A digitalização é uma grande oportunidade para o desenvolvimento do Equador

Entrevista com Gisela Montalvo, Diretora Executiva da Câmara de Inovação e Tecnologia do Equador (CITEC). Parte II

O desenvolvimento de um ambiente digital é um dos maiores objetivos perseguidos pela maioria dos países da América Latina. A possibilidade de aproveitar as iniciativas que foram realizadas nos últimos dois anos e sustentá-las ao longo do tempo é uma busca constante das autoridades da região a fim de impulsionar o desenvolvimento social e econômico.

Gisela Montalvo, Diretora Executiva da CITEC.

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com Gisela Montalvo, diretora executiva da Câmara Equatoriana de Inovação e Tecnologia. Montalvo é formado em Ciência Política e Relações Internacionais, possui MBA e Mestrado em Políticas Públicas e participou do Programa Executivo em Tomada de Decisão de Liderança pela Harvard Kennedy School. Por vários anos, trabalhou no setor público do Equador como funcionária da Embaixada do Equador nos Estados Unidos e assessora no Ministério da Coordenação da Produção, Emprego e Competitividade. Foi diretora da Corporación Líderes para Gobernar e diretora da Escola de Governo da UHE. É também membro do Comitê Acadêmico da Unidos por la Educación, vice-presidente da Comissão de Integridade da ICC e cofundadora do Movimiento Razón y Emoción.

Brecha Zero: Em todo este processo de digitalização incipiente, qual foi a importância dos serviços móveis?

Gisela Montalvo: Eu acho que tem um papel e uma responsabilidade transcendental, porque é o que realmente nos ajuda a permanecer conectados. As plataformas dão mais acesso, financiamento para adquirir dispositivos, que servem para chegarmos a lugares onde antes não era possível. Sei que existem vários projetos no país para que estes quesitos possam ser melhor utilizados, para que outros serviços possam ser prestados para os cidadãos. É o mesmo que dizer, já tenho toda a tecnologia aqui, como posso realmente colocá-la a serviço dos cidadãos(?). Há processos que estão ocorrendo em todas as empresas de serviços móveis que apoiaram estas iniciativas e campanhas, desde a geolocalização até ver onde realmente um ministério pode chegar, quais dados que podem captar de um telefone móvel pode ajudar na tomada de decisões.

Brecha Zero: Quanta influência a 5G pode ter sobre a digitalização do país?

Gisela Montalvo: Não há como pensar em crescimento tecnológico se não tivermos todas as ferramentas e serviços de divulgação necessários para oferecer serviços. Eu acho que é essencial. Como país não podemos deixar de ver (a influência da 5G) como uma necessidade, porque nos permite usar todas essas ferramentas tecnológicas para reativar a economia, para aproximar os serviços dos cidadãos, para quebrar as lacunas educacionais e de saúde, se realmente temos todas as ferramentas e tecnologias para fazer isso, então eu vejo isso como uma questão essencial. Aqui temos uma oportunidade, essa tecnologia não é mais vista como uma opção, mas como um meio para um fim. Por exemplo, no Ministério da Produção, a questão tecnológica talvez não estivesse presente nas discussões anteriormente, mas agora é uma questão transversal dentro das estratégias de reativação econômica, e para garantir que isto seja visto e que sejamos transversais na gestão, precisamos ter todas as ferramentas, serviços e oportunidades que a 5G nos oferece para realmente sermos capazes de cumprir estes projetos e objetivos que temos em nosso país.

Brecha Zero: Que papel as TICs desempenham na reconstrução da economia no processo pós-pandemia?

Gisela Montalvo: Penso que temos, em conexão com as outras questões, uma questão que precisamos aproveitar como país. Um projeto que o Ministério da Educação chamou de infocentros, que são como Lan Houses em rede (distribuídas) pelo país, em lugares onde não há acesso à Internet ou onde os cidadãos não têm a facilidade de contar com conexão própria ou com computador, existem estes centros onde se tem livre uso da tecnologia e acesso à Internet. Há mais de 800 pontos em todo o país. Este é um projeto que vem sendo implementado há vários anos, nos últimos anos foi esquecido e são espaços que estão deteriorados e precisam de manutenção, mas, ao mesmo tempo, há um compromisso do novo governo de reativá-los e de oferecer mais serviços.

