A 5G possui características para mudar a qualidade de vida da população

Entrevista com José Gontijo, Diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações do Brasil. Parte I

As tecnologias da informação e comunicação (TIC) são ferramentas poderosas na mudança da realidade dos países. A pandemia da Covid-19 mostrou a necessidade de aumentar os esforços para digitalizar a sociedade e seus benefícios potenciais.

José Gontijo, Diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações do Brasil.

Sobre esses temas, o Brecha Zero conversou com José Gontijo, que é Diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) do Brasil, cargo que ocupa desde 2016. Desde 2007 ocupou diferentes posições no mesmo departamento. Anteriormente, durante quatro anos, trabalhou na gestão de engenharia de espectro da ANATEL.

Brecha Zero: Quão importante foi a TIC para enfrentar a pandemia provocada pela Covid-19?

José Gontijo: […] o mundo, não só o Brasil, estava em um processo de adoção das tecnologias digitais em uma velocidade muito rápida. Com a pandemia, essa adoção se acelerou muito, não só no tipo de tecnologia (adotada), mas principalmente entre as camadas da população.

E neste ponto não estou falando apenas da população de baixa renda, estou falando de pessoas que não se interessavam pelo uso da tecnologia, como os idosos, as pessoas da zona rural, as crianças que não utilizavam e começaram a utilizá-la  para videoconferências. Houve uma aceleração imensa, por parte das pessoas, no uso das tecnologias […] a tecnologia possibilitou estudar, manter relações sociais, trabalhar remotamente, tudo graças a sua adoção.

Mas também revelou outras questões; deixou claro que a exclusão digital era global, não apenas no Brasil. E aí quando falo do mundo, me refiro ao planeta inteiro, mesmo os países de primeiro mundo possuem certas regiões com nenhuma cobertura em infraestrutura de telecomunicações, isso ficou muito evidente. Isso levou as lideranças públicas a começarem a resolver esse tipo de problema.

Além disso, pessoas que nunca tiveram contato com o mundo digital, ou que tiveram um contato muito incipiente, passaram a usar home banking, videoconferência e outros serviços digitais. Isso permitiu a exposição do consumidor a esses serviços. Desta forma, as TICs foram de grande importância para permitir que a vida seguisse, mesmo que por meio de um virtualização híbrida.

A pandemia também teve como foco grandes desafios que sempre foram discutidos em relação ao uso das tecnologias digitais, que precisam ser revistos. Porque hoje com essa adoção massiva que ocorreu, e que continuará após a pandemia, será necessário atingir áreas sem cobertura de telecomunicações, capacitar as pessoas para que se conscientizem do uso das tecnologias em seu benefício e trabalhar na segurança de acesso. No Brasil, tivemos ataques à segurança de órgãos públicos, como tribunais superiores e no tesouro nacional e empresas do setor privado também receberam ataques. Por isso, é necessário ter uma abordagem não apenas reativa, mas também preventiva a esses ataques.

Assim, a importância das TICs na pandemia pode se resumir nesses dois momentos: um para integrar a sociedade com as mais diversas atividades, e também para que aproveitando a relevância das TICs, maiores políticas públicas sejam desenvolvidas nesse sentido.

Brecha Zero: Quais vantagens apresentaram as conexões aos serviços móveis?

José Gontijo: O Brasil tem um estudo sobre o acesso que monitora a incidência de banda larga e o tipo de conexão de cada cidadão. Em 2012 contávamos com 16% dos domicílios conectados, agora entre julho e agosto de 2021 a mesma pesquisa foi realizada, e o resultado foi que mais de 80% dos domicílios brasileiros estão conectados à banda larga, a maior parte móvel.

Quando falamos sobre 3G em meados de 2014, a 4G ainda estava começando e as primeiras redes 4G ainda não haviam sido implantadas, imaginamos que a banda larga móvel seria um grande divisor de águas. Mas na realidade não imaginamos que chegaria um momento em que a banda larga móvel teria as mesmas, ou melhores condições, que a fixa dependendo da região do país. Com a 5G isso ficará claro, como dizem, da fibra para o celular.

A 5G conta com facilidades de implementação, passando pelos benefícios que a mobilidade proporciona, serviços como a Internet das coisas (IoT), e […] outras aplicações pensadas no campo da indústria, saúde , agronegócio,  até a própria mobilidade para prestação de serviços nas cidades. É possível determinar que as comunicações móveis serão uma ótima ferramenta a serem utilizadas. Obviamente, grandes redes de fibra serão necessárias para transportar esse tráfego móvel. Mas as soluções móveis vão ter a agilidade e o baixo custo necessários para realmente mudar a qualidade de vida da população.

Brecha Zero: Quais setores da economia tiraram o melhor proveito da pandemia?

José Gontijo: Tenho certeza que o Brasil conseguiu monitorar diferentes setores de forma muito clara. Na minha área, que é o Ministério, nós monitoramos a indústria de chips, porque concedemos alguns benefícios, acompanhamos investimentos e pesquisas, então temos informações muito precisas sobre essas empresas.

Então a gente vê que o microcomputador bateu recordes de vendas, as pessoas compram muitos notebooks, muitos PCs . Esse crescimento foi limitado pela oferta de insumos internacionais, caso contrário,  teriam vendido muito mais. As empresas que contavam com estoque de suprimentos para aparelhos de informática dispararam suas vendas, multiplicando seus lucros em alguns casos em até 1000%.

As operadoras de telecomunicações tiveram que fazer grandes investimentos devido à alta demanda de seus clientes. Eles tiveram uma experiência bastante interessante. Para colocar no meu caso específico, eu tinha um padrão de consumo de dados de 20 ou 30 GB por mês, com o desenrolar da pandemia minha esposa e meus filhos passaram a utilizar o acesso remoto, continuaram com teletrabalho, videochamadas, entretenimento virtual e passamos a consumir mais de 240 GB por mês; Agora que meus filhos voltaram ao ensino presencial, o consumo não voltou aos 30 GB, mas se estabilizou em 120 GB ou 130 GB, porque eles se acostumaram a usar tecnologias digitais para interagir, conversar com os amigos e realizar uma série de outras tarefas. Portanto, as operadoras de telecomunicações também se beneficiaram muito, porque muitas pessoas tiveram que mudar seus planos de dados. Porque a certa altura achei que voltaria a consumir 20 ou 30 GB novamente, mas não aconteceu, acabamos nos adaptando a um consumo maior. E quando chegarmos na 5G, isso também vai acontecer.

Por esse motivo, acredito que a indústria de terminais de telecomunicações se beneficiou muito. As operadoras a cabo também implantaram muita fibra durante a pandemia, à medida que buscavam alcançar regiões menos densamente povoadas para poder oferecer banda larga. Portanto, as operadoras, grandes e pequenas, e os provedores de fibra contaram com um impacto positivo durante a pandemia.