Entrevista com Ángel Gallegos Cárdenas, Diretor do Programa de Alfabetização da Rede Educativa Mundial. Parte II

As tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) e, particularmente, o acesso à banda larga confirmam uma ferramenta importante no setor educativo. No entanto, é necessário que as autoridades da América Latina trabalhem sobre os usos que os docentes e estudantes possam dar a estas ferramentas para assim potencializar sua digitalização.

Miguel Ángel Gallegos Cárdenas, que é Diretor do Programa de Alfabetização Digital da REDEM

Esta é a discussão central da segunda parte da entrevista que o Brecha Zero realizou com Miguel Ángel Gallegos Cárdenas, que é Diretor do Programa de Alfabetização Digital da Rede Educativa Mundial (REDEM). Gallegos é licenciado em Administração, Mestre em Desenvolvimento e Planejamento da Educação, e atualmente estudante do Doutorado em Ciências Sociais na Universidade Autônoma Metropolitana, além de ser especialista em análise de tecnologias em educação.

A REDEM é uma organização internacional cujo objetivo é elevar o nível educativo de estudantes e docentes por meio de ferramentas como Internet e as TIC. Nesta plataforma debatem e colocam em comum diferentes projetos a nível regional para retroalimentar-se dessas experiencias.

Brecha Zero: Quais estratégia devem realizar os diferentes governos da América Latina para potencializar o uso das TIC na educação?

Miguel Gallegos: Uma boa alternativa seria, sem dúvida, aprender sobre os especialistas. Em cada nação sempre existem universidades, centros de estudos, ou instituições de educação superior que abordam de maneira especializada as formas em que se faz uso das TIC. Pessoalmente sugiro que os governos escutem a voz da academia, dos professores, incluindo os estudantes, antes de colocar em prática qualquer programa em tecnologia educativa.

Muitas vezes as políticas vêm de cima para baixo e isso não contribui para uma boa implementação e, por consequência, traz resultados ruins.

O manejo de recursos é um tema delicado, da minha perspectiva muitos governos se preocupam em investir recursos em programas de tecnologia educativa que muitas vezes não são os mais indicados para suas comodidades escolares ou para as pretensões que possuem.

Os governos devem ser claros no que querem, melhorar o desempenho de seus estudantes para que sejam incorporados à sociedade já preparados, ou apenas se pretendem incorporar TIC durante seus governos para presumir que estão abatendo a exclusão digital. É forte, no entanto é o certo.

Em ocasiões, os recursos investidos já não se recuperam, por isso sugiro planejar profundamente, seguindo os princípios da elaboração de políticas públicas. É muito importante o planejamento e o que se pretende mudar quando se coloca em prática algum programa.

Como se diz, não apenas dotar e oferecer acesso às TIC, os objetivos devem ir além disso. Hoje é importante oferecer acompanhamento aos professores, capacitação online e, sobretudo presencial.

Considero que hoje os governos devem fazer com que os docentes se sintam acompanhados pelas autoridades educativas, que separam os que não estão sós nesta troca cultural que a sociedade está vivendo. Os estudantes são distintos em relação há alguns anos em que o contexto educativo era diferente. Hoje a tecnologia marca os processos educativos, por isso é tão importante acompanhar os docentes para que não se sintam sós neste imenso dever que possuem enquanto professores.

Finalmente, menciono que os governos devem voltar a olhar para seus modelos educativos. Estes são normativamente transcendentais, de fato o modelo educativo é o que permite que se faça uso ou não das TIC nas escolas. Por isso, há que olhar para esses modelos e perguntar o que pretendem suas políticas educativas e sobretudo como estão sendo implementados seus processos pedagógicos, principalmente se são convenientes para suas comunidades escolares.

Brecha Zero: Quais mercado considera mais avançado na região no que diz respeito à incorporação das TIC no setor?

Miguel Gallegos: Segundo o último relatório global sobre tecnologias da informação 2015, apresentado no Fórum Econômico Mundial (FEM) pode-se identificar que na América Latina as coisas não estão bem, e se vê uma exclusão entre os países do primeiro mundo e os nossos.

