tecnologias foram usadas, como o rádio e até a mídia televisiva – só para citar algumas – para ministrar alguns cursos, até os nossos tempos em que o desenvolvimento da ciência da computação, evoluiu e unificou vários elementos que permitiriam o uso de computadores em alguns sistemas educacionais.

Assim, novas tecnologias de informação e comunicação (NTICs) estariam presentes para serem utilizadas nas escolas e nos sistemas de ensino.

Um caminho que não é fácil, com mais de um século de evolução permanente, cada vez mais acelerado, inovador e influente na espécie humana. As TICs atingiram um nível de importância e influência em todos os setores da sociedade, na medida em que atualmente as organizações internacionais sugerem aos governos em todo o mundo que usem as TICs em seus processos educacionais.

Pessoas de todo o mundo estão conectadas – conectadas e interligadas digitalmente – mais do que nunca. Tal é a sua influência, que hoje a educação é ministrada online, de forma assíncrona, sem estar presente em um só lugar, utilizando diferentes plataformas, vídeos, áudios, multimídia, aplicativos, enfim, hoje você pode ensinar ou aprender mais, aproveitando das TIC que estão presentes em qualquer escola.

Estamos em um momento histórico para o futuro da educação presencial, da educação com uso, e sem o uso das TIC.

Embora devemos lembrar que, em qualquer sistema educacional, um conjunto de diferentes elementos está interagindo, como normativo, organizacional, operativo e atualmente tecnológico, no qual as TICs entram em ação. Ou seja, as TICs são apenas mais um fator no mundo da educação, tão grande ou tão pequeno quanto o sistema queira considerar, o que pode até beneficiar ou afetar os próprios sistemas educacionais, de acordo com a inter-relação que eles têm com os outros fatores da educação.

Brecha Zero: Como você acha que a inclusão das TIC na educação pode ajudar a reduzir o Dividendo Digital?

Miguel Gallegos: Como mencionei, as TIC podem tanto beneficiar quanto prejudicar os processos educacionais, tudo dependerá do relacionamento que é previamente planejado para ser incluído nos sistemas educacionais. Não é suficiente incluir as TIC na educação. Devemos dar forma e significado a essa inclusão, ou seja, devemos planejar, treinar, dirigir, adaptar, avaliar, preparar o campo educacional em que se pretende incorporar.

Com a inovação do laptop e, acima de tudo, do tablet digital no início do século XXI, muitos países do mundo começaram a implementar programas para o fornecimento de dispositivos móveis nas escolas. O primeiro deles foi o Uruguai, em 2007, com o plano Ceibal e, posteriormente, muitas nações – especialmente as latino-americanas – seguiram seus passos. Mas a triste realidade foi ver muitos desses programas fracassarem. Sem rumo e sem direção.

Prova disso é o relatório divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2015, no qual, através de um estudo aplicado pela mesma agência em sessenta e três países, denominado “Estudantes, Informática e Aprendizagem: fazendo a conexão “, concluíram que, apesar do uso das TIC, não houve melhoria no desempenho acadêmico dos alunos, pelo menos até essa data.

Devemos ficar atentos a novos relatórios mais recentes e considerar as variáveis ​​analisadas no momento.

Assim, o fosso digital é um termo que é comumente relacionado à diferença entre ter acesso às TIC ou não. É uma questão muito importante, razão pela qual está sendo abordada nas comunidades industriais, acadêmicas, educacionais e especialmente governamentais, onde o principal é não ficar de fora do acesso às tecnologias digitais que evoluem mais rapidamente a cada dia.

Como educador, me atentaria mais à análise do uso que é dado aos dispositivos móveis do que no acesso a eles.

Até a questão do acesso é algo que não deveria mais competir tanto com os governos, no sentido de adoção. Hoje em dia, uma alta porcentagem de habitantes em cada país pode obter acesso às TICs por conta própria, principalmente com foco em dispositivos móveis.

Os custos diminuíram, o acesso pode ser deixado de lado, o que realmente preocupa são os usos, com os quais eu gostaria de me referir à importância do treinamento, atualização e formação no uso de tecnologia digital, tanto para professores quanto para os estudantes. É nesse sentido que os governos da América Latina devem investir.

Brecha Zero: Quais desafios a América Latina enfrenta em relação à inclusão das TIC na educação?

