A 5G representa uma mudança absoluta no bem estar das pessoas

Entrevista com Gerardo Flores, Consultor Independente, Parte II

A nova geração de banda larga móvel, a 5G, apresenta muitas oportunidades para o desenvolvimento da economia de cada um dos mercados da América Latina, pode ser vista como um instrumento de melhora das condições de vida de seus habitantes. As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) geram o mesmo benefício potencializando as condições de competitividade dos mercados da América Latina.

O Brecha Zero apresenta a visão de Juan Gerardo Flores Ramírez sobre esses temas. Gerardo é Economista formado no Instituto Tecnológico Autónomo de México (ITAM); fez seu mestrado em Ciências Econômicas na Universidade de Warwick no Reino Unido. Atualmente presta serviços como consultor independentes em aspectos regulatórios das telecomunicações e desenho e instrumentação de políticas públicas.

Foi Senador da República, de 2012 a 2018, onde atuou como secretário da Comissão de Comunicações e Transportes e membro das comissões de Rádio, Televisão e Cinematografia, Relações Exteriores e Educação. Teve participação central na reforma constitucional e legal em matéria de telecomunicações, bem como nas reformas do setor de geração de energia e reformas educacionais. Além disso, de 2009 a 2012, foi Deputado Federal, responsabilidade na qual atuou como Presidente da Comissão de Rádio, Televisão e Cinematografia e como Secretário das Comissões de Comunicação e Energia. Anteriormente, atuou como funcionário do governo federal por 12 anos, principalmente na  Comisión Federal de Telecomunicaciones (COFETEL), onde foi consultor do presidente do órgão regulador e Director General de Licitaciones del Espectro Radioeléctrico.

Essa é a segunda parte da entrevista de Gerardo Flores:

Brecha Zero : Do ponto de vista governamental, como a adoção das TIC para alavancar o desenvolvimento pode ser aprimorada?

Gerardo Flores: Do ponto de vista de usabilidade, parece-me que houve alguma desordem por parte dos governos municipais, que tentaram usar esse tipo de ferramenta. O uso da vigilância por vídeo aumentou, mas a insegurança também aumentou.

No México, temos casos em que houve investimento em videovigilância, acordos estão sendo feitos com muitas operadoras para fornecer, por exemplo, acesso gratuito à banda larga que poderia ser melhor utilizada. Foram feitos esforços incipientes e meio confusos, e acho que é uma grande oportunidade para serem melhor utilizados no México.

O potencial é enorme: lidar com os semáforos, lidar até com as rotas de transporte público, há um grande potencial que acho que não estamos aproveitando. Por exemplo: algumas instituições, até aquelas situadas nos Estados Unidos, poderiam compartilhar conhecimento, no campo da pesquisa, com as cidades de nossos países para poder implementar melhor essas estratégias. Isso se houver esforços por parte do México que apontem nessa direção, mas me parece que eles ainda estão um pouco desordenados.

Brecha Zero :  E no uso especifico da banda larga móvel para o desenvolvimento da sociedade?

Gerardo Flores: Recentemente, me deparei com um caso muito particular, como é de conhecimento geral, após a reforma das telecomunicações em 2013, a Constituição incorporou a obrigação ao Estado de implantar uma rede de banda larga atacadista, que está em processo de implantação.

Recentemente, conheci um esforço muito particular de investidores locais no estado de Tabasco, que formaram uma empresa local, uma MVNO que começará a oferecer serviços de banda larga móvel e fixa alocados nessa rede. Eles estão começando no estado de Tabasco, mas com foco em Chiapas, ou seja, são dois Estados  não considerados como mercados prósperos. São dois estados em que a renda per capita está abaixo da média nacional. Especialmente em áreas rurais. E eles estão olhando para esses mercados e estão muito otimistas. Até agora, eles não usaram nenhum centavo de recursos públicos, não chegaram a exigir nenhum tipo de apoio fiscal e estão prestes a lançar o serviço. Veremos como se sairão. Em Tabasco há atividade moderada de petróleo e estão pensando em como articular serviços para esse setor por meio de sensores e dispositivos de medição que podem ser montados nessa rede.

Portanto, esse é um caso muito particular, e eu desejo que eles se saiam muito bem, para serem um exemplo de como um esforço nacional pode ser articulado com esforço local, especialmente em áreas onde a perspectiva de negócios não é tão promissora.

Brecha Zero :  Como o setor de telecomunicações direciona o uso das TIC para o desenvolvimento?

Gerardo Flores: Não tenho certeza de que eles estejam fazendo sua parte. Eu os vejo mais focados em vender linhas, em vender o máximo de dados possível. Mas eu não os vejo com um esforço mais amplo de alfabetização. Existe uma oportunidade, que pode ser uma falha de mercado, e pode-se pensar que uma solução pode ser algo combinado entre esforço público e privado. Porque as oportunidades de usar essas redes de novas maneiras de exploração de serviços lá oferecidos, já estão presentes hoje.

Ou seja, mesmo quando não há 5G, há um desperdício das oportunidades dessas redes. E especialmente em algumas áreas que não são cidades ou áreas urbanas. Mesmo em áreas urbanas, talvez seja um denominador comum em muitas cidades da América Latina e em muitos países, onde um smartphone é usado para mensagens, compartilhamento de vídeo, acesso a vídeos, redes sociais etc.

No México, vejo na Cidade do México um certo grupo de pessoas que já possuem casas inteligentes, mas essa ainda é uma solução um tanto quanto onerosa para a maioria das casas no México. Mesmo assim, existem “coisas” que eu acho que poderiam até ser implementadas de maneira comunitária e teriam seu custo reduzido individualmente para muitos, se soubessem todo o potencial latente. Então, acredito que há muita falta de alfabetização ou campanhas informativas mais profundas.

Brecha Zero :  O que você acha que a 5G contribuirá para o desenvolvimento dos países?

Gerardo Flores: Mais do que contribuir, é um ecossistema que representa uma mudança absoluta no que diz respeito à maneira como as pessoas podem acessar graus mais elevados de bem-estar, por meio de ferramentas como telemedicina e tele-educação.

No México, temos áreas muito atrasadas na parte educacional. Isso é algo que pode nos ajudar, principalmente porque somos sociedades nas quais os recursos públicos são escassos, porque grande parte da despesa é comprometida com o pagamento de dívidas, com o pagamento de programas que já estão em andamento e que são difíceis de serem extintos. E acho que o ecossistema 5G poderia ajudar governos latino-americanos a economizar muito na prestação de alguns serviços.

Há um caso muito particular, por exemplo, eu conheci recentemente um mamógrafo móvel, isso é um problema na América Latina, porque as mulheres precisam se deslocar para um centro onde há uma grande equipe onde realizam esses estudos. Há uma mudança tecnológica, na qual eles já desenvolveram mamógrafo móveis que são de fácil locomoção e que, com o uso de dispositivos móveis, podem simplificar bastante a atividade de médicos e até de mulheres que precisam ter acesso a esse serviço.

Mesmo na área da saúde, as oportunidades são muitas, é preciso mudar um pouco a mentalidade. Porque hoje existe uma ideia equivocada de que investir nisso é oneroso e é na verdade um investimento que permitirá que você pare de gastar de forma ineficientes de outras maneiras. Existem casos muito específicos, e acho que, na parte da saúde, poderíamos ganhar muito diminuindo a carga de trabalho dos médicos e diminuindo muito o tempo e o esforço por parte das famílias.