Entrevista com Mario Castillo, Oficial Sênior de Assuntos Econômicos da Divisão de Assuntos de Gênero da CEPAL. Parte 1

Uma das exclusões digitais mais presentes na região, e que são trabalhadas pelas autoridades de maneira constante é a exclusão por gênero. Embora existam avanços neste sentido, ainda é precio manter os esforços para igualar o acesso às novas tecnologias além do gênero de cada um dos habitantes.

Mario Castillo, que é Oficial Sênior de Assuntos Econômicos da Divisão de Assuntos de Gênero da CEPAL

Sobre este tema, o Brecha Zero conversou com Mario Castillo, que é Oficial Sênior de Assuntos Econômicos da Divisão de Assuntos de Gênero da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). Castillo é engenheiro civil industrial da Universidade do Chile, possui mestrado em Business Administration (MBA) pela Loyola College (Maryland) e também mestrado em Gestão Internacional pela Thunderbird School of Global Managment, Estados Unidos.

Brecha Zero: Creio que existe uma brecha na América Latina no que diz respeito ao acesso às Tecnologias da Informação e da Comunicação TIC entre gêneros?

Mario Castillo: Estudos denotam diferenças interessantes enquanto o uso da Internet entre homens e mulheres, sendo que elas acessam a rede de pontos de acesso comunitários em maior proporção que os homens. No uso da internet, a presença de homens é mais forte em áreas de entretenimento e comércio, em comparação com as mulheres, que a utilizam em maior uso para fins de comunicação e educativos.

No estudo do Observatório Regional da Banda Larga (ORBA) da CEPAL de 2017 com base em dados da UIT, observa-se nos países da região utilizados como mostra uma pequena exclusão de gênero em perjúrio das mulheres, com uma média de 0.6 pontos percentuais (p.p). No entanto, a situação individualmente varia, por exemplo, na Guatemala a brecha é de 10 p.p. e no Uruguai de 0,7 p.p., e em alguns casos se dá a favor das mulheres, como por exemplo na Jamaica com 0.5 p.p. e na Colômbia com 0,1 p.p.

Os dados resultam paridades na região se são contrastados com a tendência dada na África e na Ásia. No entanto, a paridade relativa na dimensão ao acesso não necessariamente reflete a equidade em outros âmbitos como os padrões de uso, a obtenção de benefícios tangíveis, a participação cívico política, as habilidades, a produção de conteúdo ou a participação das mulheres na governança da Internet. Por isso resulta na necessidade de seguir com políticas que incorporam a perspectiva de gênero não apenas no acesso às TIC, mas trabalhar no uso e nas habilidades digitais, já que, todavia, aprecia uma brecha estatística para obter dados desagregados e de qualidade em países da região.

Brecha Zero: quais estratégias você acredita que devam ser implantadas nos países para reduzir a exclusão de acesso às TIC entre gêneros?

Mario Castillo: Para trabalhar na redução da brecha entre homens e mulheres, as estratégias digitais devem incorporar um foco de gênero em seus objetivos gerais e online de ação, assim como trabalhar na construção de indicadores de qualidade que permitam o posterior monitoramento que analise a evolução das políticas. É importante apontar que as propostas de gênero dentro das políticas públicas no sentido das TIC não deve ser um assunto unicamente relacionado com o âmbito estatal, mas que deve completar com a interação de esforços e recursos por parte de atores públicos, envolvidos, sociedade civil, da academia e do setor privado na relação com os temas de inovação, TIC, igualdade, educação, saúde e emprego, etc.

Existe uma exclusão digital na região que requer o desenho e implementação de políticas especificas para reduzir, não obstante, a perspectiva de gênero que deve cruzar de maneira transversal as estratégias digitais para fazer frente às diversas exclusões identificadas (em alfabetização, uso, formação, apropriação, ciência e inovação e auto emprego nas TIC, entre outras esferas da economia digital), e em todo aquele âmbito onde meninas, adolescentes e mulheres enfrentam descriminação (educação, mercado de trabalho, segurança entre outros).

Brecha Zero: Quais são os países na região que melhor trabalham na redução da brecha digital entre gêneros?

Mario Castillo: Nos dados de 2016 do Observatório Regional de Banda Larga (ORBA) da CEPAL, aprecia-se o Chile como o país que inclui o tema (Mulher e TIC) especificamente em sua agenda digital, no entanto, deve-se destacar que não é determinante a inclusão temática para definir que se realizem políticas com perspectivas de gênero.

O acesso à internet é o primeiro requisito ao falar de promoção das TIC, a região avançou na cobertura móvel. Dos 18 países analisados no Monitoramento da Agenda Digital para América Latina e Caribe eLAC2018, a base de informação proporcionada pela GSMA intelligence aprecia que em 2017 seis tinham uma cobertura 4G superior a 80% de sua população, e outros oito mostram uma cobertura superior a 60%.

Observa-se uma maior presença de cobertura 4G nos países do Cone Sul e na República Dominicana. As conexões 4G experimentaram um crescimento de 121% entre 2015 e 2016, sendo importante apontar que as pessoas que residem em áreas onde há cobertura não necessariamente estão com acesso à internet ou fazem uso dela.

Na publicação de 2018, “Monitoramento da Agenda Digital para América Latina e Caribe Elac2018” apontam dados interessantes em relação com os usuários de internet segundo seu gênero, tendo casos em que a cifra de usuárias é ligeiramente mais alta que a de homens, como no caso do Brasil, Panamá, Venezuela e Cuba.

Como comentava em uma pergunta anterior em relação à brecha de gênero na região, os dados resultam mais ou menos páreos ao realizar uma comparação em termos absolutos com a Ásia e a África, no entanto a paridade no acesso nem sempre reflete a equidade em outros âmbitos do uso de internet (participação política, participação de mulheres na governança pela internet, entre outras questões).

Na sexta conferência Ministerial sobre a Sociedade da Informação da América Latina e Caribe, celebrada em Cartagena das Índias nos dias 18 a 20 de abril de 2018, os governos da região aprovaram a Declaração de Cartagena das índias, onde se incluiu a perspectiva integral de gênero nas políticas digitais da América Latina e do Caribe, além disso, se aprovou a Agenda Digital para a América Latina e Caribe (Elac2020), onde está incluído o compromisso dos países da região para promover uma perspectiva integral de igualdade de gênero nas políticas públicas de desenvolvimento digital.