A América Latina e o Caribe têm uma brecha digital importante a ser suprida

Entrevista com Elaine Ford, diretora fundadora do Democracia Digital

A evolução da digitalização da economia global é um caminho que já está em andamento, dessa forma, para poder participar de maneira ativa, a América Latina e o Caribe devem se preparar da melhor maneira. A criação de prêmios que estimulem diferentes setores da sociedade a potencializar a adoção digital está entre as maneiras de avançar nessa direção.

Elaine Ford, diretora fundadora do Democracia Digital

14Sobre os avanços da digitalização na América Latina e no Caribe e a importância do Prêmio Latino-americano Democracia Digital, assim como do Observatório Latino-americano Democracia Digital, o Brecha Zero conversou com Elaine Ford, diretora fundadora do Democracia Digital. Formada em jornalismo na Universidade Peruana de Ciências Aplicadas (UPC), conta com pós-graduação em Direito Internacional e Direitos Humanos na Universidade de Nottingham, Inglaterra, e Mestrado em Estudos Internacionais na Universidade do Chile.  Além de uma especialização em Inovação em Governo e Soluções Colaborativas na Harvard Kennedy School, Estados Unidos.

Brecha Zero: De modo geral, como avalia o processo de digitalização nos diferentes mercados da América Latina?

Elaine Ford: Em termos gerais, considero que a pandemia de Covid-19 forçou muitos de nossos países latino-americanos a impulsionar a transformação digital e priorizar o acesso à Internet a suas populações, sobretudo naqueles países onde ainda não se desfruta maior conectividade nas áreas rurais. Muito embora se tenha avançado no último ano, há um abismo digital importante a atender e isto significa também maior inclusão digital em termos de alfabetização, acessibilidade e outros aspectos relacionados.

Da mesma forma, na América Latina e no Caribe existem rotas diferenciadas nos processos de digitalização, quer dizer, alguns países vão encontrando o caminho para a consolidação e outros não alcançam resultados tão otimistas. Ainda há muitos desafios e limitações, por isso tanto governos quanto setor privado devem trabalhar em conjunto e unir esforços, seja com maior investimento, para a eliminação de barreiras ou para a implementação de infraestrutura.

O ano passado o International Institute for Management Development (IMD) publicou o ranking de competitividade digital em que analisou a situação de 64 países do mundo e a América Latina mostra certa desvantagem em comparação com outras regiões, com exceção de alguns países que souberam se adaptar e se empoderar no uso da tecnologia.

Brecha Zero: Quais são os governos que realizaram os maiores esforços para que seus mercados avançassem para a digitalização?

Elaine Ford:  Os países latino-americanos melhor posicionados no ranking de competitividade digital são o Chile e o Brasil, que enxergam nas tecnologias digitais um motor fundamental para a transformação econômica de suas empresas, governo e sociedade. Por exemplo, estão conduzindo grandes esforços para a implantação da 5G. De igual maneira, demonstraram importantes avanços tanto na adaptação de tecnologias para resolver problemas básicos, quanto na geração de um marco regulatório que facilite e permita este desenvolvimento.

Brecha Zero: Que importância têm as tecnologias móveis, particularmente a 5G, no processo de digitalização da região?

Elaine Ford: O uso da tecnologia móvel tem sido em muitos casos um salva-vidas, principalmente no contexto de pandemia e pós-pandemia, pois permitiu a continuidade das atividades sociais e econômicas ao representar uma das tecnologias mais acessíveis na região.

Segundo os dados do Newzoo, em 2021 a região latino-americana contou com uns 352 milhões de usuários de smartphones. Este número está em crescimento e por isso que é necessário seguir implementando diversos esforços para melhorar as condições de conectividade e infraestrutura. Destacam-se os casos do Chile e do México onde a implantação da 5G está em ascensão. Esta tecnologia já é uma realidade e entre suas notáveis vantagens se destaca a maior velocidade e rendimento pela largura da banda, um melhor consumo energético nos aparelhos móveis e, com isto, muito mais benefícios como maior inovação e desenvolvimento de novas soluções.

