As Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) apresentam diversas alternativas para melhorar as condições de vida dos cidadãos. Em muitos casos, as redes colaborativas apresentam uma oportunidade para o compartilhamento de informação em temas de emergência e alertas naturais ou de doenças.

Neste sentido, a UNICEF conta com diferentes aplicativos em TIC e em seu desempenho cotidiano, entre eles o U-Report. Trata-se de uma plataforma desenhada para promover a troca social de forma positiva com a mobilização e participação de jovens e adolescentes em todo o mundo, abordando questões de interesse público. É aberta e gratuita, e permite acessar por meio do Twitter ou do Facebook.

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Victoria Maskell, Zika U-Report Engagement Contractor na UNICEF LACRO

Sobre seu funcionamento, assim como implementação do U-Report na América Latina, o Brecha Zero converou com Victoria Maskell, que atua como Zika U-Report Engagement Contractor na UNICEF LACRO:

Brecha Zero: Quais são as principais vantagens que promove a plataforma U-Report?

Victoria Maskell – A missão da U-Report é promover a troca social, envolver os jovens e adolescentes nas decisões que vão afetar suas vidas, seu desenvolvimento, seu futuro e o desenvolvimento de seu país e do mundo. Assim, os três objetivos de U-Report são: ser escalável, o compromisso do usuário para falar sobre coisas que importam, e tratar das mudanças sociais.

A vantagem principal para a UNICEF é que damos voz aos jovens e adolescente para que sejam ouvidos, para que as suas opiniões façam parte dessas decisões tão importantes. Eles têm o poder de falar sobre doenças, no caso dos furacões, possuem acesso à informação necessária para protegerem-se contra um episódio, e todo tipo de tema.

Outra coisa é que, é por meio de seus telefones mantemos um diálogo direto, conversamos com esses U-Reporters. Podemos mandar informação, receber informação, e envolvê-los em um diálogo, gerando conversas um a um. Ou ainda, apresenta essa possibilidade tão importante de atingir muitas pessoas simultaneamente, ou também de fazê-lo em um diálogo individual.

Brecha Zero: Qual a importância para a UNICEF deste tipo de redes colaborativas?

Victoria Maskell: É muito importante. Existe um movimento bastante grande dentro da UNICEF de mobilizar os jovens como agente de mudança, em considerar que eles são o futuro. Entendemos que uma grande porcentagem dos jovens usa a rede social em sua vida cotidiana, embora a U-Report faça parte de nossa estratégia de alcançar esta faixa da população, por essa razão para nós é a chave.

Por exemplo, no tema da ZIKA enviamos informações sobre a doença para os jovens. No entanto, às vezes realizamos ações com nossos sócios, com os ministérios de saúde dos países, ou seja, realizamos ambas as coisas ao mesmo tempo.

Também perguntamos aos U-Reporters quais são as barreiras no momento de fazer a prevenção. Aproveitamos essa informação para realizar retoques aos nossos programas e depois os retroalimentamos para que vejam como sua informação ajuda nossa proposta. Assim, gera uma via de mão dupla, que é importante.

Os furacões Irmã e Maria permitiram aproveitar muito o U-Report para mandar e receber informação, e também na parte do diálogo, com perguntas individuais. Em duas semanas o espaço contava com cerca de respostas para mais de 8 mil perguntas individuais. Antes do Maria tivemos um pico de mais de 4 mil perguntas para responder.

O importante é que, ao ser por meio de uma rede social, não é uma voz que chega aos jovens como institucional, é uma voz mais familiar que eles querem escutar e com uma informação fidedigna. Gera-se esse equilíbrio entre as duas coisas, e isso é muito poderoso, o que é impossível fazê-lo sem as redes e a informação.

Brecha Zero: Quais países estão mais avançados no uso da plataforma na América Latina?

Victoria Maskell: É importante diferenciar que existe uma plataforma global e também plataformas dos países. Na região temos cinco países que têm suas próprias plataformas, que apresentam outras vantagens, porque parte dos países podem envolver os temas com mais profundidade, podem ter o contexto, ter a colaboração das autoridades.

Nessas plataformas dos países, está o México que possui uma grande quantidade de U-Reporters, cerca de 40 mil que podemos aproveitar seu uso para ajudar nos terremotos. Em El Salvador, tem muitos poucos U-Reporters, cerca de 2 mil porque foi lançado há pouco, mas foi utilizado de maneira muito interessante para tratar o tema da Lei do matrimonio infantil.

Na plataforma global existem até 20 mil U-Reporters na República Dominicana, e isso ocorreu justamente depois do furacão, antes desse momento tínhamos poucos, cerca de 600. Mas ficou demonstrado que quando o tema é interessante para o país, aumentam os usuários.

