O potencial das redes sem fio nas áreas rurais não se limita a reduzir a exclusão digital. Uma abordagem que combina a cobertura de banda larga móvel com programas com foco no desenvolvimento social permite aproveitar dispositivos e aplicações para minimizar outras exclusões como, por exemplo, a inclusão financeira.

Um estudo de caso publicado recentemente pelo acadêmico César Rentería do Centro de Investigação e Docência Econômica (CIDE) do México, aponta evidencias sobre como uma aplicação de dinheiro eletrônico permite, por meio de dispositivos móveis, aproximar o sistema bancário à uma população rural que tipicamente não se encontra bancarizada.

Em seu estudo, Rentería analisa os resultados do “Projeto para Pagamentos Móveis” realizado pela Telecomunicaciones de México (Telecomm), um órgão público com faculdades de oferecer serviços de comunicações sem cobertura comerciais. A investigação revela que os lugares que participam do projeto têm seus gastos reduzidos, principalmente em transporte público e haviam evidências, ainda não conclusivas, de geração de poupanças nas contas bancárias comtempladas pelo programa.

O projeto se estendeu até 2012 em quatro comunidades rurais do município de Santiago Nuyoó, em Oaxaca, um dos estados do México com a maior porcentagem da população vivendo em condições de pobreza. Esses locais estão à 52 Km de distância da zona urbana mais próxima, Tlaxiaco, e a mais de 200 Km da capital Oaxaca . Este é um povoado com menos de 5 mil habitantes habitado por 25% da população mexicana.

Em síntese, o programa de Telecomm oferece para a população adulta uma assinatura móvel habilitada para realizar chamadas, enviar SMS dentro de uma rede local limitada para quatro comunidades. O serviço também está habilitado para o uso de dinheiro móvel, que permite realizar serviços de banco eletrônico, pagamentos entre pessoas, remessas e recepção de transferências governamentais. Em troca, os participantes pagavam uma mensalidade de aproximadamente US$ 7,75 pela assinatura e tinham que abrir uma conta em banco. Rentería explica que 8 em cada 10 habitantes se inscreveram no programa e que nestas comunidades a adesão diária das comunidades era de US$ 9,51.

Os resultados indicam que as casas reduziram gastos das áreas principais: transporte público e comunicações. Os resultados mostram que a aplicação de banda larga móvel permitiu aos habitantes reduzir sua dependência em viagens para as cidades e em ligações telefônicas quando o propósito da atividade era obter informações. E ainda que o programa não mediu a transferência de recursos e gastos como vestimentas, a evidência sugere que graças à redução de gastos, os habitantes agora podem salvar ao menos US$ 5,19 ao mês na conta bancária. Esta economia mínima de cerda de US$ 60 anuais não era possível anteriormente, o que indica que o impacto direto da bancarização por meio de dispositivos móveis em melhorar a vida de famílias de baixa renda.

O estudo conclui que a redução e gastos em transporte e comunicações são indícios de que o programa habita comunicações para além da rede local, os habitantes tiveram a oportunidade de poupar mais. Em outras palavras, a aplicação de banda larga móvel permitirá ter acesso à informação, sem se mover ou telefonar para as zonas urbanas, que antes estava limitada ao âmbito bancário e financeiro. Portanto, uma fase sem restrições a uma rede local e acesso à Internet móvel poderia ter um impacto profundo sobre essas variáveis.

Este caso derivado do México rural aporta uma evidência empírica sobre como as tecnologias móveis podem ser um veículo de soluções de inclusão financeira na América Latina, região em que, de acordo com a Global Findex (índice Global de Inclusão Financiera) que publica o Banco Mundial, praticamente a metade da população não tem uma conta bancária.

As cifras deste organismo indicam que a nível global em 2014, 62% da população maior a 15 anos de idade tinha uma conta bancária, enquanto que em 2011 esta proporção rondava 51%. Na América Latina este indicador passou de 39% para 51% no mesmo período de tempo, ainda que exista um avanço, a região se encontra abaixo da média mundial, segundo o índice.

Na população rural esta exclusão é maior. Em 2014, o Global Findex reportou que 57% da população adulta rural no mundo estava bancarizada, enquanto que a América Latina apenas 46%.

O que mudou foi que as conexões móveis na América Latina mostram uma maior penetração. Por exemplo, as cifras fornecidas à 4G Americas pela Ovum indicam que 2015 fechará com 722 milhões de linhas móveis na região e 7.300 milhões no mundo, o que em termos populacionais representaria uma penetração de 114% e 100%, respectivamente. Quer dizer, na América Latina se registram mais acesso que pessoas e a nível mundial espera-se uma paridade em 2015.

E ainda mais da metade das conexões na América Latina acontecem em redes GSM ou 2G, como se comercializa, isto não implica uma barreira para o uso de aplicações de dinheiro móvel, ainda que o acesso à banda larga móvel possa complementar encurtando a distância entre a informação da população.

Assim, a chegada destas tecnologias para populações rurais oferece oportunidade de usar soluções ou aplicações que tomem em conta suas condições específicas que podem diferenciar de outras com mais efetividade em ambientes urbanos. Os programas de dinheiro móvel podem diferenciar de outras com mais eficiência em ambientes urbanos e podem capitalizar a expansão da conectividade sem fio na região. O Global Findex mostra que a nível mundial, as contas bancárias móveis têm uma penetração acerca de 2% da população rural a nível mundial, e na America Latina a 1,72%. A mudança, na África sub-saariana, onde os pagamentos móveis têm tido maior sucesso, a penetração dentro da população rural é de 11,45%.

Em resumo, a região tem todavia espaço para implementar soluções e políticas públicas centradas na tecnologia como um elemento central para a exclusão digital e exclusão financeira. Se bem que a população adota os serviços móveis, se requer a colaboração entre a iniciativa privada e os governos para permitir a expansão de serviços de acesso sem fio, incluindo a banda larga, assim como a configuração de marcos legais que permitem a prestação de soluções de dinheiro móvel por mais atores, incluindo as operadoras móveis, mantendo as proteções à poupança e os direitos dos bancarizados.