A transformação digital permite às empresas e instituições inovarem

Entrevista com Félix Chang Calvache – Vice-ministro de Tecnologias da Informação e Comunicação do Equador. Parte I

A pandemia de Covid-19 acelerou os processos de digitalização nos diferentes mercados da América Latina. Este desenvolvimento permitiu que os países evoluíssem na direção de uma nova estrutura da economia global, o que possibilita aos países da região um melhor preparo.

Félix Chang Calvache – Vice-ministro de Tecnologias da Informação e Comunicação do Equador.

Com estes temas em mente, o Brecha Zero conversou com Félix Chang Calvache, que é vice-ministro de Tecnologias da Informação e Comunicação do Equador. Com um Mestrado em Administração de Empresas, é especializado em Negócios Internacionais e Sistemas de Informação, além de contar com uma ampla experiência na condução de projetos e assessoria tecnológica, financeira, mercadológica, legislativa e regulatória dos setores público e privado.

Brecha Zero: Quanto as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) ajudaram a economia do Equador a superar as complicações associadas à pandemia?

Félix Chang Calvache: O estado de emergência sanitária causado pela propagação mundial do COVID-19 tem sido um fator  com oportunidade  e abrangência mundial para o desenvolvimento das tecnologias digitais. O Equador não está longe dessa realidade, pois a pandemia provocou a aceleração dos processos de digitalização em todos os setores e na sociedade em geral.

Na pré-pandemia, muitos setores ainda se encontravam em um universo analógico, mas, à medida que a pandemia foi ganhando força no mundo e forçando os consumidores a realizar suas compras habituais através de transações eletrônicas, ficou evidente a necessidade de adotar um comércio eletrônico mais massificado. A consequência disso foi a migração das empresas para espaços tecnológicos, com o objetivo de continuar operando durante o confinamento, o que deu um impulso considerável ao comércio eletrônico e à transformação digital.

Neste sentido, é importante utilizar como referência algumas estatísticas da Câmara Equatoriana de Comércio Eletrônico (CECE), que evidenciam a impactante migração dos setores produtivos do mundo analógico para o digital no Equador, em apenas 2 anos:

  • 1 de cada 3 compradores escolheu pela primeira vez o canal online para realizar suas compras a partir da quarentena.
  • Foi reportado um crescimento de 800% em visitas a sites da web e um aumento de 44% em pedidos, em comparação com 2019.
  • Os lucros por comércio eletrônico alcançaram os 2300 milhões de dólares em 2020.
  • Durante o confinamento, a massa de compradores online se duplicou e o comércio eletrônico avançou e cresceu em dois meses a quantidade que, antes, teria levado 5 anos para atingir.
  • As categorias com melhor desempenho em 2020 foram: alimentos e higiene, computação, eletrodomésticos, moda e beleza, educação, pagamentos online, jogos online, comida para pets, serviço de entrega (delivery) e telefonia celular.
  • Estima-se que 40% das empresas criaram meios de comércio eletrônico para se manterem operando.
  • As compras por canais digitais (incluindo websites) aumentaram em pelo menos 15 vezes desde o início do distanciamento social.

O COVID-19 gerou uma oportunidade de abertura do comércio eletrônico, impulsionando a uns 34% dos usuários de plataformas digitais como meios de compra secundários, a usar estas plataformas constantemente.

Segundo a Superintendência de Bancos, o Equador cresceu mais de 19 milhões em termos de transações digitais, aumentando em 4.1 milhões as compras feitas com cartões de crédito, através de eCommerce e mais de 552 milhões de vendas utilizando como meio de pagamento os cartões de crédito.

Segundo a CECE, em 2021, a contribuição das vendas por eCommerce ao PIB foi de 1.70%, o que equivale a um aumento de 2% em relação ao ano anterior. Neste contexto, é importante evidenciar a contribuição das TIC às atividades econômicas como um fator chave para o impulso produtivo, facilitando a implementação de inovação e a promoção de empreendimento nos setores produtivos, permitindo, assim, que o país siga gradualmente superando as complicações que estiveram associadas à pandemia.

Brecha Zero: Quais setores você considera que melhor aproveitaram o uso da tecnologia para enfrentar os obstáculos impostos pela pandemia?

Félix Chang Calvache: No Equador, os principais setores que aproveitaram o uso da tecnologia foram os setores de saúde (telemedicina), comércio (ecommerce), financeiro (serviço bancário móvel), educação (teleducação ) e governo eletrônico (E-governo).

Com a chegada da pandemia no ano de 2020, ficou marcado um antes e um depois nestes setores que precisaram lidar com dificuldades para migrar para espaços tecnológicos e, sem dúvida alguma, tiveram que atingir níveis de adaptação inimagináveis. A sociedade, como, por exemplo, os setores públicos, privados e acadêmicos, frente às circunstâncias foi obrigada a se adaptar de maneira rápida, ajustando seus serviços à nova realidade e ao novo consumo.

Brecha Zero: Quanto as TIC podem ajudar a enfrentar o processo pós-pandemia?

Félix Chang Calvache: No cenário pós-pandemia, a transformação digital se converteu em um elemento chave que permite aos setores enfrentar o contexto VUCA, que se refere a um ambiente altamente volátil, no qual a gestão baseada em certezas chega ao fim e dá espaço a um presente e futuro incertos, definidos por um alto nível de complexidade na tomada de decisões.

A transformação digital possibilita que as instituições e/ou empresas tenham flexibilidade e resiliência para navegar esses meios, adaptando-se e tirando proveito deles, permitindo que tenham a capacidade para se adaptar e inovar, virando uma ponte entre as estratégias dos setores e a sociedade, já que está focada em atender as necessidades dos usuários, gerando através de novas tecnologias (IOT, 5G, Big Data, Cloud, Inteligência Artificial) um moats ou fosso que permita às empresas ou instituições a adquirirem muito valor agregado que faz com que se diferenciem das demais, as tornando mais produtivas e eficientes. Portanto, a incorporação das tecnologias digitais é imperativa se os setores buscam se manter vigentes a longo prazo.

Brecha Zero: Que setores considera que saíram de cara mais fortalecidos no uso das TIC  no pós-pandemia?

Félix Chang Calvache: No Equador, os principais setores que aproveitaram o uso da tecnologia a seu favor e saíram fortalecidos foram: setor de saúde (telemedicina), comércio (ecommerce), financeiro (serviço de banco móvel), educativo (tele educação) e de governo eletrônico (E-gov), que incrementaram suas demandas graças às suas migrações para espaços digitais.

No setor da saúde, apresentou-se a telemedicina como uma das formas de responder à atividade sanitária em época de pandemia, realizando consultas online com atendimento disponível 24 horas por dia. Por outro lado, o comércio eletrônico acelerou seu crescimento, foi assim que o Equador alcançou um volume de negócio de USD 2.3 mil milhões, durante 2020, o que representou um crescimento de USD 700 milhões (43,75%) em comparação a 2019.

O setor financeiro incentivou o uso de bancos online, crescendo mais de 19 milhões em termos de transações digitais. Da mesma forma, o setor da educação apresentou a teleducação como um projeto para diminuir o atraso escolar de crianças, jovens e adultos durante a pandemia. Finalmente, o Governo aproximou o Estado da sociedade, por meio do governo eletrônico, fortalecendo plataformas para a realização de trâmites, verificação de dados, entre outros.