Entrevista com Fiorella Haim, Gerente Geral do Plano Ceibal

A utilização das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) na Educação tem muitos exemplos na América Latina. Entre eles sempre se destaca o desempenho do Plano Ceibal no Uruguai, como um caso de estudo para referenciar a aplicação da tecnologia neste setor.

Fiorella Haim
Gerente General
Plan Ceibal

O Plano Ceibal é responsabilidade de Fiorella Haim, Gerente Geral, formada como engenheira elétrica pela Universidade da República do Uruguai, com mestrado na Universidade de Maryland, iniciou no Ceibal em 2007 e passou por diferentes posições. Ela conversou com o Brecha Zero sobre a abrangência do projeto.

Brecha Zero: Quel é o principal foco do plano Ceibal? Como beneficiou a sociedade uruguaia sua implantação?

Fiorella Haim: Nossa missão é alcançar a equidade, por meio do apoio ao sistema educativo utilizando a tecnologia para poder melhorar o processo de aprendizagem. Desta forma, trabalhamos para que todas as crianças que frequentam a escola pública possam contar com um dispositivo de acesso e conectividade à Internet em todos os centros educativos. Assim podem acessar plataformas de conteúdo, livros e cursos.

O plano teve início em 2007, em sua fase de testes. Em 2008 e 2009, foi alcançada a cobertura de todos os centros educacionais do país, fornecendo dispositivos de conectividade e acesso para crianças em idade escolar de 6 a 15 anos. Essa situação foi melhorando gradualmente, conforme foi adquirindo mais largura de banda e melhores dispositivos de acesso a cada ano.

Obviamente, isso foi modernizado ao longo dos anos, atualmente quase não existem mais as condições iniciais do plano, elas evoluíram de acordo com a evolução da tecnologia. A cada ano, o equipamento é renovado para crianças que iniciam na educação pública e a cada três anos, todos aqueles que têm todos os jovens do sistema público de educação são renovados.

Além disso, no início, o plano permitia que todos os alunos acessassem uma biblioteca com conteúdo específico de livros necessários para a escola. Com o tempo, diferentes livros de leitura recreativa foram incorporados. Em 2015, foi incorporada a possibilidade de acesso de aposentados a essa biblioteca, com alguns livros especiais para adultos. E desde dezembro de 2018, a livraria estava aberta a todos os habitantes do país. Assim, a meta de patrimônio perseguida pelo plano foi atingida novamente.

Outro exemplo do uso da tecnologia é o programa de inglês, um idioma obrigatório em todas as escolas públicas. No entanto, sua implementação foi difícil, pois não havia professores suficientes no campo. Para resolver esse problema, uma rede de videochamadas foi desenvolvida para dar aulas simultaneamente para escolas onde não havia professores de inglês. Para realizar esta parte do programa, foram assinados acordos de conteúdo diferentes e com professores, para que as crianças pudessem ser ensinadas de qualquer lugar do mundo. A equidade também foi alcançada, uma vez que era possível passar de 30 mil crianças que receberam aulas de inglês para mais de 110 mil em todo o país. Essa situação também foi observada quando as avaliações foram realizadas no final do ano letivo, que apresentaram resultados semelhantes, independentemente de onde as escolas estavam localizadas.

Brecha Zero: Nestes 10 anos de funcionamento, qual é a avaliação do plano?

Fiorella Haim: A avaliação é positiva. Especialmente considerando a continuidade do próprio plano, a avaliação é bastante satisfatória. A entrega de novas máquinas, os resultados da equidade foram alcançados com diferentes crianças. Os cursos também foram desenvolvidos como parte do processo de aprendizagem da execução do plano, que incluiu o desenvolvimento de pensamento relacionado à computação, matemática, pensamento crítico, robótica, aprendizado baseado em diferentes projetos, tópicos obviamente discutidos com todo o sistema educativo.

Também temos um departamento de avaliação, que analisa periodicamente as políticas e a direção do plano. É também uma conquista como incentivo às crianças no desenvolvimento do programa, como também foi trabalhado do ponto de vista de que as crianças podem expressar o que estão procurando nas escolas e seus conhecimentos.

Brecha Zero: Quais são os maiores desafios no que se refere à implementação do plano?

Fiorella Haim: Nosso programa baseia-se em oferecer acesso aos centros educativos e outorgar computadores de maneira universal. Também contamos com plataformas que interagem com os docentes para participar e gerar conteúdo. Gostaríamos que universalizasse a robótica, que possa chegar em todos os cantos com a formação em programação, na aprendizagem por projetos, no incentivo dos jovens.

Brecha Zero: Qual a importância da entrega de dispositivos e conectividade em um plano como o Ceibal?

Fiorella Haim: Eu acho que a coisa mais importante é a conectividade. Hoje em dia é inconcebível que não haja Wi-Fi gratuito em uma escola. Todas as escolas precisam ter WiFi, é como ter eletricidade ou água, elas já devem estar pensando na construção de cada nova escola. Claramente, apenas o WiFi não basta, é como a eletricidade, sem ele não se pode avançar, é por isso que tem ter.

Quanto aos dispositivos, sempre estávamos convencidos de que deveríamos seguir o modelo de um aluno por computador. Com base na ideia de equidade, buscou-se que todos pudessem acessar os dispositivos. Quando o plano foi lançado, 90% das crianças nos primeiros cinco anos de escola tinham acesso a um computador, enquanto apenas 9% das crianças no quinto ano podiam acessá-los. Hoje, 90% de todas as crianças têm contato com pelo menos um dispositivo.

Brecha Zero: De que forma geram conteúdos para os alunos que utlizam o plano?

Fiorella Haim: Realizamos diferentes licitações para a compra de conteúdo em grandes plataformas. Temos um canal de recursos educacionais gerados pelos próprios professores, que podem baixar, modificar e compartilhá-los novamente.

Também temos aplicativos para tablets, focados em conteúdo educacional. Existem diferentes aplicativos que têm temas semelhantes aos livros didáticos, especialmente para crianças de 6 e 7 anos, onde eles podem interagir com os mesmos personagens dos livros.

Brecha Zero: Qual a importância das tecnologias de banda larga móvel no desenvolvimento do Plano Ceibal?

Fiorella Haim: A maior parte do acesso é por fibra ótica, principalmente nas cidades e locais onde essa cobertura chega. Nas áreas rurais, LTE ou 3G é usado de acordo com a tecnologia disponível. Em alguns casos particulares, também são utilizados acesso dedicado e acesso via satélite.

No entanto, devido ao tipo de conteúdo que precisamos transmitir sempre que possível, fornecemos serviços por meio de fibra. Mas nas áreas rurais você chega com as possibilidades que a tecnologia nos oferece. Atualmente, estamos trabalhando em conjunto com a operadora estatal (Antel) para melhorar a conectividade em links dedicados.