Miguel Gallegos: Antes de mais nada, eu pensaria que a América Latina é um consumidor de tecnologia. Acho que é isso que culturalmente continuamos a pensar, a consumir. Raramente ouvimos o termo, inovamos, criamos ou geramos tecnologia. Acho que esse deveria ser o desafio, que em nosso continente deveríamos pensar em dar esse salto e seguir em frente para desenvolver modelos de geração de TIC.

Mas enquanto isso não acontece, certamente devemos continuar a usar a tecnologia asiática, devemos continuar a incluí-la.

A inclusão das TIC na educação dos países é uma questão que corresponde aos governos através de seus ministérios ou secretarias de educação. É um tema de política pública de inclusão na educação, de incorporação à agenda governamental. Como sabemos, as políticas têm um ciclo de vida: identificação, desenho, seleção, implementação e avaliação.

Por isso, acredito que, com a experiência destes primeiros anos do século no campo da tecnologia educacional, os governos latino-americanos devem gerar novas políticas inclusivas que não se limitam a equipar e fornecer acesso às TIC. O importante será a conscientização, evocando Paulo Freire, dos usos educacionais dados às TIC, institucional e individualmente.

Brecha Zero: Quais trabalhos o REDEM realiza para aumentar a adoção de TIC no setor de educação?

Miguel Gallegos: Em primeiro lugar, mencionar que a REDEM é uma organização internacional que visa elevar o nível educacional de alunos e professores através do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação, por meio de suas plataformas de radiodifusão digital; que se alimentam dos compartilhamentos feitos por professores, acadêmicos, pesquisadores, centros e instituições de ensino nos diferentes níveis e modalidades, distribuído na América Latina, Espanha, Angola e no continente africano.

Uma das linhas mais importantes da REDEM neste sentido, é o programa de alfabetização digital, em que tenho o prazer de participar com mais de uma centena de especialistas em tecnologia educacional distribuídos em mais de vinte países. Todos eles, participantes voluntários que não têm interesse maior do que disseminar as atividades realizadas em seus vários países e em suas diferentes áreas e instituições em relação ao uso das TIC na educação.

Assim, a dinâmica de partilha de experiências em nosso portal eletrônico www.alfabetizaciondigital.redem.org determina um padrão nos últimos dois anos, para aprender uns com os outros, para as instituições de ensino a que pertencemos aprender novas formas de trabalhar com as TIC.

Durante o meu mandato no programa alfabetização digital, lançamos o projeto embaixadores digitais que participam voluntariamente em nosso projeto de bom grado divulgando as atividades que fazem em seus ambientes de trabalho e acadêmicos. Nossa plataforma foi uma referência para muitos professores no ano passado.

A REDEM é uma organização autogerida, autofinanciada e independente que contribui e apoia livremente iniciativas de caráter educacional e cultural na América Latina, e em qualquer parte do mundo onde as condições de sinergia são fornecidas.

Devo confessar que a humilde contribuição que o REDEM tem para a sociedade não tem sido fácil, a equipe que participa faz isso voluntariamente, os recursos não são gerenciados e, portanto, os programas que são gerados são com recursos próprios, com grande esforço e com o simples desejo de contribuir para um mundo melhor.

Por outro lado, no entendimento de que a formação e atualização de professores é de grande interesse para nós, da REDEM, existem outras linhas de ação para oferecer cursos e desenvolvimento em TIC, a fim de realizar nosso sonho de unir os profissionais de educação do mundo em uma mesma plataforma colaborativa, livre e aberta em que os usuários dessas tecnologias estão cada vez mais conscientes do sentido educacional que pode ser dado às TIC do presente e do futuro. Estas são parte das estratégias que realizamos para contribuir para uma melhor adoção de tecnologias no setor educacional.

Por fim, mencione que, a partir da REDEM, foi possível construir uma rede de professores espalhados em diferentes partes do mundo, que mantém a comunicação online e que compartilham experiências, materiais digitais e sonhos. Da mesma forma, quando as circunstâncias permitem, nos encontramos em um congresso, em um evento educacional ou em uma das instituições de ensino às quais pertencemos, seja no país em que vivemos ou em outro país que tenhamos a oportunidade de visitar.

A REDEM é uma comunidade para fraternizar e demonstrar solidariedade pelo melhor uso educacional das Tecnologias de Informação e Comunicação.

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