Brecha Zero: Qual é a importância do Observatório Latino-americano Democracia Digital?

Elaine Ford:  O Observatório Latino-americano Democracia Digital é uma plataforma na web que sistematiza e geolocaliza as boas práticas digitais em 19 países de língua espanhola na América Latina e no Caribe.

A relevância desta plataforma está na visibilização desses grandes projetos que buscam fazer uma contribuição à sociedade junto com a tecnologia, seja educando, informando, alertando, denunciando, criando soluções e serviços, facilitando a vida cidadã em diversos aspectos. Através do Observatório o que se busca é que estas boas práticas se repliquem e espalhem para além de seus âmbitos locais.

No momento, o Observatório reúne 83 projetos provenientes de 13 países impulsionados pelo setor privado, sociedade civil e cidadania, classificados em distintas áreas temáticas. Estes são os projetos concorrentes da primeira edição do Prêmio Latino-americano Democracia Digital. Nesse sentido, o Observatório irá se nutrindo, ano após ano, com as edições seguintes do concurso.

Podem navegar por nosso Observatório e conhecer mais sobre os projetos no seguinte link: https://democraciadigital.lat/observatorio

Brecha Zero: Na sua perspectiva, como a existência do Prêmio Latino-americano Democracia Digital beneficia o entorno digital?

Elaine Ford:  O Prêmio Latino-americano Democracia Digital é um concurso online e gratuito que promove as boas práticas digitais mediante o uso da tecnologia que está ao alcance da cidadania, a fim de atender as necessidades dos países e os requerimentos de suas populações.

As tecnologias digitais são transversais a todas as sociedades latino-americanas e nesta primeira edição do Prêmio se tem visto como têm servido para distintos propósitos em áreas como política e governabilidade, desenvolvimento e emprendimiento, assuntos sociais, inclusão e gênero, cultura, educação, saúde, segurança e meio ambiente.

É importante mostrar tudo o que se pode alcançar e como o entorno digital potencializa e facilita todos estes processos. Creio que é necessário reforçar este ânimo positivo de como através das redes sociais, um website ou um blog se podem atingir muitas coisas favoráveis com um impacto positivo. Além disso, projetos desta natureza permitem empoderar a cidadania e ajudar a consolidar as organizações da sociedade civil ou empreendimentos que possam surgir no nosso ecossistema digital latino-americano.

Na terceira semana de outubro de 2022 serão abertas as inscrições para a segunda edição do Prêmio Latino-americano Democracia Digital. Todos podem competir, os detalhes se encontram no web site oficial: https://democraciadigital.lat

Brecha Zero: Quais são as características de destaque dos ganhadores da primeira edição do prêmio?

Elaine Ford:  Os projetos ganhadores na primeira edição do Prêmio são três, que representam o primeiro lugar em cada uma das três categorias:

Amorfiesta (Colômbia), categoria cidadã, uma inovadora plataforma transmedia animada, que incentiva a participação juvenil e a reflexão coletiva sobre identidades, sexualidade, violência de gênero e saúde mental. https://amorfiesta.com/

Denuncia.org (México), categoria sociedade civil, uma plataforma que diz respeito à justiça às vítimas de crimes, fornecendo-lhes informação sobre como e onde realizar denúncias no país, de maneira fácil, acessível e amigável. https://denuncia.org

Los Info Hackers (Costa Rica), categoria setor privado, uma iniciativa que contribui com os esforços por reduzir a desinformação desde a infância, oferecendo um mundo narrativo através de um micro podcast voltado a meninos e meninas. https://bit.ly/LosInfoHackersMicrosSonoros

Além disso, foram concedidas 18 Distinções a diversos projetos por distintos méritos. Estas são iniciativas notáveis reconhecidas através de um árduo processo de deliberação comandado pelo Júri de Especialistas, que avaliam os projetos concorrentes. Finalmente, foram premiadas por seu nível de inovação e criatividade, pelos impactos que conseguiram alcançar e por sua funcionalidade.