Isto permitirá, em conexão com sua pergunta, que o uso de tecnologias não seja apenas temporário, mas algo que dure ao longo do tempo, pois estamos nos aproximando do cidadão, e aqueles que ainda não podem pagar pela Internet ou não têm computador, podem fazê-lo e ter acesso a esses serviços através de pontos estratégicos espalhados pelo país. É por isso que acredito que as tecnologias estão aqui para ficar, porque nos mostraram como podem ser utilizadas de forma eficiente e responsável para atender às necessidades dos cidadãos.

Uma questão importante aqui é que, apesar da pandemia que nos manteve dentro de casa, a situação climática melhorou, mas estamos recebendo novos avisos de todo o mundo sobre os desafios que enfrentamos como país, as análises mostram que em 2050 muitas cidades não existirão mais, estarão cobertas pelo mar, especialmente nossa área costeira.

Portanto, gerar processos tecnológicos, é também uma questão renovável e responsável, e é sustentável. Estamos mudando os serviços e fazendo isso de forma responsável, influenciando também este apoio à mudança climática e ao desenvolvimento sustentável. Penso que isso pode ser feito, considerando alguns desafios em termos de regulamentos e impostos que precisam ser adaptados. Por exemplo, a economia colaborativa, que temos que entender e ver como isso muda a situação em vários aspectos, temos que trabalhar isso em benefício do país.

O assunto está na agenda, o importante aqui é unir a realidade com os tomadores de decisão e as oportunidades que os serviços digitais oferecem. Penso que isto vai continuar por muito tempo porque melhora a situação, os serviços, há uma eficiência de recursos, por isso é uma grande oportunidade de desenvolvimento para todos. Como eu dizia no comércio, antes eles só vendiam se você estivesse em Cuenca, agora você pode vender nacionalmente se você tiver um site, um botão de pagamento e redes sociais que cheguem às pessoas.

Brecha Zero: Quais são os setores que, neste processo pós-pandêmico, precisam fazer mais esforços para incorporar tecnologia?

Gisela Montalvo: Por um lado, o que é essencial é a base, a educação. É essencial que a educação realmente se adapte a novas realidades, novas metodologias, porque agora a concorrência não é mais nacional, mas internacional. Agora você pode decidir que seus filhos vão estudar nos Estados Unidos e não vão mais para uma escola equatoriana, mas sim para uma escola que ofereça um diploma dos Estados Unidos ou onde você quiser, o mesmo serve para universidades. É um desafio para os sistemas educacionais, tanto públicos quanto privados, eles podem se adaptar a estas novas realidades; o contato presencial será sempre mais importante, mas os exemplos que vimos mostram como você pode prestar um serviço melhor e ser eficiente utilizando ferramentas tecnológicas.

Por um lado, todas as questões de construção são uma grande oportunidade de aprendizagem, o que vemos é que talvez não seja apenas o comércio eletrônico, mas também o setor jurídico. Todas as áreas têm que se transformar e não são carreiras ou profissões novas, mas carreiras que antes eram vistas como não tecnológicas e que agora têm que incorporar a tecnologia de alguma forma. No setor de engenharia civil, há um dos serviços nesta área que é o Tül, uma das novas plataformas que teve um grande impacto internacionalmente e já está aqui em nosso país. Acredito que o desafio não está em uma ou duas indústrias, mas em todas as áreas, como podemos aproveitar as tecnologias para prestar um serviço melhor, adaptar e ser mais conscientes e responsáveis pelas oportunidades e eficiência que podemos oferecer, sem esquecer que tudo é feito com o apoio do ser humano para o ser humano, ao seja, a tecnologia não pode ser o fim mas sim o meio, o meio tem que ser feito para o cidadão, para os consumidores, para o usuário e por trás de tudo isso tem a presença de um ser humano que gera toda essa interação, essa é a parte essencial e bonita da transformação digital, que é constatar que podemos ajudar e que é possível transformar fazendo uso da tecnologia como meio mas tendo o ser humano como fim, pois ninguém pode substituí-lo.