A 5G será um agente transformador transversal da sociedade

Entrevista com Alejandro Navarrete Torres, Titular da Unidade de Espectro Radioelétrico do Instituto Federal das Telecomunicações (IFT) do México Parte II

A digitalização da economia é uma das metas que a maioria dos países da América Latina e do Caribe estão buscando alcançar. Os governos trabalham para desenvolver as condições necessárias para avançar nesse curso, entre as que se destacam está o desenvolvimento da 5G.

Alejandro Navarrete Torres, Titular da Unidade de Espectro Radioelétrico do IFT

Sobre estes temas, o Brecha Zero conversou com Alejandro Navarrete Torres, que desde 2014 é titular da Unidade de Espectro Radioeléctrico IFT do México, instituição na qual trabalha em diferentes cargos desde 2004. Formado em engenharia eletrônica e de comunicações, pela Universidade Iberoamericana na Cidade do México, conta com um mestrado em ciências com especialização em comunicações e processamento de sinais do Rensselaer Polytechnic Institute (RPI) em Troy, NY, nos Estados Unidos.

Brecha Zero – Considerando a importância da digitalização da economia para o desenvolvimento dos países, como você avalia a situação do México neste sentido?

Alejandro Navarrete Torres – Com abundância de oportunidades. Sempre existe um receio natural à mudança, mas sinto que há uma boa abertura. Nós do Instituto Federal das Telecomunicações aqui do México criamos um comitê sobre a 5G, e dele participam, por exemplo, a Secretaria de Economia, empresas mineradoras e automobilísticas, além dos prestadores de serviços e fornecedores de telecomunicações.

Porém, além dos agentes esperados, os usual suspects -os suspeitos de costume- há outros atores que estão começando a entender como tirar proveito da 5G. Estamos vendo cada vez mais o surgimento de cidades inteligentes. Sistemas de monitoramento das ruas, semaforização, vigilância, acesso gratuito à internet com redes de WiFi públicas, esses são alguns exemplos que são produtos de uma série de processos que estão acontecendo nos últimos dois anos de uma maneira particularmente acelerada.

Brecha Zero – De que maneira os serviços móveis ajudam no processo de digitalização da economia?

Alejandro Navarrete Torres – Imensamente! Por exemplo, podemos dividir a 5G em duas grandes frentes: para os fornecedores de telefonia móvel e serviços de comunicação; e a 5G para as verticais, ou seja, tecnologia 5G diretamente para a indústria, para determinadas aplicações.

Faz algumas semanas que o Instituto autorizou uma implantação de 5G em uma zona arqueológica muito importante do sudeste do México para possibilitar o uso de realidade virtual. Dessa forma, quando implementada, será dado ao visitante um visor ou algum dispositivo particular para que esta experiência de visitar uma zona arqueológica de grande extensão possa ser enriquecida. Tudo isto através da 5G.

Então, implementações da 5G e alocações de espectro de 5G especificamente para empresas e para iniciativas como a que acabo de comentar vão ser muito importantes. Isso é um grande divisor de águas quando comparado a gerações prévias, porque tipicamente, da 1G até a 4G, o espectro era para operadoras móveis, e agora já não é mais necessariamente.

As operadoras móveis têm e seguirão tendo um papel muito importante no trabalho com a tecnologia 5G, mas também vão haver alocações específicas de 5G para empresas de diferentes setores que poderão tirar muito mais proveito destas tecnologias.

Brecha Zero –  Quais são as verticais nas quais você percebe um maior interesse na 5G?

Alejandro Navarrete Torres – Eu diria que estão associadas aos setores industriais mais importantes ou de maior desenvolvimento. Por exemplo, a indústria mineradora e a automobilística. Pensando no futuro, um dos pilares do México é a indústria automobilística, e essas empresas estão muito interessadas na tecnologia 5G.

Também podem ser operações portuárias, a automatização de portos. Por fim, o  entretenimento vinculado à realidade virtual ou realidade aumentada. Há uma grande oportunidade para o desenvolvimento de aplicações de 5G aí.

Dessa maneira, é crucial que a Secretaria da Economia esteja no comitê, além da Secretaria de Infraestrutura, Comunicações e Transporte, porque a primeira é o vínculo a outros setores industriais diferentes das telecomunicações, assim eles passarão a entender como podem aplicar estas tecnologias. Este comitê é de desenvolvimento, e podemos dizer que também é de evangelização, porque queremos que os indivíduos conheçam quais são as oportunidades e benefícios da economia digital em todos os setores: o educacional, o governamental, o de produção de bens e serviços em geral, a ideia é tirar o maior proveito da tecnologia. Certamente, há desafios para a implantação de infraestrutura, para investimentos e outros que se canalizam por meio do comitê, onde os interessados podem fazer recomendações ao controlador no que chamamos de regulação colaborativa, que permite que possam saber em primeira mão se há barreiras artificiais ou regulatórias para remover que permitam facilitar a implantação de redes 5G.

No México acreditamos que a 5G vai ser um catalisador, não só do setor de telecomunicações, mas sim um agente transformador de maneira transversal em todos os setores: sociais, econômicos e industriais.