A concorrência é um dos principais incentivadores de crescimento de um mercado, a partir de sua implementação é alcançado um aumento significativo da penetração dos diferentes serviços. Esta situação foi vivida pela Costa Rica desde a abertura do mercado em 2011. O crescimento dos serviços móveis possibilitou um desenvolvimento não somente desses serviços por si só, mas também indiretamente de diferentes setores.

jim_4626Sobre os benefícios que a explosão das TIC possibilitou no mercado da Costa Rica, o Brecha Zero conversou com Manuel Emilio Ruíz Gutiérrez, presidente da Superintendência Geral de Telecomunicações da SUTEL, órgão regulador do setor neste país. Ele nos explicou as diferentes formas das TIC beneficiarem o desenvolvimento do país e as oportunidades de crescimento a partir da liberação do mercado.

Ruiz é Licenciado em Ciências da Computação pela Universidade da Costa Rica, com mestrado em Ciência da Computação com ênfase em Engenharia de Administração pela George Washington University, Washington, D.C. Possui ampla experiência acadêmica e também como consultor e profissional em TIC, Ruiz trabalhou ainda para os setores público, privado e para órgãos internacionais.

Brecha Zero: Como contribuem as TIC para o desenvolvimento da sociedade?

Manuel Ruiz Gutiérrez: Eu acredito que a oportunidade de aproveitar as TIC de forma real é a oportunidade mais importante que já tivemos enquanto país. No sentido de poder aproveitar toda a inovação, todas as economias obtidas e que acompanham o tratamento adequado da informação, nos diferentes níveis, para as tomadas de decisões em pequenas e médias empresas, negócios familiares, ou de qualquer outro ponto de vista.

Realmente as TIC revolucionaram a maneira de conviver, a maneira de viver, e neste sentido de envolver vários atores, não somente os desenvolvedores de aplicações são importantes, mas também os governos centrais e federais, e também mais importante ainda, os governos locais. Por que? Porquê é o primeiro contato que temos com nossas autoridades políticas, que vigiam os nossos interesses, nós pagamos os impostos municipais de nossas propriedades etc. E os serviços de primeira fonte são estes governos locais que os oferecem, então aí está também outro ator muito importante que pode tirar proveito desta tecnologia, que os governos locais também aproveitem isto. Neste sentido, caminham juntos, porque uma vez no local é mais fácil ter acesso direto ao governo de sua localidade, seja para o pagamento de impostos, para os cuidados em tempo útil, para serviços públicos voltados para as comunidades. É outra maneira de criar esse círculo virtuoso, onde os usuários podem compartilhar não só o local, mas também oferecem informações adicionais.

Brecha Zero: Quais condições oferece o mercado de Telecomunicações para incentivar os demais setores? Onde deveria melhorar?

Manuel Ruiz Gutiérrez: Existem duas etapas, o que o mercado por si só pode cumprir, e o que temos de programas interessantes das operadoras de serviços de telecomunicações com seus projetos de responsabilidade social em áreas rurais. É importante destacar alguns exemplos na zona norte do país, onde um operador está ensinando crianças da escola secundária a programar aplicações.  E o mais importante é que sejam de conteúdos nacionais e rurais, uma forma de suprir esta falta de conteúdo local que temos na região latino-americana.

Entretanto, com o FONATEL estamos realizando concursos públicos totalmente abertos para as operadoras de telecomunicações, e isto é importante porque os fundos destas iniciativas vem de uma fonte que coleta impostos destas mesmas operadoras. A ideia é que sigam promovendo o desenvolvimento das áreas rurais, que continuem oferecendo seus serviços adicionais e que eventualmente, em um prazo de até 5 anos, persista o subsídio e possa converter-se em uma área rentável.

Brecha Zero: Quais setores considera que aproveitarão de melhor forma os desenvolvimentos TIC?

Manuel Ruiz Gutiérrez: Eu diria que a área da educação, porque a Costa Rica teve grandes avanços desde 1948. Em um fato histórico, a Costa Rica aboliu seu exército e permitiu que o orçamento voltado para este setor fosse redirecionado para as áreas da saúde e educação. Sinto que essas duas áreas, saúde e educação, são as que apresentam maior potencial para o uso destas tecnologias, porque já deram os primeiros passos.

Além disso, a Costa Rica, adotou há duas décadas, até um pouco mais, a informática educativa como parte da formação do ensino primário. Isso é um marco muito importante no setor público.

Brecha Zero: Quais setores considera com maiores necessidades de avanços?

Manuel Ruiz Gutiérrez: Eu diria que talvez o setor agrícola. Sinto que poderíamos ter um maior aproveitamento, poderíamos ter um pouco mais de acesso à informação para aqueles pequenos e médios produtores agrícolas, com informação que lhes facilite a comercialização de seus produtos, que lhes permita otimizar o envio desses produtos.

A outra parte que é um desafio, como em muitos outros países, apesar da Costa Rica ser um país pequeno em território e população, com 4,5 milhões de habitantes e 50 Km quadrados, o transporte é outros dos grandes problemas que temos e onde podíamos aproveitar melhor este recurso.

E, finalmente, o teletrabalho, que está dando seus primeiros passos com políticas de estado, políticas de governo que estão definindo os requerimentos. E, afortunadamente, com o apoio das telecomunicações isso vai ser factível.

 

Brecha Zero: Qual considera o padrão do setor privado neste sentido?

Manuel Ruiz Gutiérrez: É muito importante que a Câmara de tecnologia de informação e comunicação cumpra um papel fundamental no desenvolvimento dessas aplicações na geração de conteúdo local. Eles desempenham um papel importante, com base na atuação das operadoras de serviços de telecom, como a estrada ou meios de conectar os usuários com as aplicações, por exemplo.   

Assim, cria-se um ecossistema com as operadoras, os veículos de comunicação, os canais de TV, rádio, para criar essa aliança estratégica que permita criar essa visão de Estado. Isso seria o círculo que une quem têm a obrigação de implementar as políticas, definir e desenvolver ferramentas. A empresa privada tem feito esforços e contribuições tremendas.

Brecha Zero: Qual importância apresentam as tecnologias de banda larga sem fio?

Manuel Ruiz Gutiérrez: É importante ressaltar no caso da Costa Rica, que realmente a entrada de novas operadoras móveis se deu em novembro de 2011, isso significa que em 2016 temos apenas anos de abertura do mercado. E a penetração de serviços móveis da Costa Rica neste momento, segundo as estatísticas da SUTEL em dezembro de 2015, era de 156%.

No caso da internet móvel já chegamos a 100%, basicamente queria dizer que toda a população estaria coberta, os 4,5 milhões de linhas que acessam a internet estaria respeitando uma versão um a um. Sabemos que não é assim, porque alguns tem duas ou mais linhas.

A telefonia móvel veio para revolucionar o desenvolvimento socioeconômico, com acesso à informação de maneira onipresente. Creio que a chave para este desenvolvimento é que, como uma nação, não temos fixado. Eu considero que o uso das tecnologias móveis, obviamente apoiada por redes fixas, pode resultar em uma Costa Rica melhor, mais conectada, para fornecer não apenas serviços básicos, mas também serviços avançados e nos permitir continuar a crescer nas outras apostas que temos defendido enquanto país.