O mundo das plataformas e aplicativos móveis destinados à saúde contam com diferentes arestas e participantes, dos quais configuram os mesmos pacientes, que também participam na busca de soluções comum. A possibilidade de contar com uma comunidade com experiencia similar se torna uma ferramenta positiva para os pacientes de distintas doenças.

Javier Artigas – Herrera. Chairman de Connectus Médical

Neste sentido, a plataforma desenvolvida no Uruguai Connectus Medical permite aos pacientes com doenças renais crônicas que necessitam realizar diálise de maneira frequente conectar-se entre si. Dessa forma podem coordenar com diferentes centros de hemodiálise no mundo, permitindo poder realizar turismo ao redor de uma grande quantidade de destinos no mundo mantendo seus cidadãos na saúde.

A plataforma está voltada fundamentalmente na parte do paciente, e na confiança que desenvolve entre eles no momento de viajar pelo mundo. Sobre seu desenvolvimento, as vantagens do uso e desenvolvimento de aplicativos voltados para a saúde, o Brecha Zero conversou com Javier Artigas – Herrara, Chairman da Connectus Médical.

Brecha Zero: Como nasceu a ideia do Connectus Médical?

Javier Artigas – Herrera: A ideia da Connectus Médical nasceu na Argentina, numa época em que eu estava dialisando por causa do meu estado de saúde. A essa altura já tinha ido a Córdoba, onde tive que passar por uma diálise programada. Quando cheguei à clínica onde tinha que fazer, eles não haviam cadastrado meu turno e, como aquele dia era feriado, a parte administrativa não estava aberta, e por isso não podiam me cobrar e, consequentemente, não conseguiram me tratar.

Esta situação me levou a recorrer a quase toda a região buscando um lugar onde pudessem me atender. Finalmente encontrei um lugar onde realizaram a diálise e, mesmo sem terem como me cobrar, me atenderam da mesma forma.

A partir disto, comecei a pensar em uma forma de assegurar a atenção de pacientes na mesma condição que eu quando estão fora de suas cidades. Trata-se de um desafio porquê geralmente os sistemas administrativos, financeiros e de saúde vão por diferentes caminhos, pois é um tema complexo a ser solucionado.

Foi somada à minha situação de trabaho, que também era particular, porquê havia ficado sem trabalho e contava com fundos para realizar o procedimento. Assim, em 15 de agosto de 2015 nasceu a Connectus Medical, onde inicialmente tínhamos 14 centros de atendimentos na Argentina, Brasil e Montevideo. Essa foi a ideia inicial de evolução até a atualidade, onde contamos com 126 mil sócios ao longo de todo o mundo.

Brecha Zero: para qual público está voltado o aplicativo?

Javier Artigas – Herrara: na atualidade estamos focados em pacientes que necessitam de diálise, nossas metas imediatas possam aumentar a quantidade de pessoas que fazem parte deste app. A ideia é aumentar os atuais sócios para até 250 mil, e uma vez alcançado este número, seguramente buscaremos aumentar para 500 mil.

Quem sabe no futuro podemos aumentar nossos serviços para pessoas que tenham outras doenças, como os tratamentos de quimioterapia, por exemplo. Ainda recebemos propostas para incorporar pacientes com outras doenças, mas no momento preferimos nos voltar para onde estamos.

Brecha Zero: Quais obstáculos encontrou no momento de implantar?

Javier Artigas – Herrera : encontramos obstáculos de todo tipo, em primeiro lugar do próprio paciente. É necessário entender que o paciente duvida sempre do que lhe é oferecido, porquê não costuma ter experiencias positivas. Então buscar confiança com cada um dos participantes do app foi uma das metas mais difíceis do lugar.

Inicialmente tínhamos pensado em médicos como sócios para cada um dos pacientes, mas estes não geravam empatia. A verdadeira empatia se deu quando a plataforma começou a contatar pacientes com pacientes. Este processo de confianças que é gerado entre os pacientes foi fundamental para que a plataforma alcançasse um nível global.

Ou seja, considera-se que por suas qualidades técnicas a plataforma não tem valor algum. Ou seja, embora necessitem recursos para implantar, o valor real é intangível que é a confiança de cada um dos pacientes.

Brecha Zero: Existem condições que potencializaram o desenvolvimento do aplicativo?

Javier Artigas – Herrera: A confiança de cada um dos pacientes foi fundamental. Quando um plano ou seguro é contratado, ou um médico é visitado, ninguém pergunta se ele tinha condição para a qual ele iria consultá-lo. No entanto, a plataforma é composta de pacientes, o que gera maior vínculo e empatia entre eles.

Sendo composto de pacientes que conhecem o processo, seja porque o realizam diariamente ou porque o fizeram em alguma parte de sua vida, é muito mais simples gerar empatia entre eles. Ou seja, cada um se reflete na experiência do outro e, dessa forma, é mais simples reconhecer e ter confiança.

Brecha Zero: Que importância possuem as tecnologias móveis em sua implementação?

Javier Artigas – Herrera: As tecnologias móveis são muito importantes para realizar iniciativas deste tipo. No entanto mais importante é abordar o paciente. A humanização da saúde é prioritária, temos que oferecer a cada paciente o mesmo tratamento que esperamos receber. É necessário que se tome tempo para entender as necessidades e demandas de cada um dos pacientes, em lugar de atender cada um em 10 minutos e seguir fórmulas pré-fixadas.

A tecnologia é importante, mas não deve personificar tudo, é primordial que exista um plano de saúde voltado para a parte humana. Em algum momento o setor de saúde tem que colocar o foco no paciente, preocupar-se por suas condições, por suas necessidades e tratar de que possuam o processo de recuperação da melhor forma.

Na formação dos médicos deveria ter destaque a parte humana de saúde. Assim como a parte administrativa, na própria medicina, deve ter foco no paciente. É necessário que se escute o paciente, tanto em temas de infraestrutura como de tratamento. É importante considerar o bem-estar dos pacientes no momento de tratar sua recuperação.

Os sistemas de saúde devem ter o foco tanto no médico, como no paciente. E, fundamentalmente, na relação de confiança entre ambos.

Brecha Zero: de que forma os governos podem estimular a criação deste tipo de app?

Javier Artigas – Herrera: Não importa quanto esforço os governos realizem, se houver a necessidade de resolver um problema nos empreendedores, é impossível que surjam pedidos. Os governos podem organizar hackatonas, reuniões, prêmios, mas isso resultará em mais aplicações focadas no lazer.

É difícil gerar uma aplicação semelhante à que desenvolvemos para um empreendedor que não estava no limite das necessidades. Pode haver boas idéias, mas sem a experiência e conhecimento profundo do problema, neste caso de diálise, é muito complicado que essas aplicações surjam.

Também não é necessário implantar aplicativos apenas porque eles podem ser feitos. É necessário buscar um significado para o que você quer inovar, o que você quer desenvolver, conhecer a parte humana por trás do aplicativo, estar ciente das necessidades daqueles que irão utilizá-lo.