A Cultura é um excelente recurso para atrair públicos para adotar a banda larga móvel

Entrevista com Victoria Contreras, Diretora da fundação Conecta Cultura do México, Parte II

Um dos aspectos onde a revolução da informação e do conhecimento estourou de forma disruptiva foi na cultura. As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) também influenciaram, e se alimentaram, das condições culturais dos diferentes mercados que compõem a América Latina e o Caribe.

Sobre este fenômeno, o Brecha Zero conversou com Victoria Contreras, fundadora e diretora da fundação Conecta Cultura do México. Esta instituição dedica-se a desenvolver ferramentas e processos inovadores de participação e empoderamento dos cidadãos para contribuir com a redução de exclusões e melhorar a qualidade de vida em projetos de caráter público e privado.

A formação acadêmica de Contreras consta de Licenciatura em Relações Internacionais na Universidade Ibero-americana, com pós em Gestão e Políticas Culturais na Universidade das Ilhas Baleares, e mestra em Cooperação Cultural Internacional pela Universidade de Barcelona. Em seu currículo conta mais de 15 anos de experiência em administração de projetos internacionais do âmbito social e cultural no México, Brasil, Colômbia e Espanha; desempenhando a função em diferentes organizações, das quais destaca-se a Agência espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, a Organização dos Estados Americanos e os Ministérios de Cultura da Argentina, Brasil e Colômbia, entre outros.

Contreras, que faz parte dos oito especialistas globais que colaboram com a Unesco em Paris, avaliando projetos para o Fórum Internacional da Diversidade Cultural (2016), conversou sobre a relação da cultura e das TIC com o Brecha Zero:

Brecha Zero: Qual a importância do trabalho colaborativo público e privado no momento de empoderar a população mediante às TIC?

Victoria Contreras: É fundamental ter investimentos e colaborações mistas para empoderar populações na região, e contribuir para amenizar as exclusões no que se refere às TIC e seu acesso. Estamos em uma época da qual o gasto público dos países da região tem diminuído, por isso necessita de colaboração de todos os agentes do ecossistema, cultura e das TIC.

Empoderar populações deve ser vista como uma oportunidade de investimento e aprendizagem mútua, é a possibilidade de educar gerações que podem incidir no futuro próximo ou de longo prazo, inovar e destinar seu conhecimento comunitário para melhorar seu ambiente imediato. Creio que o setor privado global, ainda não tem tido uma incidência considerável nestes temas, pois em geral a forma de ter responsabilidade social corporativa tem sido tradicional e limitada. Seria idôneo que houvesse um maior investimento social para empoderar populações em várias agendas temáticas, entre elas, as de reduzir a exclusão digital. E não se trata de ter o trabalho que não tem os governos, mas de criar esquemas de colaboração compartilhada.

Brecha Zero: Qual padrão as TIC jugam no momento de aumentar os direitos das diferentes minorias na América Latina?

Victoria Contreras: Eu acredito que as TIC não aumentam direitos, as TIC são ferramentas que potencializam a voz e permitem que muitos ativistas possam ver suas mensagens chegando ao mundo, não apenas a sua comunidade mais próxima. A internet também permite a divulgação dos direitos e permite conectar-se com uma rede global de pessoas que compartilham preocupações similares.

Ainda me lembro que em 2012, o New York Times, nomeou como pessoa do ano, os manifestantes da Primavera Árabe, Atenas, 15M, Ocupa Wall Street, etc. Grande parte do trabalho de coordenação de todos esses movimentos foi graças à internet e seus dispositivos móveis. Eles conseguiram posicionar um movimento global em favor dos direitos civis e políticos.

Em 2016 e 2017 também houve outro caso emblemático de escala global: o movimento “Standing Rock Siux” que protestou contra a construção do gasoduto de Dakota do Norte, e que deu uma lição ao mundo sobre a proteção e luta pelos patrimônios culturais e naturais das reservas indígenas dos Estados Unidos, no entanto, sem dúvida, é uma tendência que está ocorrendo em diversos pontos da região.

Brecha Zero: De que maneira a diminuição da exclusão digital contribui para melhorar o acesso dos direitos de diferentes grupos de minorias na região?

Victoria Contreras: No México, há mais de 112 milhões de habitantes, dos quais 12.025.947 são indígenas, a Pesquisa Nacional sobre Disponibilidade e Uso de Tecnologias de Informação em Domicílios (ENDUTIH) 2016[1] afirma que 44,5 milhões de pessoas (40,5%) não usam a Internet, que o acesso desta tecnologia é predominante entre os jovens do país; e que o acesso à Internet está associado de maneira importante ao nível de estudos.

Na região, a exclusão digital é somente uma das tantas exclusões pendentes para diminuição. Em todos os casos, parte da solução está relacionada com ter mais e melhor acesso à educação, seja de maneira forma ou informal. Também a empoderar as populações com menos oportunidades. Diminuir as exclusões digitais deveria ser um compromisso de qualquer governo, o acesso à informação é um direito, o mesmo que poder disfrutar dos avanços da ciência e da tecnologia. A região possui uma dívida enorme nesse sentido, quanto possui níveis de desigualdade tão escandalosos.

Brecha Zero: Qual padrão pode cumprir para incentivar a adoção da banda larga móvel?

Victoria Contreras: A Cultura é um excelente recurso para criar produções artísticas inovadoras e atrativas, com a finalidade de atrair públicos para adotar a banda larga móvel. Ligar uma estratégia de marketing à venda e promoção de banda larga móvel poderia ser mais interessante se conectada aos públicos diversos abaixo dos parâmetros das artes e da cultura.

Outro aspecto para promover a banda larga móvel é a participação e compartilhamento de grandes eventos culturais e artísticos, pois muitas vezes não existe um bom sinal em grandes feiras. Parte da vida digital atual é passar a compartilhar suas vivencias em rede, a banda larga seria um incentivo, para quando viajar ou quando estiver em locais com conexão ruim. Atualmente, a produção cultural não possuirá o mesmo impacto se não contar com uma boa rede de internet.

Brecha Zero: De que forma a banda larga móvel contribuiu para empoderar os habitantes de um país?

Victoria Contreras: Até certo ponto a banda larga móvel permite compartilhar conteúdos em tempo real, pode ir desde atividades cotidianas até ações significativas, como denúncias ou ativismo por certas causas. Não estou segura que seja a banda larga que contribui para empoderar populações, mas seu uso com um objetivo especifico, em um território especifico. Não é banda larga que empodera, é seu sentido comum como pessoa, o poder de discernir e tomar decisões. Nesse caso a Cultura é extremamente potente, pois reflete a maneira que estamos inseridos no mundo. E aí é onde todas as populações do mundo, de alguma maneira se conectam.

[1] Veja mais: http://www.inegi.org.mx/saladeprensa/aproposito/2017/internet2017_Nal.pdf

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