Entre os menos atrasados ​​da América, encontramos o Chile, Porto Rico, Uruguai, Costa Rica e Panamá, estando acima da Colômbia, Brasil, Trinidad e Tobago, México, Peru e Argentina, o que também marca uma lacuna entre os países latinos.

Da minha perspectiva, coincide com estes dados, pois é o primeiro bloco de países segundo o banco mundial, mantendo uma boa economia, o que se vê refletido em um melhor uso das TIC, entendido isto como uma eficiente banda larga, um uso cada vez mais demandante dos diferentes setores da população e sobretudo a incorporação das TIC na agenda oficial dos governos.

Creio que valeria a pena fazer um estudo mais profundo disto, considerando os tamanhos da população de cada país, o estado socioeconômico e político, o nível educativo, as provas de padrão dos órgãos internacionais, entre outras variáveis, podem fazer um comparativo mais preciso e identificar as diferenças entre os países da região. Sem dúvida, aprender com os que saem na frente.

Brecha Zero: Quais investimentos considera necessário no setor privado para potencializar a adoção das TIC no sistema educativo?

Miguel Gallegos: É uma pergunta muito interessante e não é simples de responder, já que estão em jogo decisões governamentais, políticas públicas, contextos políticos e sociais de cada país, e sobretudo decisões de fazer ou não investimentos nos sistemas educativos.

Com a globalização econômica, as áreas com oportunidades que o setor privado tem são muito grandes, no entanto no âmbito educativo as possibilidades são um tanto quanto limitadas, já que as Constituições Políticas dos países latino-americanos impendem a maioria dos casos que o setor privado investe de maneira direta na educação pública.

Considero que seria bom algum tipo de aliança entre os governos e o setor privado, com a finalidade de unir esforços e criar sinergia para gerar programas de atualização e capacitação digital para docentes e estudantes de todos os níveis, além de gerar um melhor acesso aos dispositivos móveis para uso educativo, finalmente seria muito bom aumentar a largura da banda nos países latino-americanos. Por isso, aumentar, como venho dizendo para melhorar os usos. Não basta ter rapidez na conectividade se os usos forem somente para diversão e comunicação.

Brecha Zero: Qual é a importância da banda larga móvel na implementação das TIC dentro da educação?

Miguel Gallegos: Sem dúvida que a banda larga tem um papel muito importante na hora de revisar as economias das nações. Diversos estudos indicam aumentos percentuais significativos quando a banda larga aumenta. Isto é muito bom.

Ainda que os setores mais favorecidos são os da manufatura, serviços, governo, transporte e saúde, principalmente, a educação fica um tanto atrasada, não se veem diferenças. Se as economias são favorecidas para melhorar a banda larga, seguramente poderiam ter aumentos significativos nos sistemas educativos na hora de usar as TIC, sempre e quando se considere que a banda larga também é outro fator decisivo nesses sistemas educativos.

Os sistemas educativos estão cheios de diversos fatores e, para um correto funcionamento bons resultados, todos os elementos devem trabalhar harmonicamente e assertivamente.

O acesso aos dispositivos móveis, com uma banda larga cada vez mais potente, por si só, não traria benefícios quando se trata de educação. Digo isto, não por ser pessimista, mas porque estou consciente de que os usos que vem dando a estes dispositivos, não são usos educativos. Por isso, a par de aumentar a banda larga móvel, considero que se devem gerar programas de conscientização da tecnologia, de uso educativo e de cultura digital para que tenham sentido na educação, aumentem a banda larga, e façam bons usos da tecnologia da educação.

Por sua vez, diz-se que o objetivo de melhorar a banda larga utilizada nos sistemas educativos contribuirá com a intenção de estender a educação para todos os recantos de cada nação. No entanto, parece que ele não tem sido suficiente. Resta muito a ser feito em ambos os casos nos países da América Latina, tanto melhorar a banda larga, como contribuir para a cobertura e extensão das matriculas escolares e em todos os níveis educativos.

Para maior fluxo da informação, maior imediatas nas operações, transações, downloads e em todos os processos digitais, algo muito bom. Não tenho a menor dúvida que melhorar a conectividade pode ajudar muitas coisas em todos os setores da sociedade, mas antes disto, devemos ajudar as pessoas, sobretudo, se são estudantes ou professores que estão cientes dos usos que dão a esta conectividade.