A pandemia acelerou a adoção tecnológica no Paraguai

Carlos Niz Puig diretor e presidente da comissão de relações internacionais da Câmara Paraguaia da Indústria de Software (CISOFT). Parte I

A América Latina começa a ver um sinal de esperança após a pandemia de Covid-19. Ao longo desses anos diversas economias foram afetadas pelas políticas sanitárias aplicadas, porém, as tecnologias de informação e comunicação (TIC) foram um auxílio indispensável.

Carlos Niz Puig diretor e presidente da comissão de relações internacionais da CISOFT

O Paraguai aproveitou os avanços da tecnologia para enfrentar a pandemia. Brecha Zero, conversou com Carlos Niz Puig, diretor e presidente da comissão de relações internacionais da CISOFT.

Brecha Zero: Quanto as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) ajudaram a economia do Paraguai a superar as complicações associadas à pandemia?

Carlos Niz Puig: Na minha percepção como Indústria, aconteceu a mesma coisa na grande maioria dos países da região, e no mundo, o uso de ferramentas tecnológicas para que tudo que tenha a ver com o comércio se acelerasse. Isso também impulsionou, por exemplo, os bancos que no Paraguai estavam atrasados ​​na implantação de tecnologias móveis e acelerou a diminuição da presença física das pessoas em agências bancárias. As fintechs [empresas de tecnologia financeira] também ajudaram nisso.

A primeira coisa que aconteceu no Paraguai foi uma democratização brutal do uso de aplicativos móveis e a rápida adoção de vendas multicanal por pequenas empresas. Desde os mais básicos como Marketplaces no Facebook, Instagram ou WhatsApp, até empresas com um pouco mais de experiência empresarial que conseguiram montar um site de e-commerce e hoje vende mais pelo meio digital que pelos canais físicos.

Eu acredito que a tecnologia foi fundamental para, pelo menos, sustentar a economia. Não vamos nos enganar, o país foi afetado, ainda que alguns países obtiveram sucesso, outros foram mais afetados. Aqui no Paraguai houve uma explosão, a ponto de acelerar até o desenvolvimento de aplicativos locais que concorrem com grandes empresas globais, como os aplicativos de transporte que concorrem com Uber ou Cabify, um aplicativo local chamado MUV que hoje é o número um do país, superando esses dois. Você tem aplicativos como o Monchis, que concorre com o OrdenesYa, que também tem um valor regional. Aplicativos como o TAXit que permitem pagar impostos usando inteligência artificial, de forma mais simples para o usuário. Esses serviços realmente explodiram.

Portanto, resumindo minha percepção do setor, a pandemia o afetou, mas para melhor, pois acelerou o uso da tecnologia em muitas empresas, e muitos chegaram a implementar esse tipo de solução que estava no pipeline, mas não tinha urgência. A pandemia acelerou essa urgência por conectividade, home office e todo esse tipo de coisa que estava presente, acelerou tudo relacionado a colaboração, trabalho remoto e segurança de computadores. É impossível medir qual foi o impacto real, mas sem tecnologia o Paraguai teria sofrido muito mais.

Brecha Zero: Quais setores você acha que fizeram o melhor uso da tecnologia para enfrentar os obstáculos impostos pela pandemia?

Carlos Niz Puig: O setor bancário estava muito confortável, porque o setor financeiro no Paraguai é altamente lucrativo, o que aconteceu foi que eles foram forçados em um primeiro momento pela quarentena e os modelos de prevenção a apostar no digital de maneira mais acelerada . Isso lhes trouxe receita. O Paraguai também possui um contexto bancário particular onde há teto de juros nos cartões de crédito, diferentemente de outros países da região, isso levou os bancos a eliminarem os clientes da base da pirâmide. O que fez com que essas pessoas ficassem sem banco.

Com a pandemia, os bancos voltaram a caçar esses clientes, pois viram que essa parcela da população estava comprando e fazendo isso remotamente. E a forma de comprar remotamente é por meio de ferramentas tecnológicas. Então hoje, por exemplo, você já tem uma oferta de cartões digitais e não físicos, [e] já existe uma financeira que busca ser o primeiro banco totalmente digital. Em outras palavras, o setor bancário claramente aproveitou o momento e estou certo que o tornaram lucrativo, porque é o setor que melhor sabe como torná-lo lucrativo.

Não acho que a agricultura tenha sido particularmente beneficiada pela pandemia. Agora estamos vendo uma melhora nesse setor, relacionada com o fim da pandemia e o aumento das commodities. E obviamente a guerra entre Rússia e Ucrânia, os números [do cenário] macro afetaram o interior e o agronegócio em geral, porque quando estávamos nos estabelecendo globalmente, a guerra veio para mudar tudo porquê também gerou falta de insumos.

Outro setor que muito se beneficiou foi o setor da saúde, principalmente os ligados à telemedicina, que aproveitou a incorporação de tecnologia local e regionalmente. E, obviamente, havia um orçamento enorme do Estado, até o Paraguai se endividou para investir em remédios, e isso claramente aumentou as possibilidades de crescimento da indústria.

Brecha Zero: Quais iniciativas você pode destacar da CISOFT que ajudaram a Indústria a enfrentar a pandemia?

Carlos Niz Puig: A dinâmica do mercado nos acelerou como Indústria. Foram muitas as iniciativas que partiram desde o voluntariado mais básico, até medidas específicas de colaboração com entidades governamentais, por exemplo. Não só da preocupação humanitária que obviamente temos como Câmara, mas também de medidas individuais das empresas. Houve também iniciativas de organizações não governamentais.

Sobre o setor empresarial, durante a pandemia, vou parafrasear Satya Nadella, CEO da Microsoft, que disse que “em quatro meses avançamos cinco anos”. O Paraguai não foi exceção. E isso nos trouxe oportunidades de negócios, algumas empresas aproveitaram melhor isso, outras, pela vertical, fizeram um pouco menos, e algumas pouquíssimas foram afetadas negativamente. A grande maioria das empresas da nossa câmara saiu mais forte da pandemia, a ponto de hoje termos problemas de capital humano. Nossa indústria a nível global tende ao desemprego zero, e isso é um problema para nós.