A contribuição das TIC para a atividade econômica foi significativa durante a pandemia

Entrevista com Francisco Guzmán, Diretor ACTI Chile

Os diferentes países da América Latina, durante a pandemia de Covid-19, aceleraram a influência das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) em suas economias, assim como a sociedade. Alguns desses mercados estavam mais preparados do que outros, mas todos puderam ver como a digitalização estava evoluindo.

Francisco Guzmán, Diretor ACTI Chile

Sobre essas questões, a Brecha Zero conversou com Francisco Guzmán, diretor da Associação Chilena de Empresas de Tecnologia da Informação (ACTI). Guzmán possui formação de administrador de empresas, com especialização, tanto em tecnologia, como em negócios e marketing, com 30 anos de experiência em serviços, soluções e produtos, no mercado de TI na América Latina. Possui experiência em cargos de gestão e liderança na Unisys, Olivetti e HP, entre outros. Desde abril de 2013, trabalha na Claro Chile, onde atualmente é Diretor de Mercado Corporativo.

Brecha Zero: Quanto as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) ajudaram a economia do Chile a superar as complicações associadas à pandemia?

Francisco Guzmán: Embora a pandemia implique um conceito negativo, para as empresas de telecomunicações foi uma grande oportunidade para digitalizar massivamente pessoas e empresas. Por isso, podemos dizer que a contribuição das TICs para a atividade econômica foi muito significativa, pois impulsionou um importante setor produtivo a crescer em vendas e renda.

Lembremos que antes da pandemia muitas empresas de diferentes portes estavam no mundo analógico e isso era normal. Mas a necessidade de um comércio eletrônico mais massivo muitas vezes abriu novos segmentos e clientes que eles não vislumbravam antes.

Para além do impacto econômico, facilitou a promoção da inovação e empreendedorismo, formação online (para incorporar novas competências) e sobretudo as possibilidades oferecidas pelo teletrabalho, que permitiu à grande maioria das empresas e trabalhadores continuarem a operar durante o confinamento.

Brecha Zero: Quais setores você acha que fizeram o melhor uso da tecnologia para enfrentar os obstáculos impostos pela pandemia?

Francisco Guzmán: O comércio, que foi um dos mais afetados no início da crise sanitária, alcançou um nível de adaptação muito relevante por meio do comércio eletrônico. Superadas as dificuldades logísticas que o setor enfrenta, principalmente no início do confinamento, houve empresas que cresceram mais de 100% em vendas, o que lhes permitiu manter-se atualizado e impulsionar suas empresas para a transformação digital.

O setor bancário também foi um dos setores que conseguiu se adaptar mais rapidamente. No Chile, este setor já vinha trabalhando em maior digitalização e acesso. Com a pandemia, esse processo se acelerou ainda mais graças ao e-commerce.

Além disso, é muito notável o que fez o setor da saúde, em que a telemedicina passou de piloto a realidade.

Brecha Zero: Até que ponto as TICs podem ajudar a enfrentar o processo pós-pandemia?

Francisco Guzmán: À medida que os diferentes setores produtivos incorporam novas tecnologias em seus negócios, poderão continuar operando de maneira flexível e atualizada em cenários adversos, bem como projetar-se no futuro incorporando novas tecnologias que tornarão seus processos mais produtivos e eficientes. É o caso de big data, IoT (internet das coisas) ou nuvem. Nesse sentido, as TIC serão fundamentais no futuro que se segue.

Brecha Zero: Quais setores você considera que saíram mais fortes no uso das TICs diante do pós-pandemia?

Francisco Guzmán:  São muitos os que se fortaleceram com o uso das TIC, como as indústrias de bens essenciais. Dado o aumento da demanda, eles tiveram que digitalizar suas fábricas, implementar big data e automatizar mais rapidamente, pois era a forma de otimizar a produção. Precisavam melhorar a logística, o que gerou, por exemplo, a chegada de novos centros de distribuição no país.

O Estado também foi um setor que se fortaleceu por meio de plataformas de consulta de dados e acesso a certidões, além da implantação da senha única como sistema de entrada. Como consequência, os usuários do sistema público foram beneficiados.

Brecha Zero: Considerando a importância da digitalização da economia no desenvolvimento dos países, como você avalia a situação do Chile nesse sentido?

Francisco Guzmán: Os números do Chile são muito bons em nível regional. A OCDE reconheceu o país no ano passado como aquele que mais digitalizou empresas durante a pandemia. Segundo dados do Ministério da Economia, só no ano passado foram mais de 352 mil.

Se forem medidos os elementos que compõem o desenvolvimento digital no Chile e seu impacto no PIB, a economia digital hoje representa 22,2% do PIB do país, segundo dados da Accenture, o que equivaleria a 55 bilhões de dólares. Isso dá ao Chile o primeiro lugar no Índice de Valor Econômico Digital para a região da América Latina, por seu nível de adoção de tecnologias digitais, aceleradores e talentos digitais.

A posição do nosso país na digitalização é muito boa, mas é importante continuar trabalhando para gerar oportunidades para muito mais empresas.

Brecha Zero: Como os serviços móveis ajudam no processo de digitalização da economia?

Francisco Guzmán: Ficou demonstrado que a transformação digital das organizações tem um claro impacto no crescimento e sustentabilidade da economia produtiva de qualquer país ou região. Nesse sentido, a ampla cobertura da infraestrutura de telecomunicações e conectividade digital foi um fator chave devido ao aumento exponencial do tráfego de Internet, impulsionado principalmente pelo teletrabalho, educação online e necessidade de se manter conectado. Essa conectividade foi fundamental para manter a operacionalidade das empresas, influenciando diretamente no funcionamento da economia do país.

Brecha Zero: Qual a importância de tecnologias como a 5G no desenvolvimento de uma economia digital?

Francisco Guzmán:  A baixa latência da 5G abre caminho para a conectividade em tempo real que permite às empresas melhorar a produtividade, eficiência e competitividade, promovendo outras tecnologias como IoT (Internet das Coisas), inteligência artificial, big data, automação de processos em robótica, nuvem, realidade virtual e aumentada, impressão 3D ou drones. Todas essas tecnologias serão os principais facilitadores da digitalização da economia com base em conectividade mais rápida e instantânea alavancada pela 5G.