América Latina debate políticas públicas para diminuir os gaps de gênero digital

As discussões sobre a importância de reduzir o gap de gênero, bem como de criar políticas mais inclusivas, ganharam força nos últimos cinco anos na América Latina. A região vive uma fase de consenso sobre o aumento da presença das mulheres nos cargos de decisão e de poder na grande maioria dos setores, neste quadro as tecnologias de informação e comunicação (TIC) não são exceção.

Esses tópicos foram discutidos durante o “Painel Mulheres ICT Latam. Conectividade e exclusão digital: desafios para a inclusão na América Latina” que foi realizado de forma virtual na quarta-feira, 10 de novembro de 2021. O encontro organizado em conjunto com Mujeres TIC de Colombia e 5G Americas contou com a participação de diversos especialistas da região: Ana Karina Quessep do Mujeres TIC Colombia, Carla Cavalcante Koike do Meninas.comp Brasil, Elena Estavillo do CONECTADAS México e Marina Rosso Siverino da Chicas TIC LATAM da Argentina. Contou também com a apresentação de Paola Restrepo, presidente executiva da Mujeres TIC, e da moderação de José Otero, vice-presidente da 5G Americas para a América Latina e Caribe.

Em primeiro lugar, foi debatida a situação do gap de gênero digital na região. Estavillo, que foi comissário do Instituto Federal de Telecomunicações do México, destacou o impacto da exclusão digital entre os setores urbano e rural, especificando que “quando adicionamos gênero à exclusão digital, ele se multiplica mais e isso cria sociedades desiguais que limitam o acesso à Internet, considerada viabilizadora dos direitos das mulheres ”.

Por sua vez, Quessep destacou que os dispositivos móveis permitiram reduzir a distância entre as áreas rurais e urbanas, embora houvesse uma diferença de acesso por gênero. Quessep, considerada uma das mulheres mais experientes na liderança do setor de BPO, destacou a importância da conscientização coletiva do setor público sobre a importância de reduzir essa lacuna.

Outro ponto importante destacado foi relacionado à importância de tornar as mulheres visíveis em posições de poder no setor de TIC. A esse respeito, Cavalcante, que também é professora das áreas de Robótica Móvel, Robótica Educacional e Aprendizagem Ativa da Universidade de Brasília, explica que “é preciso que as mulheres jovens vejam mulheres em lugares de poder para estimular sua participação no setor.” Ela explicou que está explícito no projeto do qual participa “buscar promover o interesse das mulheres pela ciência e tecnologia”.

Rosso, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado, destacou que é importante “Facilitar lideranças femininas gerando sinergias entre os diferentes atores do setor”. Frisou que atualmente conectividade é sinônimo de cidadania, pois é através da Internet que se realizam trâmites e onde ocorre o acesso a benefícios que melhoram a vida das pessoas.

Um tema também presente no debate foi o da importância de implantar políticas que busquem aumentar a presença das mulheres nos cargos de poder. Neste sentido, houve consenso sobre as estratégias de discriminação positiva, ou cotas mínimas de gênero.

Em primeiro lugar, Quessep observou que essas medidas permitiram que “as mulheres tivessem acesso a lugares de poder e demonstrassem suas capacidades”, Estavillo afirmou também que “é um instrumento que permite quebrar a inércia e ajuda as mulheres a ganhar poder”.

Por sua vez, Rosso destacou que as políticas de discriminação positiva “eliminam as barreiras existentes para a geração de especialistas no setor”. Já Cavalcante destacou que essas iniciativas permitem “criar um ambiente seguro que incentive as meninas a escolherem carreiras relacionadas à ciência e tecnologia”.

Por fim, os participantes reconheceram a importância de contar com aliados do gênero  masculino para aumentar a presença das mulheres em setores e cargos nos setores de tomada de decisão. Nesse sentido, Quessep explicou que a ideia é “trabalhar para que os homens sejam aliados na busca de diminuir a lacuna de gênero”, enquanto Rosso expôs o conceito de “homens patrocinadores”, que são aqueles que permitem o crescimento das mulheres na indústria.

Também se pronunciou sobre este tema o moderador do evento, José Otero, que considerou fundamental “trabalhar a sensibilização da sociedade para as vantagens que advêm do aumento do número de mulheres em cargos de chefia, a evidência empírica é clara: maior eficiência, produtividade e criatividade entre muitos outros fatores ”.