5G é a tecnologia que permitirá à América Latina dar um salto produtivo

Entrevista com Paul Fervoy, presidente da CAMTIC da Costa Rica. Parte II

Os diferentes mercados da América Latina trabalham para desenvolver a economia digital, o trabalho dos governos para atender às novas demandas produtivas globais é constante. Neste quadro, as tecnologias de banda larga móvel permitem um progresso significativo.

Paul Fervoy, presidente da CAMTIC da Costa Rica

Sobre esta situação, o Brecha Zero conversou com Paul Fervoy, presidente da Câmara de Tecnologias da Informação e Comunicação (CAMTIC) da Costa Rica. Com 27 anos de experiência no setor de tecnologia digital na América Latina e Estados Unidos, desenvolveu projetos para o Banco Mundial, Nações Unidas, GEF, The Nature Conservancy, USAID, entre outros. Paul, também faz parte do conselho de administração como consultor de startups na Costa Rica, é Mentor do Founder’s Institute e é professor na ULEAD da Costa Rica.

Brecha Zero: Como você avalia o processo de digitalização da economia na Costa Rica?

Paul Fervoy: Pensamos muito na economia digital, como indústria e como câmara, motivamos o país a solicitar adesão ao que é conhecido como Digital Economy Affiliation Agreement (DEPA). Este foi um acordo inicialmente que Chile, Cingapura e Nova Zelândia firmaram para desenvolver estruturas de cooperação internacional e tratados de economia digital.

A Costa Rica precisa estar integrada economicamente com outros países, o tamanho de nossa economia nos obriga a buscar normatizar a forma como operamos, enquanto país, para que possamos estar de acordo com os padrões econômicos internacionais. Nesse acordo internacional, o DEPA exige a criação de certas condições para estar de acordo com os padrões internacionais, a fim de participar de forma mais livre e ágil nesses mercados.

Nesse sentido temos essa orientação, a realidade no dia-a-dia dos costarriquenhos, no entanto, é que em alguns espaços houve avanços, por exemplo, nas assinaturas digitais e em outros casos foram poucos avanços. Então, a pandemia nos motivou a acelerar esse processo de uso dessas ferramentas, às vezes pensava-se que o problema era a tecnologia que não estava lá, mas depois se vê que é mais uma questão de vontade, da urgência com que a gente consegue fazer alterações para as quais já temos as ferramentas.

Brecha Zero: Dentro das ferramentas e mudanças exigidas pela economia digital, quais são as propostas que a CAMTIC realizou?

Paul Fervoy: Eu mencionei, por exemplo, o acordo DEPA, existem outros semelhantes, temos vários acordos de comércio internacional, onde as cláusulas sobre comércio digital não estão presentes, então a modernização ou atualização dos acordos comerciais existentes com essas novas cláusulas seria parte do que estamos procurando.

Os acordos internacionais entre as indústrias devem ser colocados em ordem, depois que se tem clareza sobre os parâmetros sobre os quais estamos operando com outras economias ou países, precisamos que as indústrias também se adequem. Quando falamos sobre o caso em que a indústria TIC está procurando esse talento em outros países, precisamos planejar como fazer isso. Não vale a pena que uma empresa internacional contrate recursos diretos para a Costa Rica e, depois que esses recursos permaneçam informais, desapareçam do radar. Nem a empresa costarriquenha que contrata em um país vizinho delega condições de trabalho lá, precisamos promover essa reciprocidade como indústrias e câmara, é uma obrigação que temos com nossa própria sociedade, mas também ao lidar com nossos vizinhos.

Um exemplo com a CAMTIC é que, neste momento, estamos desenvolvendo uma iniciativa com El Salvador, com a câmara de comércio, justamente para isso, para ver quais são as regras do jogo para obedecer a essa transparência e formalidade que se exige. Parte disso é a informação, além de nos conhecermos uns aos outros, mas também temos que ter atores dispostos a seguir as regras e entregar um bom serviço, e não cair em planos onde ninguém acaba se beneficiando. Desta forma estaríamos desgastando um país ou outro dos seus recursos humanos e fiscais, o que, evidentemente, deve ser evitado.

Então, quando vemos as oportunidades juntas, como com os vizinhos Panamá e Salvador, explicamos a eles que temos muito mais oportunidade de exportar da Costa Rica, mas o jeito de exportar é nos associarmos com empresas de seus países para também tocar parte da cadeia de valor para que possamos exportar mais.

Na CAMTIC insistimos que a melhor forma de exportar nem sempre é a empresa buscar capital humano, ou parceiros no país de destino local, ou procurar formalmente constituir uma empresa em outro país, exatamente para evitarmos estes cenários. Acho que essas iniciativas de reciprocidade entre países vizinhos é uma contribuição importante.

Brecha Zero: Em relação aos serviços móveis, principalmente a 5G, quanto eles contribuíram para o desenvolvimento da economia digital na Costa Rica?

Paul Fervoy:  Quando pensamos em indústria, primeiro você tem que fazer uma distinção, a separação são os casos de uso industrial de 5G versus mais casos de uso do consumidor. Os casos de uso do consumidor é algo que tem que esperar para acontecer, por causa das frequências e licitações, e depois criar a infraestrutura, que ainda vai demorar alguns anos. Acho que podemos pelo menos testar casos de uso industrial, onde fábricas e centros de desenvolvimento podem usar 5G de maneiras que mudam a natureza de como essas empresas operam.

Então essa mudança de aplicação da 5G na indústria seria a primeira mudança e vai ter ganhos de produtividade que não conseguimos de outras formas. No sentido de que quando se olha para as taxas de produtividade e se olha para os países da OCDE, agora a Costa Rica é um novo membro, porém, nossos níveis de produtividade são muito inferiores em comparação a outros países mais desenvolvidos. A razão em parte se deve ao uso de tecnologias, e é evidente que o custo de fazer mudanças em nossas indústrias é difícil, os investimentos que elas realizam não são dessa natureza.

As mudanças na tecnologia permitem que você dê um salto, não tendo que percorrer toda a trajetória das tecnologias anteriores e alcançar seu vizinho, mas introduzir a próxima e dar um salto para um novo patamar. A 5G é uma tecnologia de salto, o que para a América Latina, é uma oportunidade de dar um salto e não percorrer o mesmo caminho de outros países que desenvolveram suas indústrias com outras tecnologias.

O exemplo perfeito é o que aconteceu com o celular, a telefonia fixa tinha uma taxa de inflação péssima na América Latina, o celular chegou e em poucos anos tudo que nunca foi resolvido com a telefonia fixa foi resolvido. Precisamos investir para fazer o que eles chamam de dar um salto para a próxima geração de tecnologias, agora, caso contrário, essas lacunas de produtividade com os países desenvolvidos não serão fechadas, porque não vamos seguir o mesmo caminho para alcançar níveis iguais aos deles.