Em Honduras, com o tema da Zika, eles aproveitam a plataforma global, e tem ao redor de 1.500 U-Reporters. Lá eles têm oficinas de adolescentes sobre o tema da infecção por Zika, e usam isso para acompanha-los, para fornecer informações aos disseminadores sobre questões relacionadas à doença.

No Brasil existem entre 6 mil e 8 mil U-Reporters, que os usam com temas variados como Zika, educação sexual, etc. Assim, depende um pouco de país para país e de suas condições.

Brecha Zero: Quais condições são necessárias para que a plataforma se desenvolva de forma bem-sucedida nos mercados?

Victoria Maskell: É uma resposta para analisar tanto pela plataforma global quanto pela plataforma do país. Nesta última, é imprescindível trabalhar com os sócios, com os Ministérios de Saúde, de Educação, ou com qualquer sócio para implementar um programa, é a chave para assegurar que a informação tenha os resultados que queremos.

Se considerarmos a plataforma global, é importante assegurar que estamos falando do que os jovens querem falar. Ou seja, não coisas que importam somente para a UNICEF, mas também aos jovens, por nosso meio, e podemos aproveitar suas vozes.

Esta é a chave, e não é normal em cada rede social. É importante falar do que interessa ao público. Por isso, de vez em quando perguntamos quais são os temas que interessam, porque é a chave para essa retroalimentação. Também perguntamos por meio da informação que enviamos, se o usuário muda de comportamento para verificar se a ação foi boa e para conhecer o que precisa melhorar. Mas também podemos compartilhar essa informação com nossos sócios, para melhorar a qualidade de informação que se oferece.

Brecha Zero: De que maneira podem colaborar os governos da região com este tipo de iniciativas?

Victoria Maskell: Por meio da plataforma global não tanto, porque não existe uma relação com cada governo. Mas com diferentes fóruns onde nos aproximamos dos governos. Nos países trabalha-se muito próximo dos ministérios, trabalha-se o dia-a-dia para apoiar aos diferentes programas que temos da UNICEF e que tem os sócios. Ou seja, vai de encontro com trabalhos anteriores, com relações que já existem, as que se agrega ao U-Report.

Brecha Zero: Como foi a experiência da plataforma na luta contra o vírus da Zika?

Victoria Maskell: Quando começamos com o tema da Zika foi de plataformas globais. Nos serviu para avaliar o conhecimento da população e aprendemos muito com as falhas de informação. Assim, a partir disso, começamos a mudar a comunicação por meio das redes sociais para falar muito mais dos problemas de transmissão sexual da população, das consequências da Zika e do porquê ela é diferente da dengue e da Chicungunha , assim como suas consequências em mulheres grávidas e em seus bebês.

Também criamos um centro de informação sobre a Zika, onde podemos receber informação sobre a doença a qualquer momento. Se alguém está registrado na plataforma e se envia a palavra Zika, recebe a informação atualizada, e a partir daí a seleção que este tipo de informação necessita. É assim que buscamos preencher essa lacuna de conhecimento.

Agora, observamos que existem diferentes conhecimentos de acordo com cada país, que existe mais informação sobre o tema Zika. Para apontar para isso, estamos organizando palestras ao vivo sobre o tema, para que possam perguntar qualquer coisa que queiram e nós teremos especialistas que respondem em tempo real, e com a experiência que já temos em eventos deste tipo, sabemos que existem pessoas que vão perguntar sobre a Zika, mas que também irão perguntar sobre saúde sexual, sobre outras doenças relacionadas ao mosquito, entre outros. Por isso temos que garantir que todos os U-Reporters tenham toda a informação que necessitam e lhes interessa.

Em alguns países, como Guatemala e El Salvador realizaram à sua maneira, porque têm suas próprias plataformas de país. Ou seja, poderia refinar um pouco mais as suas propostas com a informação que receberam de seus próprios U-Reporters, como por exemplo os problemas de falta de conhecimento sobre transmissão sexual, falou-se com os sócios para ver como eles podem transmitir  esse conhecimento.

Brecha Zero: Quais ações são realizadas para incorporar U-Reporters?

Victoria Maskell: Isto também é feito de país a país e pela plataforma global. Nesta última se potencializa a partir das redes sociais. Ante um feito particular oferecem-se informações na rede social. Assim, o usuário em quatro passos pode acessar a informação e fazer parte da plataforma. Também nas plataformas do país, faz-se muita dessa promoção por meio de eventos, por meio das redes já criadas com os adolescente e jovens.